Friday, January 18, 2008

Um Outro Hoje e Outros /seguido de/ As Tainhas

No Verão de 1981, o meu Pai comprou-me uma Underwood velha
(in As Tainhas, 14)


******

Na entrada de hoje, 18 de Janeiro de 2008, alguma versalhada do mês corrente e, ainda, uma coisa chamada As Tainhas - quinze parágrafos que remontam, já, ao dia 2 de Abril de 1999. Coisa de outro século, portanto. Insiro As Tainhas por me parecer uma prosa que sintetiza alguma das obsessões por assim dizer eidéticas do que vou sendo e fazendo. Nada de importante.

******



Recordações assim vivas são provavelmente sintomas de desordem.

Saul Bellow,
in Herzog




I. UM OUTRO HOJE

Recordo o dia de hoje. Um hoje qualquer.
Uma estação de correios bocejando selos.
As árvores além do quase nada de cá.
A noite anterior e a próxima juntas ao fim da manhã.
O corpo intransitivo, efeito de si mesmo.
Nenhuma causa para içar como a um pavilhão pirata.
Um pássaro muito pequeno povoando sozinho uma árvore.
Um televisor narcótico distraindo velhos.
O torso aquoso de uma mulher terrena.
O estanho vitalício da chuva.
Fumando ao longo de uma rua deserta, entre árvores videntes e candeeiros quase cegos, visão de uma loja de louças – profusão impressionante de cacos decorativos e utilitários. Entre jarras e terrinas, a nota enternecedora de brinquedos antigos: jamais vendidos mas nunca expulsos.
Um gato preto de peitilho branco: elegância de casino.
A ordem disto tudo.



II. TEM DE DAR

1


Reparo na imaterial solidez das pessoas.
Falo das poucas – quase nenhumas – que reconheço pelas ruas, pela cabeça.
Ondulam cortinas interiores nos olhares velados.
Algumas mulheres compensam a efemeridade psicológica com a imponência das nádegas e com a bandeja láctea do colo.
Adolescentes cinquentões persistem na calça de ganga e no blusão de couro.
Persisto eu no reparo da solidez imaterial dos corpos olhados que não vêem.
Entretenho-me com a minha mesma banalidade.
É inócua e inodora: dá versos, não dá mais nada.

2

Nem mais nada tem de dar: prosaicos versos.
Assiste-se ao vento nas árvores, mais forte quando dá de noite.
Diz-se, não se diz.
Por vezes, é a palavra que escolhe um gajo.
A palavra, a fórmula.
Estas coisas assim.



III. MANHÃ PLUVIAL E DEPOIS


Ouvia o mar na montanha,
via-o vir lá de longe.

Wolfgang Bächler, Há-de Vir a Água


1

Atravessa-nos a manhã pluvial o corpo.
Não podemos dizer: É a primeira vez.
A noite antiga mora ainda na manhã nova.
Estamos todos no inverno há muitos anos,
há muitas manhãs.

Em casas cerradas, as mães não esperam, agem.
Sagram o lume na pedra negra.
Apresentam o vinho e o pão, tratam do porco,
falam com as galinhas, adoram o canário.

Pelos montes, os homens perdem-se.
Não sabem que fazer de tanto olhar.
Olham-nos as pedras, sabe-os a terra.
Terra e pedra esperam-nos ao cabo do inverno.

Cabras e gatos fulguram na erva, hirsutas flores móveis.
Badala o vento seu bronze transparente.
Nem aves nem crianças habitam a nocturna manhã.
Nós só registamos tudo, alguns.

O frio endurece-nos de jade as orelhas.
A boca é-nos canivetada.
Aduncam-se-nos as mãos andorinheiras.
Queimamos os pés, a sul esquecidos.

Não diremos: Nenhuma alegria.
A vida tem mais vidas, também.
É preciso registarmos a vida toda toda a vida.
Não sabemos porquê, à chuva.

Sempre aqui estivemos.
Mudamos de nome e de corpo,
mudamo-nos no mesmo, outros.

E o canário, muito viva cabeça, ri-se do porco.

2

O céu desce à terra a ser mar
para que, andanadando, possamos voar.

3

As folhas pelo chão, as pessoas pela avenida
– e umas e outras pela noite –
são as mesmas coisas ao mesmo da mesma maneira.



IV. TUDO É DIZER

1

Há uma semana que não faço a barba.
Um homem daqui disse-me que plantou repolho e cebolo.
Está a pensar construir uma estufa para o tomate.
Veio da feira a pensar nisso.
Diz que prefere o Verão ao Inverno.
Troco as boas-tardes com um carpinteiro que foi norte-coreano.
Há muitos anos que se refugiou aqui.
Já vi móveis feitos por ele – belíssimos, fortes, tudo de madeira antiga.
Ele é baixo, parece feito de louça.

Eu não faço móveis.
Envelhecem como nós as portas que fechamos?
Sim.
Envelhecemos de não fazer?
Sim.
A barba, por exemplo.

