Wednesday, November 02, 2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 42. FALA-ME-TE - Leiria, quarta-feira, 1 de Junho de 2011



42. FALA-ME-TE

Leiria, quarta-feira, 1 de Junho de 2011

Cumpro o meu luto, cumpro a minha luta.
Num café chunga dotado de mulheres que vozalteiam foda-se-caralhos sem grumos linguais. Primeira tarde de Junho, o ar e a luz abafam ainda da compressão trovoeira do ido Maio. Uma vaga ânsia pela restrita eternidade da época balnear. Uma ânsia não tão vaga assim quanto ao resto, rosto incluído. Resistir, não ceder a pensar descoroçoadamente no que fiz/tenho feito da minha vida. Abençoar os últimos dias lidos: L. P. Hartley, Alberto de Oliveira, Marcel Proust, Alfred Döblin.

*

Estou como necessito (e não posso deixar) de estar: cercado pelas minhas personagens tão vivas quão anónimas: a gente dos cafés, das ruas, das praças, das repartições, dos destinos cruzados e justapostos em regelante combustão. Pessoal que fuma Chesterfield porque o Marlboro está pelas horas da morte; cavalheiro de voz palhetada a metal seco perorando contra o aumento do IVA; velho magro de relógio (ainda) Timex no pulso com quisto sebáceo; senhora de saia-casaco (tudo cinzento: cabeça da senhora, olhos da senhora e saia e casaco); careca integral (sobrancelhas incluídas) como aquele árbitro italiano dado a protagonismos (i)mediáticos; trabalhador da Câmara emborcando à pressa uma çúrvia gelada; um sôtor que fuma Português Suave; adolescente tardia no proscénio da auto-adoração tipo-TVI; a minha mão esquerda vigiando o formiguismo compulsivo da irmã dextra. À vista, uma cabeleira tília transparece à luz aurífera. Um homem passa dizendo à mulher:

– Um quilo de arroz ou coisa assim.

Em coeva dimensão, floresce-me na cabeça de dentro uma pandora livre de verbo’stantivos interamnenses: insuficiência popular portuguesa; operariado do Barreiro e da Covilhã; ultramontanismo à Viseu e à Rio Maior; os pintores Lima de Freitas e Henrique Medina; os doutores de Coimbra-imbra-imbrinha; uma pratada de arroz-pardo riscada de vinagre; flausinos e flausinas do hipópe com as calças descaídas ao rêgo do cu; a susceptibilidade tísica de Nobre, o messianismo socialista de Antero, as cafeteiras consecutivas de Oliveira Martins, o rancor e as pêras verdes de Fialho, a mulher responde ao homem:

– Eu dou-te o arroz.

*

O castel’alto vive de horas mortas.
Somos romeiros de que orago?
Não rectas, as noites são tortas.
São tortas, bem no sei, olha o carago!

*

Isto vai. O meu corpo não, mas eu sim, estou numa divisão fresca com mapa-múndi na parede cravejada de pontos de ouro (o sol filtrado pelos interstícios do estore quase todo cerrado). Sinto-me bem, sem pressa, presa fácil da imaginação. A Collier’s, a Britannica, o Larousse e o Guia Horário da Ferrovia do Tua garantem-me possibilidades infinitas. Um cadeirão forrado a couro castanho tem por sentinela um cinzeiro de pé-alto. Em dois minutos, o chá está pronto. Só não tenho corpo para o tomar, nem traseiro para o cadeirão, nem boca para cigarros – nem cigarros.

*

Agora em uma quinta com álea de pereiras-de-inverno, rosa-dos-ventos coroando nora e poço, a casa dos animais paredes-meias com a do forno da broa, a casa dos Senhores levitando fantasmas à corrente-de-ar-e-décadas, os jardins encordoados de buxo, o celeiro sufocante e a adega gelada, a eira fissurada onde não mais batem – jamais rebaterão – os varapaus nas pepitas de milho: e em torno o grande pinhal lustroso de esmalte como o mar e como o mar grande e profundo e alto.

*

Fala-me do enforcado e do século dele,
do padre e do regedor que o mandaram
matar por falta de dízimo e de portagem.

Fala-me do médico que se enamorou
do cavador para quem o amor não era
coisa que se cultivasse sem o perdão de Deus.

Fala-me da estrada que se fazia vidro
no estio coronário da infantil respiração,
lá quando as nespereiras enferrujavam já.

Fala-me das vaginantes cabras acordando
na rapaziada o sobressalto tão abaixo
da fusão dos leites, do sangue, do tremor.

Fala-me da melancolia regular como o mênstruo,
da cal das tardes, do musgo das sestas,
da babilónia das aves assobiando o açúcar dos figos.

Fala-me da infância, do qu’é feito dela,
da Zabela, da Carminda, da Lucinda, d’Alice,
fala-me e diz-me da não eterna meninice.

Fala-me da nossa ida gente da nossa vida,
das tardes largas e brancas como linhos de casamento,
das noites puras até doer na boca insone.

Fala-me do trevo-em-flor-mijão ao mordisco,
do grilo em fuga atarantado de mijo na toca,
dos papagaios de papel-de-seda, meia cana, cola-de-farinha.

Fala-me do rei que mataram a tiro no Terreiro,
o rei que mataram a tiro como vi eu fazerem
aos bois mansíssimos no matadouro industrial.

Fala-me de quando Fundições, Porcelanas, Silos, Cerveja,
Têxteis, Caldeiras, Fiações, Hialurgias, Camionagens,
de quando tudo funcionava e era normal tudo.

Fala-me de tudo, mesmo que nada me ensines,
mesmo que, afinal, eu me fale sozinho e por
anáforas, esses reinícios que renascimentos não são.

Ou cala-te,
cala-te-me,
então.

*

A maior parte das lojas fechou já,
muitas não reabrirão amanhã.
Mecânicos e carpinteiros bocejam nas oficinas,
as almácegas apodrecem à inclemência.

Os salgueiros-da-Babilónia pranteiam
os murchos rios que outrora
corriam, sem que lho mandassem,
caminho do mar, quais petizes felizes.

O meu país é o que Lisboa não quer,
Poeta, que o mar culpa não tem,
Ruy.

*

Leiria, Avenida dos Combatentes da Grande
Guerra. A Caixa de Crédito é ao lado
da Casa Evangélica. Naquela, é receber
agora e pagar depois. Nesta, pagar
já e receber depois a-ver-vamos-ou-
-não.

*

Melíflua, bondosa, fluida, benigna
Língua minha:

permite ’inda que me viva
a gente que amei e me amou
na inconsútil seda dos anos
sem descafeinados nem urologias,
sem abatanados nem oncologias,
sem amalucados nem malvasias
– e só completas noites e longos dias.

Em troca, ó Benigna,
ó Bondosa, ó pura Rosa,
ó Língua minha,

reviver-te-ei cada dia meu
em tua noite sem meças.

Mais te não peço,
menos me não peças.

*

Espumo pelos cantos da boca o salitre
português e sonoro dos nossos dias
sem culpa nem perdão.

Isto de ter língua e ser medíocre poeta
é como ter mar e não saber fazer barcos.

Mas espumar, espumo:
e todos os dias – e a prumo.

*

Daqui a nada saberei por certo
que quando de dois um deixa de ser,
o que fica, não fica
a ser mais um
que nada.

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