Sunday, November 13, 2011

Agora na íntegra, a entrada 48 do ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO




48. CARTILHA  

Leiria, domingo, 12 de Junho de 2011, e início de segunda-feira, 13

O frio vem, depois o fresco, o calor depois, e então o fresco, o frio.

*

Tenho (re)feito a minha vida (des)fazendo cidades.
Os nomes delas não interessam – como também o meu não.
Mas a(s) vida(s) delas sim, interessam – a minha também, vá lá, mas muito menos.
Em uma das cidades, os necrotérios trabalhavam noite & dia, as maternidades muito menos.
Outra delas olhava o mar desde que nascera – como eu e alguns da minha família: os sem-abrigo, os polícias, os carteiros, as costureirinhas e as putas.
Uma tinha virado as costas à montanha porque a neve só lhe queimava as hortas e não chamava turismo algum – como eu.
Abandonei-as todas, uma a uma todas abandonei.
E o meu único erro foi confundir abandono com purificação.

Fazer é menos re- do que des-.

*

Desertam as ruas, os compatriotas. Devasso sozinho as artérias atormentadas pelo laranja público dos candeeiros: só que não há público, só devassa.

*

(Vou agora fazer uma redacção como antigamente: para ninguém e por causa de nada:)

As ruas chamadas Direita não têm de ser rectilíneas. Uma rua é Direita quando leva direito à igreja da terra. Na minha, que é Coimbra, a Rua Direita cumpre o seu papel: uma pessoa vem do Arnado, vai por aí adiante e dá com a Igreja (ou Mosteiro) de Santa Cruz, já Praça 8 de Maio (antigo Largo de Sansão). O problema é (se calhar, até nem é) que, na minha terra, dizer “Rua Direita” é o mesmo que dizer “Rua das Putas”. Vocês sabem, aquela putaria tipo Intendente lisbonense. Uma vez (ele é que a sabe toda de cor) até fiz uma letra para um amigo cantor. A primeira estrofe era assim:

Rua Direita, viela bem conhecida
da má fama e da vida
de quem tem conta atrasada,
eu vou contar a tua história sombria,
mesmo que à luz do dia
sejas desavergonhada.

Muitas vezes cantámos isto em tainadas e cenáculos e borgas e vadiagens e congressos internacionais. Mas, como tudo passa – a começar pelo Tempo –, dediquei-me mais, entretanto e entre tão pouco, a estilhaçar o meu lirismo em lances mais à base de pombas & corvos, esquilos & raposas, tinto & branco. O resultado tem sido o que (não) se vê.

*

Não escrevo para dizer nada a ninguém. Escrevo para que o escrito me diga alguma coisa, alguma coisa que já cá estava dentro (não sei como, mas estava), parecendo porém vir/de/e/ir/para fora.

*

Freáticos como olhos comovidos,
os meus invernos mais antigos
hoje se me dão tão por perdidos,
que verão vos diga não sei, amigos.

*

Não posso (não devo) fazer planos.
Quero crer que alguns pinhais merecerei ainda,
algumas manhãs de noite ’inda tingidas
como tantas, tantas vidas.

Vou mais por carpir possíveis quase-alegrias, linda.

*

Remanesço quanto nasço
cada dia a volver.
– Dona Rosa, um bagaço!
– Pois mais um? – Tem de ser…

*

Afeição, aflição.

*

À varanda (outra varanda, o mesmo corpo), ante os prédios do bairro extinto. Um cão preso deixou de ladrar, talvez esteja doente de tanto ter sonhado com a improvável amnistia
do nascer do dia.

*

Isto queima,
ser um homem
mais vezes a pé
que de pé.

*

Escrevo como se trabalhasse para a luz.
O salário é a noite, todavia, de cada dia.

*

Com mármore pensamos domesticar os mortos.
Infante ingenuidade nossa.
Eles vivem de frinchar-nos as janelas
que os sonhos acabam abrindo-lhes.

Os meus, como os dos outros, não são
nem
inocentes
nem estão,
Mãe,
mortos,
não.