2

Que amor pode um eu ser em ti?
Que tua ideia minha posso sentir?
Escrevo hoje, noutro caderno, uma pessoa num comboio.
Alheio (imune) a amores, não sabe.
Não sabe que amor não pode ser plural.
Não pode ser plural sem se matar.
É como desejar felicidades.
Felicidade nunca foi plural na vida.
Quão feliz podes ser sem um eu?
Sentimentos?
Os meus, então, sentimentos.

3

Vou hoje dizer-te da montanha.
(
Não sei se já ta disse alguma vez.
Envelheço, julgo inovar no que repito
.)
A montanha está viva sobre a vila.
É uma grande pessoa deitada de lado.
Temo (ou espero) que um dia ela se ponha de pé.
Que um dia, mexendo os ombros, a escombros
nos resuma.
Enquanto não, amanhamos dela as entranhas.
Pedra, fruta, legumes, gado, imagens, casebres: ela dá.
Ela dorme de múltiplas cabeças.
Ela respira névoa.
Poucas mulheres, menos ainda homens: ela tem.
As mulheres caprinam, tasquinham, ardem.
Os homens aguardam as jóias das hortas.
Não imitamos os animais: não fazemos filhos.
Acima de tudo, tudo na montanha é descer.
Também: na montanha tudo é dizer.




Datação (tudo Caramulo):

I. Um Outro Hoje: noite de 16 de Janeiro de 2008
II. Tem de Dar: fim da manhã e tarde de 16 de Janeiro de 2008
III. Manhã Pluvial e Depois: manhã e tarde de 15 de Janeiro de 2008
IV. Tudo é Dizer: tarde de 10 (1) e manhã de 11 de Janeiro de 2008 (2 e 3)

******

AS TAINHAS
números do Abril 1999


não costumo por norma dizer o que sinto
mas aproveitar o que sinto para dizer qualquer coisa

Ruy Belo


1

E com a epígrafe ficaria tudo dito, não fosse o caso de eu, como toda a gente, persistir na perseguição de qualquer coisa nova para dizer. Mas restam ainda coisas veramente novas? Por uso de pessimismo, costumo dizer que não, mas a verdade é que escrevo livros. Ele há coisas, as coisas são velhas, mas a dicção pode ser nova. A linguagem é velha e revelha, as formas, os géneros e os teores literários são velhos, mas, de uma maneira estranha (mágica, claro) a pessoa (a boca da pessoa, a mão da pessoa) é sempre recente.

2

Vê o que acontece, por não inocente exemplo, com o amor. Tema pisado, bem e mal tratado. Assunto de película americana, telenovela brasileira e/ou soneto de Camões etc. E vai-se a ver, eu nunca tinha escrito um livro com as duras asas do amor. Que fiz? Apertei-o no meu sangue, não permiti que ele tomasse conta deste livro. Totalmente não? Não. O amor está nas páginas, mas recusei que lhes desse a forma. Aproveitei-o, parasitei-o. E assim, amando, escrevi como se não bastasse amar.

3

Muralhei-me sempre de livros. Andei pelo Thomas Mann (e ainda ando). Vi o trabalho que a cabeça alemã puxou até que nascesse A Montanha Mágica. Lembro-me, no dia-a-dia, de situações desse livro. Como se se passassem naquilo a que chamamos, por nítida incerteza de vocabulário, realidade. Já conheci Os Buddenbrook. Escrevo estas palavras em 1999, mas no bolso esquerdo do casaco palpita-me a edição portuguesa de um voluminho de Mann de 1919: O Cão e o Dono. Se hoje escrevo livros, não é, evidentemente, porque nunca tenha havido livros, mas porque só posso conhecer verdadeiramente (e ultrapassar verdadeiramente) aquilo que escrevo. Quando leio obra alheia, reconheço-a minha. Nesse sentido, posso chamar-me Hans Castorp. Ou Bashan, por que não?

4

O livro que dediquei aos Homens-Cantores surgiu-me num comboio. Os comboios não são inocentes na minha vida. Transportaram-me o conhecimento do tempo, da perda, da transitoriedade, da dor, da luz e da noite. Há uma incidência surpreendente nos comboios: as mulheres lindas. Em 1988, na linha suburbana Figueira da Foz-Coimbra, uma rapariga havia que descia, para mal da minha vida e da minha poesia, no apeadeiro da Abrunheira. Era quase, o apeadeiro, o meu nome. Eu achava essa coincidência uma espécie de destino. Achei mal.

5

Quem é que disse que a vida está constantemente a transformar-se em literatura? O García Márquez, quase de certeza. Esse monstro. Em 1982 (ou princípios de 1983), arrastado pela voracidade publicitária do Nobel, entrei numa livraria de Coimbra (a Novalmedina) e comprei Cem Anos de Solidão. Fui trucidado pelos dias da leitura. Aí estava tudo o que eu queria, aí estava o que agora tenho: a noção maravilhosa de que se pode morrer e continuar feliz. Se se escreve assim (se se lê assim), a vida não é mortal.

