Wednesday, April 24, 2013

RIO-FLÚX - 8 - (caderno-livro em construção andante)


8

Leiria, 23/IV/2013, terça-feira

ORÁCULO SOLAR

I

Muito sol anda no ar, hoje.
Terrível chega a ser, tanta beleza.
As mulheres beneficiam muito do dia.
A tarde espaneja-se toda bandeira.
Fixo nas coisas um olhar serenado.
Espero a pomba das três horas.
Trouxe-lhe pão novo, é claro.
Envernizadas, coruscam as árvores.
Até a amargura vale um esmalte.
Por onde seguiria, se não por dentro?

O trabalho daquele cão é ladrar aos carros.
Que irada irritação o excita?
Ulcerado de sombra, o muro humedecido
é escrito a hera povoada de pardais.
E um gato tomado de sono bebe sol.
E eu quase não existo, quase não hesito.
Amarela como um recado alegre, esta mulher.
Esta mulher aloirada de seiva passando.
Passando e levando com ela a gardénia macerada.
Tudo vale tanto, melhor do que nada.

Desertada de gente, a casa antiga apodrece devagar.
É à face do Rio, que sereno brilha & vai & fica.
Falo com a senhora mãe do Eduardo.
Conta-me ela de quando a mãe dela era caseira.
Que nada lhes faltava na quinta:
criação, horta, fruta, sardinhas, azeite.
Conto-lhe a infância da minha Mãe.
Conto-lhe dos pais da Mãe, caseiros de quinta também.,
Azeite, sardinhas, fruta, horta, criação.

Do milho, a broa-pão sustentando gerações.
Tinta permanente: ingénuo, perecível adjectivo.
Olho em qualquer direcção cardial: a tudo pertenço.
Quando a noite visita os olhos, apossa-se deles.
Não agora.
Agora, a claridade instaura o País.
A claridade faz bem até aos desgraçadinhos.
Os desgraçadinhos que andam no gamanço e os outros.
E nos solares os fantasmas são familiares.
E o Senhor Engenheiro tem uma amante em Lisboa.

Ai aqueles olhos verdes, perdição da carne, fúria do leite.
Amazona preclara, intangível, mosqueada.
Matizada a cordões nervosos à flor de álacre lacre do mamilo.
Rebentação de escumas, penhasco dulcíssimo.
É se calhar casada com algum advogado.
Ou pior.
Que bem se embalsama ela de cremes franceses.
Ai que água de azeitonas chilreia ela.
Escrevo as minhas décimas à indiferença dela.
Boa para levar para uma ilha mais uns livros.

Tem sido na prática assim a minha vida adulta.
Digo: a minha adúltera vida adulterada.
Escarneço a vida, mas ainda sou laborioso tipo rã.
Pedem-me do Louriçal um entreacto jocoso.
Escrevê-lo-ei amanhã, entre bebidas e fumos.
Ponho isto aqui, sentido lhe não demando.
Chega-me hoje p’lo fim da tarde o Fernando.,
É meu Irmão – mais não há que dizer.
O Sol é todo uma Gréci’Antiga.
Afio o lápis, vou fazer outra cantiga.

II

– Mais uma que não vai à missa – diz a mãe
do Eduardo, referindo-se a uma brasileira-de-esquema
que surde pela Avenida 22 de Maio de telemóvel
(“célúlá”) na orelha pingona de cera.
Sorrio à expressão, contentinho dos rins.
Uma alforreca tisnada carrinho-bebéa a cria,
Um cão boceja no separador relvado da via.
Segrego o pus benigno e inócuo dos versos.
Deveria talvez fazer sopa para a ceia.
Sei-a de cor já (à vida ávida).

Volúvel, o Rio arde além dele a febra fresca.
Aquilo é tudo um marulhar de cristais.
Sempre que qual um ferrete a estupidez das
pessoas genuflectidas ante o não-mistério,
passo-me da mona, a estupidez desmona-me todo.
Sobra porém Bach, sobra todavia Ruy Belo.
Português qual pardal, tenho muita pena de não ser católico.
O Senhor perdoar-me(doer-me)-á, estou certo.
Ínsua de tangerinas face à Vala do Norte:
infân’Mãe’distân’cia: verdade, que bem na sei.

Quanto tempo hei ardido para aprender a escrever?
Todo ele.
Sentido para isto?
Nenhum em peculi’particul’ar.
Mal que isto faça?
Idem.
(Cospe as pevides, não as tasquinhes.)
Às vezes, em Casa, abro o caderno.
Abro o caderno, dou à Mulher conta do dia.
Ela escuta, raposa vegetariana na floresta carnívora.

Não há-de ser assim para sempre,
a não ser que por escrito fique.
É outra das albardas da Poesia:
querer ficar, crer ter-sido.
A gente masculina ante um par de mamas:
boquiabre-se o eterno efebo ante a
Mãe-Ressuscitada.
Ou, como há pouco diss’escrevi:
Tudo vale tanto, melhor do que nada.
Nada.


A pomba da tarde com(a)pareceu às 15h36m.
Miguei-lhe o pão, fiz-me revoador alcoo’eólico.
Atirei-o-esmifrei-o ao ar.
Ela comeu-o de boa-bom boca-bico.
Acabaram-se-me os cigarros.
(A infância também, por mais que eu.)
Lavanda nórdica eucalipta-me a fala.
Falo com a mãe do Eduardo no Café da Rita.
Há muito tempo não pinto casas a lápis.
Excepto ontem.

Excepto ontem porque a Graça quis saber.
Arejámos a sala, sentámo-nos, havia água fresca.
Toma-cá-dá-lá, li-lhe o lápis.
Ela ia reiterando com a cabeça o próprio Pai.
O dela, que fez casas onde ’inda hoje outras pessoas.
Tardou nada, era noite.
Eu assim para ela: – Vês?
Ela assim para mim: – As orquídeas, há que mudar-lhes a terra.
E eu assim: – As orquídeas. E ela: – A Grécia (a Graça), às vezes tenho saudades desse tempo.

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