Sunday, April 28, 2013

RIO-FLÚX - 14








14

Leiria, entardenoitecer de
28/IV/2013, domingo

ESPÓLIO

I

Uma mulher diz:

– Eles falavam sempre um com o outro, eu não os percebia, acabava por adormecer, acordava sozinha, já o meu tinha saído de casa e nem sempre a noite mo devolvia.

A outra mulher faz que sim com a cabeça, entende-a bem, o suficiente para nem aventar um arremedo de consolação da amiga. Está grávida, tem mais de quarenta anos, não sabe se há-de chorar ou se há-de chorar.

II

A penumbra instala-se em câmara-lenta-e-muda, carvão em pó o mais fino, farinha de carvão, pública cegueira de uso privado. As árvores alastram, a mancha delas toma conta das águas múrmuras. E o saibro é crespo, canta estaladiçamente no calfe dos pés peregrinos. Ou fugitivos.

III

Um dia, não já mas não remoto também,
restolho de papéis será o espólio:
sombra de idas sombras,
bálsamo não demandado,
nem resto nem rosto já. 

IV


Um Cecil Trevor Broom de há cem anos à porta de uma estalagem de mala-posta depois do desjejum. Choveu muito durante a noite, a estrada é um arroio de lama que se vai enregelando devagar. De pé, a um passo do pórtico, Broom fuma a cigarrilha dominicana. Pensa no que conversou com o sócio Ralph Neville McPherson, o mais leal dos seus amigos, talvez mesmo o único Amigo. Nem por sombras (sombra de idas sombras) pensa na mulher. Na de McPherson sim, pensa. Está grávida. E isso fá-lo sorrir na penumbra da manhã, espólio do século.

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