Thursday, January 03, 2008

Doze Trabalhos e uma Fotografia de 2007




Eis aqui algumas palavras mais de 2007. Foi o que se pôde arranjar. (A foto é da tarde de 25 de Dezembro de 2007, na Pedrulha.)

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Tábua

I. Este é o Poema das Minhas Filhas
Viseu, tarde de 31 de Dezembro de 2007

II. Dois Poemas
Caramulo, noite de 26 de Dezembro de 2007

III. Uma Prosa e um Poema
Viseu, fim da manhã e tarde de 24 Dezembro de 2007

IV. Cinco Prosas
Caramulo, tarde de 22 de Dezembro de 2007

V. Acima do Vulcão
Caramulo, fim da manhã de 22 de Dezembro de 2007

VI. Flora e Fauna de e para Senhoras
Caramulo, noite de 21 de Dezembro de 2007

VII. Uns Versos para um Amor e Outros e o Mesmo
Caramulo, noite de 19 de Dezembro de 2007

VIII. Destes e Destas
Caramulo, tarde de 8 de Dezembro de 2007

IX. Serena Perpétua Petrificada
Caramulo, entardenoitecer de 3 de Dezembro de 2007

X. Dicunt Mihi
Caramulo, noite de 23 de Novembro de 2007

XI. Esperas-me, Sentados
Viseu, tarde de 23 de Novembro de 2007

XII. Para o meu Amigo Luiz V. de C.
Caramulo, entardenoitecer de 5 de Novembro de 2007




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I. Este é o Poema das Minhas Filhas
Viseu, tarde de 31 de Dezembro de 2007

As minhas filhas são lindas e necessárias
como bocaditos de sol.
Ando pelas ruas a pensar nelas,
trago-as dentro de mim como órgãos
cantores de catedral.
Uma algaraviada de pardais num plátano?
São elas.
Um cão amarelo demandando a rua?
Tem os olhos delas.
Empobreço muito no tempo, sim, mas
todo o ouro é meu, por delas
me ser.
Às vezes estou parado perante os semáforos,
entre outra gente que espera o verde da passadeira,
e ninguém sabe quão feliz é
o corvo que sou.
Isto é uma verdade pura e fria: como
uma lei.
Um homem ama as filhas porque não morre,
havendo-as.
As minhas são, é certo, casos especiais
por causa do parentesco directo com o sol.
Sofro de doçura,
sou dado a delíquios,
a lírios que deliram.
Nada importa.
As grandes superfícies comerciais não são tão
europeias quanto elas, nórdicos corações,
marinheiras do sul.
Amo-as sem negócio nem comida, sem
juros e sem penhora, sem condições
– sem condições.
Coço-as na minha pele
remendada pela costureira tristeza.
Dou-lhes água na boca, chego a chover
por elas
no boletim dos meus trâmites
meteocronológicos.
Amar as filhas é o mais bonito num homem.
Expandiu-se-me o corpo em legado de caravela:
sim, fiz os meus Descobrimentos.
O mar toca-me os pés como um gato.
Elas estão na selva de além, trocam
frutos tropicais e aves coloridas.
O lacre desenhou-lhes as bocas, dentro de que
moram a língua portuguesa e as rosas.
Elas são meninas lavadas e levadas em perfume,
trouxeram palavras novas ao acampamento cigano
do meu coração.
Eu estou todo vivo no meu amor
delas.



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II. Dois Poemas
Caramulo, noite de 26 de Dezembro de 2007

1

Olha-nos a noite de um só olho
de negra fria água cintilante.
Pestaneja árvores.
Se chora chuva, turva a visão
encadeia diamantes enregelados.
Recolhamos à cama a ouvir o vento,
do sangue a rouquidão ladrando.

Esconso útero não ela é, a noite,
antes antimãe natural, pois fria.
Cruzam-na raposas e carros
em uma espécie de alegria.

Devemos vigiá-la e viajá-la.
Dela as artérias arrefecem pedras,
litografias que menos esquecem
do que nós, vivos, vigilantes, não
viajantes.

