Thursday, April 04, 2013

Rosário Breve n.º 303 - in O RIBATEJO de 4 de Abril de 2013 - www.oribatejo.pt




A pulseira do Sala

Lembrais-vos da pulseira mágica do António Sala, aquela a que o suposto Senhor Rádio e alegado Príncipe da Renascença fez propaganda? Sim, aquela que os e as abéculas deste País triste e parv’alegre compraram em massa para suster o mau-olhado, o herpes, o corrimento menstrual, a egofagia, as saudades da tia e o raio que os parta? Sim, aquele amuleto de fraca lata que era suposto curar e sinecurar as vertigens, a bola de pêlo na garganta, o mijo em caso de gargalhada, o paradoxo que resulta da disfunção eréctil crescer tanto e a angústia metafísica perante o IVA dos livros? Pois, essa mesma que os supinos parolos deste morredouro de lambéculas passou a usar galhardamente na mesma pata do dedo do cachucho e da fitinha do Senhor do Bonfim, em vez de a trazer ao pescoço como os cães fazem à coleira e os bois à canga, ou, à maneira de arganel, no focinho como os cafres, os punks e os porcos?
Sonhei com ela. Que era obrigado a usar uma. Que nem debaixo da camisola a podia esconder. Que tinha de andar sempre com o antebraço arregaçado até ao sovaco.
Sim, tenho sonhos tristes. Nem pesadelos são, que não tenho dinheiro para filmes. (E quem não tem dinheiro, não tem vícios, excepto o vício de não ter dinheiro.)
Desse sonho da pulseira do Sala acordei especialmente consternado. Compungido. Pesaroso. Dorido. Raivoso. Combalido. Acordei português, enfim. Mas, pronto, levantei-me e pus-me a cirandar pela mente à cata dos cacos do sonho. Andava eu já quase muito contentinho nesse ofício quando me deparei com nótulas a lápis encefálico para futuras crónicas.
Uma era esta: que o défice e o Relvas devem ser afins, já que ambos são impagáveis. Outra ocorreu-me quando, dando pão às pombas, veio um pardal e roubou quanto pôde, pelo que passei a designá-lo por “gaspardal”. Outra, vá lá, era um arremedo de senso-comum: chávena escaldada de café frio tem medo. Maluqueiras de cronista ocioso, eu sei.
Costumo esquecer-me depressinha dos sonhos. Mas o da pulseira do Sala não quis ser obliterado sem se ver em tinta de imprensa. Que significará tal desvario? Que simboliza? Que quis ele alegorizar? Eu não acredito em transcendentalismos nenhuns. As superstições põem-me a rosnar. As psiquiatrias e os pais-de-santo valem-me o mesmo. Aos que se genuflectem, só me apetece povoar-lhes os cagueiros de pontapés com biqueira de aço. O meu único santo é São Tomé. E o meu credo é todo material, a ponto de considerar os humanos como meros sacos de vísceras apertados em cima por um olhar. Mas “o” raça da pulseira do Sala, sinceramente…
Peço-vos perdão. Isto não é crónica que se veja ou sequer se cheire. Eu sei, eu sei. O que não sei, é como arrancar do pulso a porra da pulseira, que acabei por ter de comprar à viúva do Serafim, cujo a tinha comprado para se curar duma caganeira hemorrágica mas acabou por morrer dela na mesma, como toda a gente.

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