*

Uma pessoa chega ao cabo do istmo,
a Berlenga longe de mais nimba
dela os véus salinos
para inquietação dos corvos,
esses negros noivos
cujo apocalipse é nau
e nunca
nunca
nunca mais.

*

Isto tem pouco que saber:
é ora amar e depois morrer.

*

Também já estive em Lisboa.
Ouvia, como se visse, o pensamento das pessoas.
Pensavam elas assim à minha passagem:

Olha mais um que não conta.

E era verdade.
Digo: naquela altura era verdade.
Agora ainda é, mas menos:
pois que agora, escrevendo,
alguma coisa conto.

*

Estive em Lisboa.
Andava por ali sozinho como toda a gente.
Nas outras cidades passa-se o mesmo, mas em nenhuma tanto como em Lisboa.
Tinha em Coimbra uma filha tão recente como um pirilampo.
Eu estava em Lisboa mas era em Coimbra que andava – e era.
A menina entretanto cresceu.

Não eu.

*

Aos bombeiros já muitas vezes aconteceu darem na estrada com bonecos fluorescentes representando santinhos e senhoras-de-fátima entre os destroços dos mortos encarcerados.
Só não contam nada a ninguém para não estragar o negócio ao padre que lhes benze as viaturas novas de dez em dez anos – ou mais que dez, que nisto do equipamento não há milagres.

*

(Cartilha:)
A. Z. LU. LUA. LUZ.
João de Deus.
João de Jesus.

*

Petiz, eu não sorrelfava o rêgo das mamas das mulheres. Eu não fazia isso. E agora também não faço. Já não vale a pena.

*

Um restolho de andorinhas alvinegreja a minha nova rua à frescura das manhãs. Fumando ao varandim, assisto a essa altíssima natação plumiforme. Fico sempre encantado. Mais do que voar, elas são ar.
(E eu deveria deixar de fumar.)

*

Apronto do meu dia os despojos, tenho um saco, o lápis e o caderno e O Anjo Mudo do Al Berto, como o arroz cabidela tem nele.

*

Antes, porém, permito-me preferir
a sanidade à santidade,
que os únicos santos que (re)conheço
são aqueles que à mesa me deram
lugar, voz, convocatória e atenção.
A identidade não há-de tão má ser
como ser entidade, pois então não?

Acabou-se-me o dia.
Em sorte havendo, a manhã
Amanhã.

Boa noite.
Bom dia,
talvez.

*

Tenho quatro anos, não posso ter mais.
De idade, quero dizer. Quatro anos. Sou o mais novo (muito mais novo) de sete. Morávamos no que a vida sempre foi: um rés-do-chão. Uma ocasião, a família de uma casita perto teve de deixar a avó sozinha em casa. A minha Irmã disse que ia lá dormir para a senhora não ficar sozinha aquela noite. Levou-me com ela, claro. Se eu tinha quatro, ela tinha vinte-quatro. A minha Irmã era – ainda é – a primeira dos sete. Eu era – ainda sou – o sete. Lá fomos. Ou melhor: ela foi, eu levei-me-dela. A casita era de agricultores. Adormeci sem memória, como só aos quatro anos. A minha Irmã trabalhava num escritório. Levantou-se cedo, aconchegou-me à garganta a fímbria do lençol, deixou recado, foi. Acordei ainda o galo não estava rouco. Dei por mim sem ela. Dei por mim sem ela numa casa que não era a nossa, numa cama que não repeti e numa alva que não volta. Foi o meu primeiro desespero. Cheguei-me à janela e esmurrei a vidraça. Foi o meu primeiro sangue.
Desde então, as vezes que tal me tem acontecido.

*

Sendo tão pouco o que queria,
nem sabia que queria o que não sabia.
Daí que não cria.
Daí que nem queria nem quis.
Nem cri.
Nem fui, ou serei, feliz.

*

Quando às árvores comparo a minha vida,
as casas abandonadas mais tristes cotejam
– e parecem – seus exilados mortos.

Dito de outra talvez mais sensata maneira:
o pessoal morre, não deixa herdeiros,
as casas ficam por ali enquanto o município
não.

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