2

Não voltarei a ter sido.
O pouco tempo é todo o tempo.

De pedra algumas colunas restam,
umas poucas palavras.

Não tenho outro tempo
nem outra pedra.



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III. Uma Prosa e um Poema
Viseu, fim da manhã e tarde de 24 Dezembro de 2007

1

Vim à cidade para isto: ver o Sol construindo casas.
O que sobra das casas solares é sombra: ou seja, ruas.
Gatos urbanos deslizam pela pedra.
Levam olhos vivos no corpo silencioso.
Perpassam como panos atirados por uma alma dentro.
Igrejas, tabernas.
Sol.
Estou (sou) perante o teatro construtor: luz, sombra, luzes, sombras.
Isto não é Praga nem Dublin.
É Viseu.
A mão esquerda espera ao lado desta.
As pernas escondidas em bombazina.
O coração vincado como terileno.
O sexo arrumado nos dias idos.
O coração cheio de miudezas como as lojas e os frangos.
Uma mão-pouca de vida mais.

2

Moro numa casa feita de estreitas árvores.
Dá a Lua na casa como um roupão de prata.
Sou vigiado pelo frio carnívoro do tempo.
Oriento-me na vastidão canora do mar.
Fecho os olhos para ver o mar.
Crianças cascavelam pelo areal.
São as idas crianças, estão noutro século.
Estou quieto perante elas, onde moro.
Onde moro?
Onde moro, senão aqui, os olhos fechados
?



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IV. Cinco Prosas
Caramulo, tarde de 22 de Dezembro de 2007

1

A paz escorre da montanha como leite transparente.
Contemporâneos na tarde, o Sol e o frio.
Um homem muito antigo toma uma chávena de descafeinado e um cálice de porto.

2

Ao lado e atrás do talho: arcas de pedra guardam a chuva fria de outro dia.
Brilham hoje, arcas e água, um breve instante: de Sol breve brilham não cegando.
Costumo urinar para as silvas que guardam as arcas.
Furto-me à humanidade e mijo como uma apeada estátua nunca mais equestre.
Quando muito, silvestre.

3

Um homem que tudo fez para se perder da família até o conseguir – vi-o há pouco na rua. Veste calças roxas, tapa metade do rosto com uma armação de óculos refractários da cegueira da perda.

4

Esta manhã, dois acontecimentos.
No café dos anjos, fui à privada das mulheres buscar um toalhete de papel porque não havia na dos homens. Uma empregada vinha entrando quando me preparava para sair. Na penumbra, ela soltou um gritinho. Não sei se de susto, se de delícia.
Depois, a caminho do minimercado, passei pela rua de terra entre muros que resulta no estreito Largo de Santa Margarida. Havia um homem antigo aproveitando o Sol da manhã. Eu dei-lhe os bons-dias. Ele disse:

Vá conde.

Demorei quinze metros e quase um minuto para entender. Ele dissera:

Vá com Deus.

Não sei se fui nem se vim.

5

(Se não percebes o mundo nem a vida nele, escreve-os.)



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V. Acima do Vulcão
Caramulo, fim da manhã de 22 de Dezembro de 2007

Mescálica flor tóxica de Cuernavaca,
Malcohol te chamava teu admirado admirador
e amigo Aiken.

Arde em paz.



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VI. Flora e Fauna de e para Senhoras
Caramulo, noite de 21 de Dezembro de 2007

1

Esmagada violeta perfuma roxa
a boca da mulher na paragem do autocarro.
Sonha sentada no metal perfurado,
as compras conjugais em sacos aos pés.

Amo-a lentamente porque a imagino
devagar. Se ela existe ou não? Se ela
tem número de contribuinte ou filhos
de outro homem, um desses sem lápis?

Não l’o sei. Sei bem mais entardecer
que viver na prática e na conta correntes.
Escrevo uma boca: escrevioleto-a – e
que esmagada roxa beleza ela diz,

calada na paragem do autocarro.