6

O mesmo com Julio Cortázar, autor mágico também. O melhor tratamento das obsessões humaníssimas, a mais refinada inteligência posta, não contra o Homem, mas em prol do entendimento do Homem. Uma rapariga (como podia não ser?) emprestou-me, ano pouco depois do meu conhecimento de Gabo, um volume de contos do enorme argentino enorme. Eu já então lia como um possesso. Pensava eu. Possesso, possesso mesmo, fiquei de Cortázar. Eu digo-lhe, minha senhora: Todos os Fogos o Fogo, Bestiário, Um Tal Lucas, Rayuela, Blow Up, sei lá.

7

Os livros são importantes? São. Dão crédito aos meus dias e às cargas viárias dos meus dias: o amor pelo amarelo, a cerveja, o prazer de ouvir falar bem, a tontura em consequência de Bach, minha senhora.

8

Não costumo por norma dizer o que sinto”? Meia verdade. Somos sinceros até quando deliberadamente nos aldrabamos. Recorremos ao postiço com naturalidade. Está-nos na civilização. Cristo era um pobre teso. As igrejas são folhadas a ouro. Ou nas bibliotecas: tantos livros maravilhosos, e os funcionários mortos de sono. As contradições são, também elas, dicções. Sinto isto.

9

O meu Pai contava-me histórias. Eram as obsessões dele: viver numa montanha, ouvir a chuva no colmo da nossa choupana, beber café fervido sobre fogo de lenha. São as minhas histórias, agora. Não as racionei, não as racionalizei. Não tenho mais nada para contar. Tenho andado a escrevivê-las.

10

O make me a mask” – Dylan Thomas fez o verso, epigrafou-o Cortázar no pórtico do conto chamado O Perseguidor, esse feixe de páginas maravilhosas que o argentino fez para reviver o saxofonista Charlie Parker. Também quero a minha máscara – e tenho-a: é a literatura que posso. Tudo fundo (de fundar e de profundo): páginas-máscaras próprias e alheias. Exemplos? Oh quantos! Nemésio e Steinbeck escrevendo sobre o prazer material que resulta da preparação dos materiais da escrita: canetas, resmas de papel, máquina de escrever, tinta permanente, lápis, tudo. Repego no período: “N. e S. escrevendo sobre o prazer material que resulta da preparação dos materiais da escrita…” – jogar, jogar, jogar com a escrita, o poder palavroso.

11

A escrita? O poder palavroso? Tudo sinónimos de Italo Calvino. A formosura daquela inteligência. O brilho (o esplendor) pensativo. A fundíssima gnose do ofício (nele, vero ofício) literário: escritor, conselheiro editorial, epistemólogo, cidadão, bicho, viajante, Palomar. Calvino no comboio, eu no comboio, os homens sentados na tarde da estação de comboios. Isto é possível quando eu, por norma, etc.

12

Era miúdo. Eu era um menino. O estômago transformava-se-me num aquário baço. Era a dor emocional. Eu sentia. O mundo não era necessário. O estômago era suficiente. Ainda hoje escrevivo com o estômago. Mas dou-lhe polimentos: ao estômago e às palavras de aquário que saltam dele como tainhas.

13

Tenho de escrever, quanto mais não seja para não perder a mão, as palavras da minha vida. Peço de antemão o perdão possível: Laranjeira, Precisamente, Teor, Ouro, Inteligência, Norma, Pardo, Noite, Mãos. Tenho de parar. Receio esgotar as palavras. Corre risco a minha própria vida. E morrer? Não é morrer o ficar sem palavras?

14

Digamos que escrevi um livro dedicado a uma senhora. Ninguém perguntou nada à senhora. É, evidentemente, um mau livro de amor. Não é por aí, porém, que estou a ir. O que me interessou, foi chegar a esta falsa pompa de explicador de literatura: da boa (a dos outros) e da minha (que é também dos outros, como o é de minha senhora). No Verão de 1981, o meu Pai comprou-me uma Underwood velha, uma máquina preta em liquidação de escola de dactilografia. Foi antes da informática. Copiei sonetos e prosas para papel amarelo. Os textos antigos (Pierre Nordon a propósito de Conan Doyle, Camões sobre Dinamene e Lianor, António Sérgio em amável polémica com Joel Serrão) reviviam no tiquetaque da máquina de escrever. Disse “tiquetaque”. Como o tempo. Com a máquina Underwood, o meu Pai deu-me o Tempo. Por magia, ei-lo, ao Velho, nesta folha, redivivo. Literatura, claro.

15


As tainhas. Peixes malquistos pelo pescador à linha. Não prestam para comer: muitas espinhas e sabor à babugem lubrificante dos barcos ancorados. Mas serviram-me para dar imagem e título à toleima destas explicações não encomendadas. E para que eu pudesse, sentindo amor, falar de tainhas.

2 de Abril de 1999

No comments: