Monday, November 07, 2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 45. TRÊS PEÇAS Leiria, quarta-feira, 8 de Junho de 2011




45. TRÊS PEÇAS

Leiria, quarta-feira, 8 de Junho de 2011

I

A prostituição produz destas flores cabisbaixas perto dos Correios. Madames do macadame. Vendem-se ao pólen de homens desavindos com eles mesmos. A amargura parece-lhes mais fértil do que as outras nódoas de cor na paleta dos dias. São vaginas com boca ampliando a desertificação das mães. As avenidas e os pinhais parecem versos pontuados por elas. No fundo, constituem um sindicato tenebroso mas límpido. Talvez me não fosse possível concertar delas os sonhos cinza-pombo em azul-marinho, nem saber se em criança foram levadas a ver o mar. Sei que da bolsa delas pagam a homens, ao balcão peitoral de rulotes cegas de néon, bifanas e latas de cerveja nas madrugadas insuportáveis do século XXI. Mas são flores, como todos somos.

II

A luz joga ao tabuleiro da terra as peças-pessoas da Cidade. É um jogo que se filtra: movimenta a sombra sua dela mesma sombra, respondendo (ou contra-atacando) a luz com a luz que pode. Não é uma natureza morta nem uma natureza-morta. Comedores de empadas envergam fatiotas vendedoras, sapatos macambúzios, gravatas pendentes como línguas cansadas, bovinas. Às seis da tarde, a fronteira do dia é uma orla brumosa: as fadigas-formigas preparam o retorno às tocas. Ao arrepio da nobreza animal, os humanos são peças abatíveis. Calibram recursos contra o desgaste, não aprenderam ainda a suportar as clivagens umbriluminológicas do Jogo. Quando finalmente aprendem, algo ou alguém apaga a luz.

III

Mármore (má morte).
Fim do mar: marfim.
Sândalo, cânfora, incenso, cravinho.
Disponho de imagens substantivas
para nada, talvez para ninguém.
Conheço os veios que correm e
incorrem os afinal inquietos viandantes
daquela outra (escre)visão: o palavroso
coração.
Os picos montanhosos como castelos
naturais.
A batalha e a botelha.
Plan(e)ta.
Vege(s)tar.
Exerço uma resistência pícara (púcara) aos agravos das escol(h)as erradas que come(n)ti ao longo da vid’até agora. CAPITULARES a tinta numa parede exterior de oficina-auto: PNEUS – ALINHAMENTOS –LAVAGEM – LIMPEZAS – REVISÕES - MUDAS DE ÓLEO. Ou: OPALA – JADE – SAFIRA – ÓNIX – TOPÁZIO – MÁRMORE.

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