2

Engoliu-me vida e alma uma jibóia
que secretária era na segurança social.
Andámos os dois na doce rambóia.
Tudo passou, mas não faz mal.

3

Se casares, João, com ela, diz-lhe que lembro
de antes de ti, João, a carnação.
Foi tal um junho, hoje é novembro,
João, na minha vida desde então.

4

Disponho flores numa montra.
É o meu trabalho.

5

A mulher é a mãe.
A morte, também.



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VII. Uns Versos para um Amor e Outros e o Mesmo
Caramulo, noite de 19 de Dezembro de 2007

1

Ao teu rosto
sem corpo por baixo
amo,
que os anos trazem à face
o que ao corpo retiram.

O que a lareira aquece,
olhos são,
joelhos já não.

Brandas litografias equalizam a tristeza branda,
emaranha a neve rendas sobre que
lunares retratos imploram esquecimento.

Amo contigo as litografias nevadas a sépia,
quando jovens eram as bovarys pianistas
e jovens berravam as reses a degolar.

O amor fundindo nomes, eu
queria. E que,
solvidos os nomes,
só sem corpos os rostos
à lareira ardessem

da febre da neve,

sobre que nenhum rosto
nem rasto algum.

2

Toco as minhas horas nocturnas como a ovelhas
transparentes
que de dia transparecem claras como as
manhãs.

Não chego a tempo às minhas horas, ovelhas
corredoras
que cada dia estabelecem recordes mundiais
d’ontem.

Ser eu um corpo de outro amor
provindo:

essa lanígera
degolável
consciência
tocadora.

3

Graças dou fechado à visão abrindo
o amplo vale de geada rendilhado.
Sob outro céu, à outra serra, indo,
vem, chega e parte, dou, fechado.



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VIII. Destes e Destas
Caramulo, tarde de 8 de Dezembro de 2007

Um dia destes compramos uma casa, faz frio em volta.
Dentro também, mas ele há epidermes caloríferas.
Não sabemos (eu não sei) lidar com o retorno dos pólos:
uma cabana na neve cedo ou tarde fica pedra.

Apoucam as pessoas sua muita vida.
Carros de aluguer circuitam, curtos.
Azevinhos verdejam cer(v)ejas natalícias.
Faz frio respirar, a um bafo de metros.

É o trato das crianças. É a idade.
Programas têvês de olhos fechados.
É uma dor de tripas, parece saudade
de quando se ia a sair p’ra ouvir fados.

Um dia destes, o inverno instala-se
num andar parado de cinzamarela.
Recordações tornam-se limoeiros:
o plástico campa semicemitérios.

O morrer em vida? Um jantar marcado
entre civilizações tele-hepáticas e desgostantes.
Vamos hoje sair a ouvir o fado?
Há dois, três-quatro, cinco restaurantes.

Uma noite destas
etc.


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IX. Serena Perpétua Petrificada
Caramulo, entardenoitecer de 3 de Dezembro de 2007

Serena perpétua petrificada maré alta: a montanha.
O homem do meu corpo contempla o templo.
Os jogadores da vida alinham números e cinzas.
Uma mulher e um cão descrevem a curva.
As árvores esperam para cima, na álea de horas.

O senhor da minha mão direita dentro do meu casaco.
Ele com os meus olhos tornados leitores.
Respira a terra vapor frio, humaníssimo.
A neta do senhor do boné azul é rósea.
Um cavalo velho pensa à ponta da corda.

Flores congeladas na luz evanescida, quase noite.
A boca como um coral na areia da língua.
Seremos serenos e petrificados, não perpétuos
– garante-me o rapaz que me escreve
um poema em quintilhas de tinta verde.

O make me a mask – pede Dylan Thomas
a Julio Cortázar no frio de Paris, na bruma de Londres.
Coelhos da garganta, canecas de cerveja preta.
Esta é a terra a que subimos, descidos de
nenhum céu, de pedra o mar local.

