Monday, January 14, 2008

Um Trabalho Oratório – prosa dominical

© Jerry Uelsmann – Small Woods Where I Met Myself 1967

http://www.masters-of-photography.com/

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I

Ameaça o domingo ser eterno.
A chuva arrefece as mesmas pedras.
Escoradas de lume, as casas resistem.
Torcem-se de gelo, labaredas, as árvores.

Ontem, o mundo não era isto.
Não era este ontem o mundo.
Eu digo: o mundo ontem era outro.
A noite tocava-o todo ao mesmo tempo.

Ontem é que mundo foi eterno.
A noite amou-o bem e todamente.
A noite era de raposas e laranjeiras.
O dia agora é uma ameaça de dia.

Eternidade? Uma soma de ontens.
Poucos animais à vista do domingo.
O silêncio das pedras sob a chuva.
Os olhos abertos, fechados os livros.

Habita-me a prosa a vida toda.
Toda a vida é o pouco tempo todo.
Trabalho duramente a pedra: a prosa.
Hei-de portanto merecer a noite.

A noite escrita escreve raposas.
Escreve laranjeiras em si dentro.
O telefone desligado no bolso do coração.
Nenhum desejo e nenhuma garantia.

Uma malga de caldo pulsando nas mãos.
Os livros dormindo de pé na madeira.
O esplendor da árvore dançando, só, ao vento.
A lonjura oferecida pela varanda indiferente.

Voltarei por um dia à cidade perdida.
A nova arquitectura confirmou a morte da infância.
Prédios no monte outrora mundial.
Pastelarias, lojas de ferragens, floristas.

Famílias instantâneas como cubos de galinha.
Nenhum amor e nenhuma agonia.
Eu digo: agonia nenhuma, nenhum amor.
Regressarei rapidamente da cidade.

Uma ideia de rosas perfuma o bebedor de café.
A manhã acabou-se, é já a eternitarde.
O bebedor de café trabalha o mármore.
É um trabalho oratório, não uma prece.

Não há a quem pedir, não há.
Mas também o que não há, é.
A palavra é o facto em lugar da coisa.
E a palavra chuva arrefece as pedras palavrosas.

Ontem à noite não escrevi, só vivi.
Era já tão pouco, viver.
Senti a rumorosa raposa, a laranjeira amarga.
Guardei-as para hoje, bebido o café.

Devo ter procedido bem: chove.
Este é o meu corpo, só.
Há mais mundo depois da varanda.
Escorei de lume a casa, calei-me.

Falam as coisas delas a ausência.
Como desconhecer quão o ausente é presente?
Não, hoje nem sequer falo dos mortos.
Dos vivos falo: eternos, rápidos.

E no entanto amo.
Amo contra mim.
Trabalho a pedra duramente.
O amor trabalha-me duramente.

Nenhuma religião me assiste que a da gramática.
Posso ser um ele pronominal.
Nenhum deus e nenhum santo.
Um anjo apenas verbal.

Recebo muito.
Dou tudo o que posso.
Percepção, recepção e entrega.
Pareço o homem do gás.

Os olhos apresento enxutos.
Levam-me os olhos as mãos a ver.
Já tenho a mais de dias devolutos.
Nenhuma noite eu hei-de mais perder.

Um homem do Lar escreve versos.
Possa
sempre o amor
ser ingénuo
.

Assim escreveu ele no caderno dele.
Veio mostrar-me estes versos.
A mim, que sou da prosa, só.
Copiei-os para que a poesia me visitasse, no domingo.

Dou-me horas, empresto-me anos.
Por uma tarde sou feliz na caligrafia.
Do mar da noite tenho sido marinheiro.
Em terra, entre arrefecidas pedras pluviais.

Dou-me laranjeiras à chuva.
Suspeito raposas nocturnas no dia.
E sinto sempre a grande alegria.
Viver também perfuma a palavra.

Rilke, diz Paulo Quintela, escreve
À Música
em 11-12 de Janeiro de 1918,
depois dum concerto privado
em casa de Frau Hanna Wolff
. Música para Rilke:
como o outro / lado do ar.

Era isto, sim. O habitante pedreiro.
Trabalhar as palavras arrefecidas pela chuva.
As palavras suspensas da eternitarde de domingo.
Foi para isto que vim, estou, irei.

Quando subia de carro na noite a vi.
A raposa que ruiva ardia toda rubra.
Bonita como um desenho de menina.
E, como uma menina, carnívora e materna.

Andei depois pela encosta aurificada de laranjeiras.
Da nascente sangrava álgida a ribeira.
Sentei-me numa pedra redonda, não quis o sol.
A terra cega como o céu me bastava e bastou.

E depois dormi e vi-as.
Vi as medusas respirando água.
Transparentes florações de vidro respirando.
Respiratórios espelhos como água dos olhos, elas.

