Saturday, April 27, 2013

OS ÚLTIMOS ANOS DE TODA A GENTE - 24 a 29




24

Leiria, 5/III/2013, terça-feira



De volta ao mundo breve, caneta na mão direita, cigarro na mão esquerda. Perto, fala-só, aquele de blusão nácar-ostra que a droga maluqueceu. Tem uns phones enterrados nas orelheiras. Hoje tem tabaco, não anda a cravar. Vive com a mãe num andar próximo da galeria da Rita, onde escrevo para ninguém (quase).
Que me trará o dia?
Que levarei à noite?

25

Ibidem



As mãos daquele homem: flores-aranhas petrificadas.
Os olhos daquela mulher: berlindes sérios no azul.
Um menino brincando no passeio: cabrito-montês sem monte.

26

Ibidem


Era então que as mãos eu depunha ante teu altar
As mãos que à boca me escavam palavreados
Uma vez na Maceira, eu sozinho como um cão, eu

27

Ibidem


Estava frio ontem, consolava-me porém saber que
frio não sentiam nem passava na terra os
meus amados mortos, dormindo sempre eles,
agasalhados de raízes e podridões supuradas.

28

Ibidem


Olha-me olhando-te: perpétuo flash
enquanto há tempo.

29

Ibidem


Sufrago-te, Ermelinda, saudáveis votos.
Afago-te, Graciana, mil composturas.
Não sei, Rosa-Josette, por que tal marido aturas.
Vem daí, Maçã-do-Monte, limpar-me esgotos.

Maluqueço, Joselito, devagarinho.
Vem comigo a um copito de branco vinho.
Escrevo muito, digo tão pouco, velho Raimundo.
Abel, velho comparsa, sempre iracundo.

Sozinho como um cão, consciência adentro.
Conheço todas as margens mas nenhum centro.
Sou um corpo de vidro meio, meio de pedra.
Muito mundo emurcheci, muito porém ’inda medra.

Olha, Adão Mastor, olha-me bem esta cidade.
Toda a avenida é de vida em liberdade.
Toma-se um café antes de morrer e pouco mais.
Dez milhões de pobrezinhos, outros tantos portugais.

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