Dentro do corpo os ossos instrumentistas.
De dentro dos olhos os fantasmas não deléveis.
As mãos como estrelas deitadas ao mar.
A natureza mineral do amor, do egoísmo.
E alguém que nos tenha amado, não a Deus.

Terna, terna floresta de gelo ígneo:
tundra e taiga, flora e fauna – vocábulos
visuais reflectidos à flor da água do poço,
um poço por olho, natação hologramática
de fantasmas muito amados pelo frio.

Álea de horas, dias corredores e congelados como flores,
quase manhã escura, a mesma vez na memória.
A memória, sim: falsificadora de mulheres e cães
e curvas e crianças lavadas e frias como rosas:
hora do senhor da minha mão esquerda.

Quatro luzes cor-de-laranja torrando o balcão.
Fora, a estufa fria embaciando aldeias.
A solidão é de uma dignidade estatuária.
A idade dos homens alastrando como tinta.
E a garganta povoada de pássaros, também.

O homem-a-dias no meu corpo fala de noites.
Raspa o vento sílabas de galhos nos cedros.
Lunar, a respiração bafeja pratas de família.
As casas rangem como barcos abandonados.
Peixes voam rápidos no aquário de constelações.

E os séculos como brincadeiras mortíferas.
E este homem a cavalo no meu coração.
E a imagem do cavalo pensativo de pés na água.
E uma mulher nua povoada de leite.
E janelas de casas com livros escondidos no escuro.

Este homem em mim que te dei para passeares
como um cão pelas áleas que levam ao mesmo
espelho-de-água, na manhã de ouro de cristais
enregelada, em outro século que nunca mais este.
Eu neste homem asilando-me com tinta verde.
etc.


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X. Dicunt Mihi
Caramulo, noite de 23 de Novembro de 2007

Depois de escrito,
prescreve-se
o coração,
proscrito.

Digo-o eu, antes
que mo digam.
Ou escrevam.


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XI. Esperas-me, Sentados
Viseu, tarde de 23 de Novembro de 2007

Esperas-me sentada numa folha de pedra.
Sei-o sentado aqui, num horrível café
de galeria de centro comercial, entre
humaníssimas pessoas horríveis de
tão iguais, tão de ti diferentes.

Algum animal que não eu te trepou
ao colo, que afagas com inocente distracção.
Sempre amei de ti a inocência distraída,
senhora de teus órgãos como um capelão
que envelhece contra Deus.

Entre adolescentes fuzilados pela varejeira
das marcas, entre galdérias lacadas a amarelo
como batatas fritas – estou e espero-te.

Todos estes anos de poesia, sentado
eu também em folha de pedra,
me arrefeceram o cu: temo apenas
a eventual metástase térmica do
coração.

Que, ou quão, velhos seremos, quando de todo nos
debandarem as crianças que fizemos,
primeiro, e as que fomos,
antes e depois?
Eu não sei.

Levedada doçura nos fermentará a amargura?
Eu não sei.
Tu saberás.

Olha: a paródia do Natal já começou: é
o ShoppingMenino-do-JesusCenter.
Crianças iguais a gente velha
artritam de bengala pelas galerias,
senhoras de uma infância
medida em gigas.

Vejo-te daqui, sentados apartadamente
em diferentes natais, diversos subúrbios,
senhora e senhor de
uma vida vezes duas
resto zero.


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XII. Para o meu Amigo Luiz V. de C.
Caramulo, entardenoitecer de 5 de Novembro de 2007

Ao oceano permitiste partilhasse contigo
imensidão, tristeza e eternidade.

Oblíquo olhar cristalino atiraste
a cristal de infantas feito – ou de escravas
pobríssimas. Deverás ter morrido
solteiro.

3 comments:

Manuel da Mata said...

Eu sabia que vinha aí uma revoada. Alguns dias de silêncio é no que dá.Gostei.
Abraço,
Manuel

Daniel Abrunheiro said...

Salva-me a tua atenção, Manel.

Anonymous said...

frutífuro como costumo dizer. bom ano 8.
Afectos