Sunday, November 27, 2011

Manhã leiriense de beira-Lis, domingo, 27 de Novembro de 2011


© Saul Steinberg


Leiria, domingo, 27 de Novembro de 2011

Despertei com o instantâneo amargo-de-boca de ter sonhado que escrevia um livro apócrifo. Devo, portanto, ter utilizado uma heterográfica (não um lápis) para o efeito. Para me absolver dessa quase auto-traição, pensei em certas pessoas boas e tristes que conheci. Durou felizmente pouco esse transe: já a gata, sempre positiva e coruja sempre, me saudava com o silêncio fito dos grandes olhos dela. Levantei dali o corpo, meti-me em abluções, recorri ao café-com-leite para obviar as circunvalações gástricas e renais e tripeiras que fazem de canalização a toda a pessoa – e fui-me deixando de priapismos & quejandos. Vesti a camisola preta, que guardei com o blusão verde-musgo-escuro. A Cidade, quando dominical e às oito, tinha voltado a ser um campo-santo de adormecidos. Até uma rola ouvi, algures em pardieiro imemorial. Lembrei-me, sem por nem para quê, de que Fernão Lopes escrevia lâmpado para significar o que hoje dizemos relâmpago. Sorri por causa disso – sou dado a consolações sem explicação (que algum sentido terão: o da vida talvez, até).
À face do Lis, numa esplanada sem história e sem audácia, dei-me às matinas com um atraso de três horas, posto que eram já as nove. Amaviosa, a atitude da luz tinha chegado para ser suavíssima montaria. Atirei olhos aos quase-nadas que sempre foram o meu tudo:
uns panos de relva orvalhada a preceito pelos claustros da noite;
a colina, negra ainda do anoitecimento anterior, a que o Castelo trepou na legenda dos séculos (como se para ser a Guernsey de Victor Hugo nenhum);
a detença altaneira do arvoredo à contra-seda azul do primeiro céu da manhã;
outrossim a ordenança sujeito-objectos da vida filmada no dentro da cabeça, esse território medular e palaciano onde uma pessoa é obrigada a viver para sempre;
a atenuação (a anestesia) dos sinais álgicos que resultam de pensar nos mortos e causam o repensar nos mortos;
(a camisola preta muito morna sob o musgo-blusão);
da outra beira do Rio, o cu muito escuro de um cão preto ao cabo do rabo vertical: perfeito ponto-de-exclamação (sorrio a isso, querida);
os patos às gargalhadas de desenho-animado no Lis (corre-lhes a vida bem, aos sacanas);
eu ser um pajem da mordomia do mundo – e o meu papel ser um lápis;
a qualidade póstuma do portal que cada vida foi;
a pouquidade – por muita idade que, embora – de cada vida;
a pousadia versilibrista assentando praça nos sonhos acordados;
a prazia das sombras das árvores como códigos-de-barras que cifram o comércio & indústria dos poetas naturaferidos;
as migalhas de lápis que resultam do afiá-lo com um prazer tecnicista de outra-vez-criança-na-primária;
a puridade do idioma abrindo janelas maravilhosas na empena da vida comezinha;
a importância deste comenos;
e as 9h48m, já.

Está tomado o café, aguçado duas vezes o ápice do lápis, já a catacumba-estômago me pede o bom-trato de caldo & pão. Concedo um minuto terminal ao derradeiro cigarro do maço, que aproveito para visões periféricas em regime de à-la-minuta:
um cinquentão de fato-de-treino pedonalando o trilho aeróbico de beira-rio na companhia do filho do primeiro casamento da mulher;
uma trintona de fato-de-treino encomendando galão & meia-torrada para o pedro-miguel de que é mãe-solteira;
a frescura oxigenada atribuindo um embriagador viço vital à duração;
o fim do cigarro e o anonimato disso.

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