Wednesday, July 16, 2008

A Mesma Coisa - para ler enquanto o gajo fala

História nº 81 da rubrica 1002 Noites



Produção do
Anoitecer do Tom Dela
para a Emissora das Beiras
- 3ª hora do Anoitecer (entre as 20 e as 24 horas, de 2ª a 6ª feiras).

Sonorização de Sandra Bernardo.


A Mesma Coisa
Viseu, Café Avenida, tarde de 26 de Junho de 2008


1
Os mortos preferem o lado solar das ruas, por onde passam acalmados pela sarça ardente que junho é no fim dos dias. Passam o resto da eternidade com os ossos cheios de terra gelada, coitados, de modo que preferem o lado solar das ruas, por onde passam ardentes à calma. Nós, os vivos do comércio, cosemo-nos à sombra de bocas abertas como peixes, como engolidores de fogo. E o pó e a cal desenham-nos os olhos – e na calma somos egípcios, egípcios devorados pela areia.

2
Numa tarde de um junho, a luz era tanta, que nenhum ano do Senhor lhe correspondia. Era além do tempo, aquém da contagem, o cá era longe e o além era a mais próxima virtude, digamos, do coração. Os mortos e os vivos transitavam em ruas com bilhete de sol & sombra como nas touradas. Eu estava de ambos os lados – decerto por causa da não coincidência entre, digamos, o coração e a cabeça. Na tarde, à calma ardente, vi ao mesmo tempo uma casa em ruínas e um prédio em construção – e eram a mesma coisa.

3
Acontece que envelhecer é só ter anos terminados mas não meses determinados – muito menos tardes, ruas muito menos. Falo-vos do trânsito dos mortos numa tarde interminável (interminável enquanto escrevo) de um junho cujo ano não sei, nunca pude saber, sabereis talvez vós qual foi – ou será. Interminável e indeterminável – é a mesma coisa.

4
Então, aconteceu uma coisa maravilhosa. Pensei (dizendo de melhor maneira: senti) que amanhã podia ser. Senti que o amanhã podia ser. Que podia ser que fosse – ou viesse a ser – amanhã. Era por causa da luz. Era por causa da luz a ser. As ruas, estabelecidas pelo comércio de sol & sombra entre mortos & vivos, vincavam panos pretos, laranjas de puro oiro, água nas veias, rápidas lápides, ríspidas cúspides – a árida avidez da ávida vida que há a haver. A haver e a ver – é a mesma coisa maravilhosa.

5
Nessa cidade interminada e indeterminada que tanto podia ser, sei lá, Viseu como Santarém como outra cidade qualquer, recordei, vendo os mortos passar à calma dos vivos, a casa-de-pasto onde, criança de outro junho e de ano algum, a família me levou a conhecer um galo de cabidela cujas tíbias apontavam o céu de madeira da sala-de-jantar. Era numa casa de família que servia veraneantes pobres. Éramos antes o Verão e éramos pobres – mas tínhamos para o galo e para ter ido ver a água. Eu vejo isto passar, à calma.

6
Comemos o galo, houve daquelas graças privadas que são o código das famílias, os indetermináveis anos terminais transitaram outros junhos e os novembros mesmos, cresci, estamos aqui todos a esta mesa vendo os panos pretos das ruas, onde os vivos, e os dourados, onde os mortos. Isto já foi e isto vai ser – com outros jogadores, as mesmas cartas e as mesmas regras: e a mesma coisa.

7
Nisto, o coração e a cabeça morrem e vivem. Nascem muito, ambos, perto da refrigéria fonte, da diamantina estatelação, digamos, de constelações, de estatelamento de firmamento, digamos. E a noite das preocupações habita a tarde flava, a fulva véspera, a estiva da roda dos estios, fundos os altos poços da montanha, até por recordação ser dar corda ao coração – por repetição da mesma coisa.

8
O sol arde mais do vivo nome dos mortos que passam ficando. Eles preferem o lado solar, têm os ossos plenos de terra congelada, coitados, estão tão sozinhos na permanência das tardes sem anos numeráveis. Nós, os vivos, os do comércio que há-de morrer quando de novo chover como antigamente, nós abrimos as bocas e engolimos fogo e somos peixes na natação do nada – que é tudo o que podemos.

9
Nasce uma criança para lados do poente, o parto é tremendo em casa, mulheres acorrem à mulher soerguida na cama de ferro, trazem água quente, linhos lavados como a luz, a figueira do pátio uiva como um lobo subido à montanha da lua, onde junho interminável abriu uma cratera de recordações futuras. A nova criança há-de ser um dos mortos mais solares que os vivos puderem recordar. Ou recordares tu, à calma.

10
Peço-me e despeço-me de ti, convosco. Não mudarei de rua, mas de lado dela. Tenho bilhete para a tourada. Umbroso solário, ominoso e uno – que não vário –, recordo o galo pobre cujos perónios apontavam o firmamento de madeira da humílima casa-de-pasto rés-da-barragem em outro junho mesmo que este. Nisto, então, ou agora para sempre, um dos mortos vive-me, a gelada mão direita, a que escreve na boca que fala, erguida em sinal de saúde ou de, o que é a mesma coisa, até mais não ver.

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