Tuesday, January 29, 2008

A Noite em Breve - capítulo 16

Continua a saga pseudodiarística de
A NOITE EM BREVE
ou
Coruscações no Imo de Sombras
(uma portugalidade delével)


16
Caramulo, entardenoitecer de 30 de Agosto de 2007

É pela vitalícia morte do dia – chora de suspensão de cristais. Escrevo para não pensar imediatamente no imediato – a necessidade de outro emprego para o dia, que recompense o esforço e a dedicação com um pouco mais de dinheiro. Escrevo para me inventar um crepúsculo melhor.
Vejo homens que não estão. São, não estão – como ideias. Vi uma mulher que estava. Estava e era: à janela, catando uma planta de vaso, colhendo flores mortas que o Sol tinha bebido até à sede. Sei que tem cinquenta e quatro anos. Também vi, passando, uma rapariga de duras tetas de cadela apontado em frente de sob a camisola encarnada. Era bonita e leve – e há-de ser o amor distraído de alguém. Gosto destas festas lentas, destes paulatinos bailes. Se calhar, até da vida gosto – e nem sempre isso me ocorre. Sou algumas palavras, nem sempre estou.
Lapsos do dia profissional permitiram-me a observação de imagens: um homem de barba e olhos muitos belos com um gato ao peito; um homem a um balcão arengando às massas uma metafísica de bebedouro; um mapa desenhado a lápis de cor; uma mulher defunta aos cento e um anos; um torso feminino nu e em sombra; um cão guardando uma criança como um anjo daltónico; o mesmo homem do gato, sem gato e escrevendo à máquina; um pássaro de cor e corpo de pó de carvão; um barco pejado de emigrantes noruegueses de 1908; a lista de víveres individuais desses homens, mulheres e crianças; um carro branco com um cão fechado; uma palavra azul cujo significado é verde; uma boca inteira e calada como uma pedra; um lagarto dentro de uma gaiola; o rosto do lagarto como se o de um cão dentro de um carro branco cujo significado não é azul.
Sobre a mesa, crepusculares, os objectos pontificam em solitária humildade: o cinzeiro, o copo, a garrafa, o coiso dos guardanapos de papel. Uma pintura volumétrica eles oferecem. Olho os objectos. Quando os não olho, olham-me eles. Atentos cumpridores da material percepção, os objectos nascem descoroçoados para viver mais – e vivem – do que nós. Está bem assim.
Recordo um desfile em Coimbra. Era 1974, o ano cristão. Tinha havido uma suave zaragata de metralhadoras com cravos em Lisboa. Morreram quatro pessoas na Rua António Maria Cardoso, todas do lado errado: coisa pouca, mínima, de nada. Em Coimbra, umas semanas depois, houve o desfile. Equiparam de camisolas brancas e calções amarelos uma multidão de crianças. Desfilámos pelas ruas direitinhos ao nosso futuro – isto. No fim do desfile, pediram-nos de volta camisolas e calções, o branco e o amarelo. Eu devolvi e vim para isto. Talvez tenha sido antes da tal revolução, já não sei.
Também recordo uma chuvada ocre num fim de tarde. Era vivo um amigo mais antigo chamado Ernesto Santos Lucas. Estávamos a ver a vida acontecendo à nossa volta: os preços do minimercado, o retorno a casa da escriturária da fábrica de porcelana, o vento na crista das laranjeiras, a angústia do Belenenses, a rodada de tintos. Choveu muito, de repente – e muito depressa. O Sol assomou a ocidente numa sangria de laranjais – e a vida tornou-se ocre. Água e luz patinhavam como crianças alvoroçadas por sua mesma – repentina, depressiva – felicidade.
Recordinvento (minto ou sinto, não sei) um crepúsculo de Outono. Era por uma encosta ervada. Subia-se, descia-se, recolhia-se da creche a criança, subia-se aos ombros a criança, a criança assumia o pai como um primeiro-andar-poderoso, corria com ela às cavalitas até que ela gritasse de pura euforia. Eu era poderoso. Era em milnovencentosenoventequalquer coisa, coisa-pouca, coisa-tudo na minha mais absoluta mentira: a minha vida. Era no Outono. O meu trabalho era ir buscar essa menina branca, correcta, linda e limpa como uma face de azulejo passada a aguarrás. Os objectos na mesa.
A noite, agora. A noite sempre justa de todas as noites. A humanidade mais desumana: a atenção que nos presta a noite. Objecto lançado de veludo (negro veludo, estrelas de xerife) sobre nós: homens parados dentro de casas a caminho, descendo.
Objecto lançado devoluto: estrelas de xerife para meninos que não matem índios nem comam merda. Meninos apenas meninos: antes das patilhas brancas, depois da fadiga sexual, durante a lírica travessia da vida.
A onírica travessia da ávida.
A telúrica maresia almorávida.
A barbitúrica sinestesia almóada.
As coisas que tudo dão para nada.
Estou, agora: já não sou. A noite é: é, não se deixa estar sem mais aquelas. O ideal consiste em ter um clube, um mármore lavado a mal húmido pano, um serviço de copos e umas colunas com jazz. Mas a vida já não traz muito jazz? A vida trazz muito jaz? Está certo assim.

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