Vi-as com esta prosa que ora, não pede.
Eu não peço.
Vejo medusas escritas por raposas escritoras.
Laranjeiras transparecem doces como água do mar.

É muito belo (é muito forte) poder isto.
Homens de sobretudo com chapéu rondam sombras.
Carros eléctricos zunem na cidade retornada.
Pastelarias e agonias e amores e não-posses.

E o coração transversal de quando chove.
Hoje chove, é domingo todos os poucos dias.
É o meu tempo? É o vosso também?
Medusas e músicas e mulheres alheadas.

Ao ombro porto o corvo gramático.
Telemáquico não mais por pai partido.
Escoa-se-me a infância, eterna, rápida.
Urbanizaram o monte, abriram pastelarias.

Abelhas e estrelas partilham mel e coalho.
A cidade zune nos carros do não-retorno.
Já não sou dado nem a preces nem a à infância.
E no entanto amo.

Sim, temos o coração a um tiro de pedra.
Somos tantas vezes uma pedrada para baixo.
Um vento nas cortinas da árvore provindo.
O nome faia, o nome olaia, o nome pedra.

Turva doçura acidulada, a chuva perante.
A passagem que se faz pedra de ruas.
O restaurante chinês, os gatos urbanos.
E a bandeira nacional murcha pendendo.

Vidrinhos cristalinos pespontam os olhos.
Os olhos das pessoas são lonjuras.
Estrelas atiradas fundo no céu vital.
Mortais e mortíferas – e tão vivas.

A boca amarga couros.
O sexo é oposto, tal contracanto.
A arte da fuga é nascer.
O retorno é da morte a arte.

À minha cidade voltarei, breve.
Colherei, leve, dela as vielas.
Mijos de gato e restaurantes orientais.
E todo o amor e toda a agonia.

Entretanto se fez dia.
Mereço eu ainda a vossa noite?
Pablo McCartney bebendo cerveja preta com o pai.
E o gelo ardendo mármores de famílias.

Nós amamos todos, todos ausentes.
Acolhemos as marés como a correio.
Gente, nós nos mesclamos entre gentes.
Não temos senão a chuva de permeio.

Leva-me a boca aos olhos, a boca.
Transporto astralinas condições.
Vicejam os punhos como encolhidas rosas.
Já os joelhos articulam palavritas úricas.

Úricas, únicas palavrinhas prosaicas.
Para isto vim, estou, irei.
Ranja um sino sobre campos de fumo.
Além-campos-d’água um bronze reboe.

Tudo por um deus seja inventado.
Um inventado deus num susto de mijo.
Nascemos? E ninguém nos perguntou nada?
Morremos? E ninguém nos respondeu nada?

Vi homens molhados e verdes través a chuva.
Vinham da guerra, não sabiam falar.
Queriam um pouco de lume que não matasse.
Não queriam viver, só lume queriam.

As mulheres corvoavam os homens regressados.
Cheiravam a fundas arcas sem alfazema.
Penelopavam ânsias extintas, o cão à porta.
Tinham perdido os homens na guerra.

Regressaram outros, os que vi.
Li-os, sombras tartamudeadas de vielas.
Caçavam sombras, as sombras.
Putas e chulos esperavam libertar-se da vida.

Andei depois pelas encostas aurificadas.
O meu irmão voltou a ser o homem.
A pedra garante-o, garante-o o mármore.
Duas datas e uma boca, nenhum olhar.

Tão poucas coisas merecem pessoas.
Nenhuma morte e nenhum nascimento.
Um rapaz velho demandando lousas.
Ele demandando o atlas.

Um atlas em que o mar
era tão azul
como depois nunca mais vi
– isto é Wolfgang Bächler.

Bächler foi a Coimbra em Junho de 1977.
Claro está, traduzido por Paulo Quintela.
Na tarde do dia 2 desse-mês-desse-ano,
leu na Casa Alemã o que tinha a dizer.

Que estranha é a simplicidade, amor.
Que estranha coisa é lembrar noutra cabeça.
Barcos tocam a pedra com a boca.
Peixes galinham gordos sob iridescente óleo.

À boca da barra, toca frio o barco antigo.
Antiga-nos a mãe na cozinha evacuada.
Dependuram-se ’inda azulejos ’ninos.
E o coração menos de si mesmo é amigo.

É talvez a felicidade.
Uma malga de caldo, o lume.
Um gelo voador. Uma idade.
Raposas e laranjas; e prosa e perfume.

II

Mereci a noite: ei-la.
Fruto dá atender a prata.
A prata e os diamantes-charcos do chão.
O frio e as hirtas laranjeiras.

É a hora das raposas, rápidas flamas.
A hora de que suspendo verbais arames.
Casas tossicam fumos, casais velhos.
Ao óleo da pedra, chuva chamarei.

