Thursday, November 10, 2011

Rosário Breve nº 232- in O Ribatejo - www.oribatejo.pt - 10 de Novembro de 2011



Com e sem (h)agá

Sobre o tampo-tempo de um aparador muito antigo, artigos de louça sobem os anos e a atenção infinitesimal das pessoas mais sensíveis a louças e aparadores.
Um espelho de estampa inglesa mogna mercúrio, à direita de quem entra – e à direita também de quem sai, se se sair de costas: como geralmente à terra, saindo da vi(n)da, se desce. (Nasce-se de barriga, é certo: mas é de uma sala que vos falo agora, não disso.)
O espectro da Avó perora a Receita Verdadeira do Leite-Creme a um canto: canto-ântico dela. Tem um invencível ponto-negro na base da orelha esquerda: nenhum dos maridos foi homem para, nele reparando, lho espremer. A Avó foi dessas senhoras a quem faltara oferecer louça e ouro. Algum e alguma obteve em vida: mas agora – em crónico texto – com nada disso lhe faltarei.
Há uma mesa-frasqueira em que pontificam o clarão glauco do licor de tangerina, a seda ígnea do conhaque, o rubi perpétuo do porto, o sifão espichador de soda e a ternura incomensurável da garrafa de groselha. Há avelãs, num pires da LUFAPO – Faianças & Porcelanas de Coimbra.
Não falta maravilha a esta sala morta onde as coisas defuntamente vivem: o equívoco monárquico-republicano dos bigodes fotografados, a renda-de-bilros poalhando-se cinza respiratória (se alguém respirasse); a pantera de ébano colonial do tio dado a safaris e a portuguesas rodésias tipo Capelo-Ivens, nossa tão pobre e tão decadente versão de Stanley-Livingstone; e o bacio também de louça que a miopia da criada velha tornou vaso-bolbo de um jasmim sem calendário nem água nem esperança.
Chega. As pessoas nunca gostam de descrições. Preferem acção, dizem elas, seja isso o que for. De qualquer modo, esta é a Sala Portugal.
Se quiserem acção, ajam. Ajam bem.
E bem-hajam.

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