Wednesday, January 16, 2008

A Noite em Breve – 15 (fragmento)

The Blue Hour
© Joel Meyerowitz (BaySky, 1984)

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A NOITE EM BREVE
ou
Coruscações no Imo de Sombras
(uma portugalidade delével)



15
Caramulo, tarde de 29 de Agosto de 2007


(…) Escrevi um único verso, o dia todo.
Agora, penso na arrumação da biblioteca. Vou viver serões onomásticos, operar fronteiras de género, separar dicionários, reorganizar arquivos, alojar fotografias.
Agosto acaba. Mês fraquinho, insulso, desinteressante. Preciso de voltar ao livro dos anjos terminais. Mesmo sem andar a escrevê-lo, continuo a vê-lo. Preciso de passar dois dias em Coimbra: embora seja múltipla, a cidade do livro tem muito da minha. Necessito de andar por onde andam esses anjos que depois recolherei em um café, finalmente expostos e revelados. Preciso de trabalhar muito nisso.
Também tenho pensado no corpo – nisto que somos, que cada um é. E tenho, como toda a gente, pensado mal: por pensar que o pensamos a ele, ao corpo. Não: é ele quem nos pensa. Porque ele pensa-se. Inventou, até, um alter ego a que chama, por graça e por ironia, eu.
Eu sei (ele sabe) que é a idade a tornar-mo, ao corpo, tão presente. Uma vez, por indirecta exposição, disse dele (do corpo, de nós, do corpo de todos nós, de nós todos em corpo) isto:

saco de vísceras apertado em cima pelo olhar

e não errei. Em Pombal, bebendo cerveja com o meu querido amigo Adelino Correia, que é médico, converso muito acerca disto. Ele ensina-me coisas do saco de vísceras, com aquele olhar dele. Digo-lhe das minhas experiências, ele diz-me coisas das fichas dele: não há toque rectal que nos não faça pensar na alma.
Sob a mesa da pastelaria, descalço-me. Em meias finas, os pés liberados gemem um agradecimento que chega a ser comovente. Operários exaustos, humílimos, estes sulistas irmãos das mãos são quase tudo o que temos de verdadeiro. A ligação à terra é deles. Percebem muito melhor o mar do que as mãos. O coração a eles desce tantas vezes – nunca por acaso.
Recordo um cão amarelo num monte verde-cinza. Panasco, espargos, rosmaninho, trevo – o cãozito circulava dentro de cheiros vegetais, a que ele unia a fragrância puríssima da micção. Recordo esse cão – tinha olhos de menino depressa de mais devindo velho: aos doze anos de idade, era um octogenário que agradecia ainda o meu amor, cuja intimidade só pude repetir para com as minhas filhas. Esse cão foi uma pessoa em absoluto grau de pureza. A mãe dele também foi minha: isto é, também à mãe dele, como a ele, pertenci. Ela tinha olhos emoldurados a negro por um rímel cleopátrio, nefertítio. Era de uma beleza poldra, pulcra, maneirinha de ancas, de tetas pudendas e inumeráveis. Andava como se dançasse – e dança ainda, viva, no meu salão de mortos (bufete à disposição, frisas, serviço de bengaleiro, jazz-band). Ele nasceu gémeo de um ser de pêlo preto, que ofereci ao dono de um restaurante situado na Rua dos Combatentes da Grande Guerra, Coimbra (a que voltarei para ver anjos). Ofereci-o e voltei ao amarelo. Dei-lhe um nome adjectivo: Canino. A vida dele instituiu a melhor dúzia de anos da minha vida. Invernos, sol, sestas no monte, passeios, brincadeiras: tudo isto nos aconteceu de acordo com Darwin. Eu levava uma manta de padrão escocês, uma almofada, um livro. Ele levava a cor amarela. Num canto inclinado do monte, entre arbustos, deitávamo-nos. Ele beijava-me uma mão, recolhia-se-me aos pés e adormecia de imediato, fulminado pela santidade dos cães amarelos. Eu lia alguma coisa, fechava o livro e procurava-o, adormecendo também. Encontrávamo-nos no sono: outro monte, nenhuma idade, nenhuma separação, eu amarelo, ele com um livro. Não quero hoje, quando durmo, que ele suspeite, sequer uma unha ou um segundo, da falta que me faz. Também o meu Pai era amarelo, também rosmaninhava, também morreu com apenas doze anos. E o meu irmão também, aos trinta e um.
Agora, a luz licoriza-se. Sobe da terra a noite, essa planta azul coalhada de prata e estrelas de xerife. Descomunal planta, iniciática sempre, sempre terminal. É a hora a que, à sua mesma solidão, acorrem os fantasmas. Vestem roupa de vidro, transrepentinam no cristal derradeiro da última luz, ampliam detalhes botânicos e calcários à passagem: tudo deformam à cinepassagem. Pessoas e personagens não diferem: a vida, por diferida, sim. Mas há o último sol nas últimas casas da primeira montanha, longe o mar, barcos revestem aves para navegar acima de toda a esperança, laranjais ocorrem, encosta nascente, como assaltos de ouro, padres aposentados procuram Deus e vermes no horto ladeado de poços e paredes caiadas. Sinto, no ar eléctrico, os telefonemas que, por uma bebida e uma sexualidade, fazem fervilhar os cabos aéreos. É quarta-feira, setembriza-se já o charco de sangue lilás na praia de postal, não quer ninguém envelhecer sem uma cara nova que, à lasanha e ao gintónix, ouça a história velha: a do nosso corpo contada por ele-mesmo. Agora, à procura de luz.
Ou agora, procurando: as velhas palavras que, por putice pura de novidade, querem surgir para ser linhas. Olha comigo, toma os meus olhos: janela de pastelaria, o castanheiro, quieta explosão de si mesmárvore, fiel à sua solidão de raiz, bruto de pedra, lindo como um nascimento perpétuo, amarelo.

4 comments:

José Antunes Ribeiro said...

A poesia da prosa, tudo o que aqui está é "lindo como um nascimento perpétuo, amarelo." Um abraço!

alice said...

o melhor texto de ficação que li online. posso saber se tem algum livro publicado? obrigada.

cumprimentos.

Daniel Abrunheiro said...

Abraço, Zé.
Sim, Alice: veja o seu gmail. E obrigado.

LM,paris said...

Bonjour daniel,esses anjos cruzados nos sitios enevoados dos cafés ,so têm historias, nao têm nome, ou corpo. Fugidios.Anda a pensar no corpo, e se falasse a um bailarino,
se calhar nao ha por perto...pois a maquina do corpo, o corpo em si, o que ele nao quer, ele diz.Ele pensa,
ha um corpo que dança, nao é o mesmo que pensa. é dificil fazer andar os dois, sobretudo se pensarmos...
entrar num, deixar o outro...faço isso todos os dias, quando estou no que dança , ele é eterno e breve. Beijos, LM