terça-feira, março 24, 2020

VinteVinte - 5 (edição truncada aqui e ali)




5.

QUINTA A DOMINGO

Coimbra, de 16 a 19 de Janeiro de 2020



I

Mantiveram-se afastados a cidade & o campo.
Mal fui, se alguma vez fui, à janela.
Preferi a zona da casa que voz profere.
Ouvi falar a mulher que foi enjaulada.
Foi enjaulada por ter querido uma morte.
Pagou a um homem para lhe matar o marido.
O homem era polícia à paisana.
Ela caiu na esparrela, desolado o marido.
Tragicomédia de tudo isto.
Fui depois a França, escutei vítimas.
A Cidade-Luz & suas Sombras-Macabras.
Abriu as pernas aos ratos, agora lixa-se.
Depois da sopa, o sono nada quis comigo.
Li papéis alheios, pesados já de anos.
Um deles era um triplo manuscrito.
Era em Língua Portuguesa, a mais bela.
O original é de há perto de dezoito anos.
Lembro-me de ter entrado em a posse dele.
Lembro-me desses dias a que chamei meus.
Aquelas três folhas eram tristíssimas.
Primavam por a mais crua verosimilhança.
Reli-as sabendo que morreu já o autor delas.
Matou-se, sei disso também, lamento-o.
Distraí-me brincando com o Gato.
Ele prefere a bolita azul, tem guizo (a bola).
Gostamos de jogar às escondidas.
Ele é criança, tem oito meses (dos de humana contagem).
Eu sou um museu do século passado.
Ouço em lápis as vozes, dou-lhes corda.
Nem sempre prestidigito o enunciado.
Também me acontece não ser nefelibata:
Também sei escrever pão-pão-queijo-queijo.
Não sei é viver pão-pão-queijo-queijo.
Ou escolhi não viver pão-pão-queijo-queijo.
Morrer, morrerei pão-pão-queijo-queijo.

II

Primeiro, três homens maduros encontram-se.
Um quarto, desertor da trincheira, acaba morto a tiro.
Um quinto, primeiro a nascer dos cinco, é de Coimbra.
O quarto não deixou obra conhecida – ou reconhecível.
Aqueles três, sim – extensa & superior.
A do quinto, afinal primo, é perene.
Pensa-se que o desertor era natural de Paris.
O trio é inglês todo ele, dúvida nenhuma.
É toda, a manhã que dedico ao quinteto.
Trata-se portanto de matina plena, forte, não-vã.
A obra do de Coimbra é toda luz.
O de Coimbra, ele foi todo sombra.
Mesmo assim, logrou viajar não só por dentro.
1915 é o seu último ano em Portugal.
Terminalmente doente, poupou todos ao nada.
Os três de Inglaterra não eram ainda nados.
O parisiense, sim – e bem adulto já.
O conimbricense é visita recorrente desta casa.
Os três albiónicos também me frequentam.
O quarto, todavia, também daqui desertou.
Quando vier a tarde, de novo lhe será tarde.
O quinto foi exacto relógio de si mesmo.
De si mesmo só – e de exactamente ninguém mais.
Os da majestática ilha vivem bem com os outros.
O gaulês foi furibundo, ardeu em vertigem velocíssima.
Vai-se dissipando porém a manhã dos cinco.
Sei-me só muito em breve, tudo o indicia.
Marulham ampulhetamente as clepsidras.
Arrulham pombamente as águas, as pedras.
Resta-me quanto me cabe.
Incumbe-me quanto (me) (s)obra.
Já cada um por & para seu lado, aqueles três.
Olvidado já o prófugo francês.
O de Coimbra continua em sorti’flori’légio.
Orquídeas secas ainda o incensam.

