1
A manhã das coisas em penumbra na sala.
Fora, a praça ardendo à graça do Sol.
Algumas pessoas enxotadas da alegria como cães.
Alguns cães parecidos com pessoas na idade.
O ar é frio, ressuma das pedras.
Plantas em vasos olham dos varandins.
A mortalidade exerce musgos nas estátuas.
Pombos pensativos demandam frinchas na calçada.
Um restaurante abre-se ao domingo de ninguém.
O balconista boceja a falta de famílias.
Uma gravata gorda pulsa-lhe cor na garganta.
Os preços das coisas numeram a penumbra.
2
Sobre nós vigora a natureza da passagem.
Tem dos velhos fluidos a mecânica antiga.
As lojas amarelecem seus outonos particulares.
Plásticos electrificados não deixam dormir as árvores.
Quando as pessoas querem, o rio é visto.
Bálsamos acodem aos olhos, à pele.
Onde os salgueiros molham os olhos, também as pessoas.
Pelas margens, cães suportam a sede.
De repente, uma criança e uma maçã convivem.
Num saco de pano, a velha leva pão velho.
Estou aqui, mora-me a cabeça outro sítio-tempo.
E toda a vida a vida se faz este exílio.
3
Outra vez virão os ventos dar a rosa deles.
Saudaremos o mar interior deles.
Na árvore dentro de nós, os ramos do sangue ainda.
E lâmpadas nos serão os olhos cada noite.
Entretanto a manhã triunfa.
Extensões de erva pastam a luz.
Um cedro é de si mesmo votiva vela verde.
Num pátio, um cão ladra moralidades.
Anjos enxotam pombos na praça da estátua.
O homem de casaco encarnado encerra a igreja.
Em baixo, fugindo, uma palmeira tosse som.
A ponte espera deitada na já-tarde como uma mulher.
Versos: Abraveses (Viseu), início da tarde de domingo, 27 de Janeiro de 2008
Fotografia: Caramulo, fim da tarde de 27 de Janeiro de 2008
Fotografia: Caramulo, fim da tarde de 27 de Janeiro de 2008
Sem comentários:
Enviar um comentário