Que ainda chove: pó d’água.
Pinceladas plúmbeas ocorrem altas.
E o vale afunda suas mesmas casas.
Diademas entornados como azeite duro.

Poucos homens, algumas mulheres, crianças nenhumas.
Fauna é tão pouco, supera de flora.
A escola apagada, cerrada a igreja.
Uma de nenhuma, a hora é agora.

Já vi das avenidas diferidas o néon.
Táxis sulcavam o próprio rasto.
Em casas antigas cantava o bolor.
Animais de seda atiravam janelas.

Contrário a si mesmo é o posto sexo.
O género de um homem que se faz espécie.
Leis da natura obrigam à demanda.
E os livros não ajudam, antes pelo contrário.

Dou-me minutos bons de luz tão pouca.
Vale a pena trabalhar.
Sair de casa com um casaco estreito.
Deitar andamento e sombra: pedra na pedra.

Água no gelo, na pedra a água.
Mui palavrosa é a compostura.
Eu tenho atendido pessoas na rua.
Eu não espero, nem peço, nem falo sempre.

Venha de onde vier a inclinação mesma.
Um pouco de calor, uma chávena meia.
Um rasto de areia a um vento de furna.
E o vapor da presença na ausente ideia.

De si mesmo a ausente ideia.
Um sino na campanha foragida.
Ter tido uma cidade, uma infância.
Uma morte linda e uma vida feia.

E não ser um filho-da-puta mais.
Mais um apenas desses filhos, não.
Ser um homem encostado às próprias cordas.
Sim. Mas um filho-da-puta mais, não.

Já viu um homem tão bonitas coisas.
O cliente do ausente barbeiro mirando-se, espelho.
A mulher dos canários entre coelhos.
A água regelada em arcas de pedra, ao sol.

Já vi eu tão bonitas coisas.
O céu cor-de-sabão-operário.
A azulibranca espumação do verde.
Os pés entremeados de finíssima areia d’ouro.

Nunca te busquei e encontrei-te nunca.
Nada vale recordar pães e poemas.
Dos aeroportos, a gaze vocálica não ecoa.
E tudo é viagem para quem fica.

Tudo é azeite para quem bruxuleia.
Em casinhotos escuros segrega a moral suas babas.
Faz-se um filho contra a aflição.
E a aflição nasce feita com o filho.

Andei antes por encostas purificadas.
A terra cheirava a gemas especiosas.
Havia culturas gentias, frias e lavradas.
O tudo dava laranjas, raposas e rosas.

Dei por mim em avenidas frias.
A chuva tinha-nos dado: a elas e a mim.
Voltei devagar ao que rapidamente mudou.
Não encontrei o sítio – a mim, sim.

Um toque de cânfora na asa narina.
Que não te cheire a morto, nem a vida.
Circula tu, frio e nu, pela avenida.
O que for, virá, maré, cor-de-marina.

Eu já fui menino, tive meninas já.
Tive duas meninas, tão pouco tempo.
Mais tempo tive eu menino, ainda.
Recordo, muito me esquece, cada momento.

Usam os pés canivetes próprios.
Enforca o mesmo sangue cordas de veias.
Além de ninguém, máquinas-de-costura.
Máquinas-de-ler, máquinas-de-esquecer.

Digo eu: não torres os mortos como a café.
Não os esqueças, mas não os torres.
O amor fundamenta-se na memória outra, a ingénua.
E memorizar é esquecer lembrança alheia.

Sim, é. A cabeça do pai. O rosto da mãe.
Amas mortos a que só agora chegas, vivendo.
Em 1920, um condutor de eléctricos vai ser teu avô.
Vai? Não vai. Treze anos só será pai de teu pai.

Esse homem de olhos azuis, 1880-1930.
Quem é o teu avô, esse ele não pronominal?
Avô-árvore. Pai de pai sem mulher-mãe ainda.
Pai de nada, pai de um morto, domingo chove.

Certo. Acertamos contas. Sei. Pouco.
Calma. Eu trabalho a pedra.
Digo pouco. Tenho uma gramática.
Tenho tudo. Tenho nada. Uma gramática.

Os anjos voejam, varejeiros, as janelas.
Cheira-lhes a árvores e à minha vida.
A minha vida é boa: varejeiras chama.
Pouca fauna, nenhuma flora senão toda.

É como o tempo. É como se tivesse de ser.
Os músicos pisam madeiras cruas.
Depois ficam à espera do milagre.
O milagre é a memória passar da cabeça às mãos.

Como o outro / lado do ar
possa sempre / o amor
ser atlas e azul
e no entanto.


Caramulo,
fim da manhã, tarde e noite de domingo,
13 de Janeiro de 2008

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