III
A Camilo Pessanha, nado em Coimbra

Orquídeas secas ainda o incensam.
Pretéritos perfumes o habitam
Indo à praia, mais as aves gritam
Em casa, são os móveis que o pensam.
Orquídeas, perfumes & novéis aves
Palpitam ao derredor sua pessoa
Em anilados dias purpurinos.
Perfídias, azedumes & agravos
Concitam acre dor, não sendo boa
A púrpura dos dias pequeninos.
A cima o chão de mortos adubado
A baixo a futura árvore alta
Derredor o pão de mais adiado
Adentro nem a morte o sobressalta.
Águia-de-Prata & caneta de ouro
A vida, é da morte o tesouro
Tesouro era Ana de Castro Osório
Não pôde ser amor, o amor é duro.
O amor não tem futuro, só passado
Roxura de Oriente violáceo
Azula-se o vivente opiáceo
O soneto ele o traz rememorado.
(Maria do Espírito Santo, ó Mãe!
Teu macérrimo filho passa a vau
O Mondego ora chamado Macau-
-Clepsydra, ó minha Mãe ou Meu-Ninguém!)
Gaze sobre ferida purulenta
Lenta devastação Camilo’vida
Vou a ver o Pessoa no Montanha
J’ão Osório de Castro não m’olvida.
E 1915 é seu ano
Final em Portugal, que outro não mais
Que outro não mais, sabei, ai, que outro não mais,
O ’26 de borla por engano
Orquídeas ainda o etcetram.

(IV)

(Tantos verões hão-de somar-se inverno
Sumir-se sem contas a ninguém prestar
Alçapões que a lembrança requer ter no
Alcácer afinal Quibir d’Acabar.

Tanta merda d’açúcar ser amarga
E andar ao cartão-rainha-santa
Ter edema tratável à ilharga
E infante ser a forma, não infanta.)

V

Messes trigais, doudas d’ouro,
bramam fulgor olhar adentro.
Estepes siderais, lácteo tesouro,
clamam d’ardor zero-epicentro.

Já não ’stremeço, nem me sinto
capaz de mores contrariedades.
Demolho a alma em o absinto
& então sim, venham vis arbitrariedades.

VI

Peguei-me em corpo e levei-me-o ao domingo
de bairros apagados em plena luz sem culpa nem inocência,
(...)
ando à sombra de sossegado prédio d’arrabalde,
dó de mim o não tenha quem for ou não vier,
quase-dó tenho-quase eu de quase-muita quase-gente,
enfim, sigamos para outro bingo desse bem diverso,
o meu baile é sozinho ao som da orquestra de só um,
sinto a pele mordida da varejeira da consciência,
o amargo-de-boca sobe do hálito, ou hábito, ou óbito, do coração,
o dia há-de vir de a última página abrir o livro
da minha morte irrelevante, neutro mantra,
icei do chão mais lixo do que a ele joguei,
essa a minha alvíssara mais vera & mais honrosa,
rosa me dei eu ao porvir em cada Filha,
(...)
sou educado, dou as boas-horas, não Vos esmolo,
um homem não é outro é um homem só um homem
é assim que está bem, assim legisla a natura
queríeis quê?, batatinhas?, aqui já demos,
sulquei o passado & já sei lê-lo,
o meu ontem tem bem mais de meio-século,
vem-se-me pergaminhando a pele do rosto,
seca é a fonte de leite da minha virilidade,
à sexta-feira como carne se for sexta & eu tiver carne que comer,
aos domingos entristeço como toda a gente,
como toda a gente desde que o catolicismo foi inventado,
má-hora essa de tão ingente retrocesso darwinesco.
-simiesco, por assim dizer, ando por aí ao verso,
ao reverso também da indiferente indiferenciada grei,
purgo-me sem pressa na demora portuguesa da minha vida,
acho uma graça infinita às/nas asnas mais pueris nadices,
o sorriso de lustral felicidade deste parolo aqui
a quem dez euros acabam de sair na raspadinha,
a goela moralóide d’além a gaja madurota
falando da morte da lêidi-dái coitadinha & santa,
daquele meu coleg’acolá inchado de alc’ólica tumescência,
biqueiras medievais as dos borzeguins daqueloutra sessentona,
alegra-me profundamente a superficialidade dos morituros,
saúdo o césar-nenhum desta coliseica arena vã,
tu-és-burro-ou-comes-merda-às-colheres?
exclama a varejeira (va)ginopausada da tal madurota, 
o meu ano-via-crucial é 1986 por razão minha particularíssima,
espero tão-só que debande depressa a matilha
indigente que me sobressalta a esplanada,
vigoro neste poema em absoluta autocracia,
pelo que dispenso bem vizinhança, freguesia & rèlesia,
pedem-me lum’isqueiro, que sem preço concedo,
não me tenho deitado tarde & tenho despertado cedo,
gosto de ir abrindo subterfugitivas frestas autobiocuscas,
por assim dizer gosto, depois a amargura ressuscita,
enfermo de um luto-lázaro, o problema é meu,
dou a cara sempre mas nunca a outra face,
nesse & noutros aspectos quero que Cristo bem se dane,
o Verão-1999 não torna nem eu a ele, (ó alegria!),
a & à Primavera-1986 é q’infelizmente sim & p’ra sempre,
não confundo as dinastias com as tias da Dina,
em Março de 1988 cursei milicianamente Mafra,
dessa mocidade já então triste desassentei há muito praça,
tenho escorado os rombos da vida aos pombos dando pão,
ainda ontem fiz disso sábado no Jardim da Manga,
manuscrevo há anos efemeridamente a minha passagem,
agenda de ano-de-todos-os-anos conservo & averbo,
1-de-Janeiro-de-1449-nasce-Lourenço-de-Médicis-o-Magnífico,
31-de-Dezembro-de-1976-vivo-com-os-meus-Pais-na-minh’-última-Casa-única,
às 16h59m de Domingo-19-de-Janeiro-de-2020, sim,
acontece a passagem de um corpo bonito nesta cercania,
poderosa ganga de feminil couro, deus-a-guarde,
olho-azul-cabelo-trigo, mama-dura, pé em neve soterrado,
morango-bífida dela a labiação, fria & pétrea de coração,
desses corações como as musas-gajas do Camões,
recordo o meu tio não-carnal Benedito Duarte,
fui ao funeral dele, de minha Casa-Original ninguém mais,
isso ninguém mo tira que ninguém me lo deu,
a meu primo-direito Carlos Benedito, dele filho, fui idem,
nem santo nem pecador vou botando figura
quando ela é precisa a quem padece de seu-meu-1986,
de resto estamos bem, òbrigadinhos ó pàzinhos, (...)
tirante isso, olhai, tudo bem, segui Vós vossa vã voz,
que eu & à minha sigo, peguei-me em domingo
a sós,
aliás a lilás sou capaz de te pintar a manta a três,
já vês pois que diz a sós quem for juiz,
meu velho Ruy B., dez anos que eu mais novo,
em borboleta asada o livro teu aberto tenho a mim (de)fronte,
encortiça-se-me o coração de te ver madrid, perdão,
madrigando os anos pós-Roma-ante-morte,
outra efeméride da minh’agenda, olha(i):
“Praia da Consolação, 18/IX/1973”,
onde ominosamente escreves
“no quarto onde eu morrer sozinho”,
assim foi & assim há-de ser, belo senhor Belo,
8-de-Agosto-de-1978, de edema pulmonar etc.,
(...)
o-cu-&-cinco-tostões eu dei já à poesia,
arte de capados-sociais, músicos-p’ra-surdos,
(...)
já José Pinho foi meu cavalheiro-treinador
no saudoso Clube de Futebol União de Coimbra,
vi-o agora mesmo, saudei-o como grato ex-menino,
esta cortesia é meu Pai por mim falando ainda,
nada me impede a viagem antecemiterial,
sou afinal um fruto cujo usufruto é Portugal,
uma hora minha é fisiologicamente sete para o meu Gato,
cativo-inocente-de-um-primeiro-B-andar,
não disponho de fortuna que o fizesse andar
em jardim a lagartixas & borboletas,
deus-o-deus-dos-outros-me-perdoe
mas é que na fenda diamantina
de seu olhar vejo ainda cada uma minha Menina,
(...)
11-de-Maio-de-1994, sou livre de minh’amnésia,
d’outra-banda é Santa-Clara-a-Velha de 6-séculos,
a concubina-d’-El-Rei vai ser passada a faca,
Inês-era-uma-vez, olhai, razões-de-Estado,
(...)

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