Monday, July 16, 2012

IDEÁRIO DE COIMBRA - 26 (outro fragmento) - Coimbra, domingo, 27 de Junho de 2010

DA, Leiria, 11 de Abril de 2012





Desconheço se a Vida é de consumo mínimo obrigatório, se de consumo obrigatório mas mínimo. É, enfim, consumo. E obrigatória. E mínima.

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Estilhaçada a redoma de cristal da infância, desflorada a rosa da tarde, ao menos a julgar pelo relógio (15h37m) é tarde na minha vida.

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Quintais suburbanos, uma criança solitária por cada. A montanha, longe para sempre, não mais que um fumo azul debruando o horizonte da criança e da solidão que ela já exerce, suburbana do mundo. Nas noites sem polícias nem ladrões, as estátuas trocam de jardim alvoroçando o sono dos melros, indignando as dálias, entrando neste verso. Nos sanatórios de fim-de-linha(gem), os velhos & as velhas descuram-se finalmente da mente e do final, imunes ao Tempo e ao Amor e à Solidão e às Fezes. Cada criança suburbana por cada solitário quintal iniciou já a contagem para este mover de estátuas, de dálias.

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Nas tumbas de pedra das catedrais,
bispos e reis (e soterrados operários)
nem dormem já, que o pó não dorme.
E o esquecimento é enorme.

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Espanejo de floral rama de laranjeira por vezes a minha vida podógrafa. Não se trata (não já) de leccionar crianças ou de coleccionar amores. Trata-se de deixar escrita uma cor que aliás nem vi, uma ave-árvore autuando a eternidade de uma tarde (uma eternitarde), algo assim difuso mas uno na minha cabeça-coração. Ainda assim, deveria arranjar um emprego melhor.

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Conheço tão bem como toda a gente (séria) que chamar genial a Pessoa é como chamar água à chuva. Em carta ao poeta Mário Beirão datada de Lisboa, 1 de Fevereiro de 1913, ele assim:

As ideias que perco causam-me uma tortura imensa, sobrevivem-se nessa tortura, escuramente outras.

E adianta:

V. dificilmente imaginará que Rua do Arsenal, em matéria de movimento, tem sido a minha pobre cabeça.

Conclui o parágrafo:

Toda uma literatura, meu caro Mário, que vai da bruma – para a bruma – pela bruma…

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Se as andorinhas fossem amarelas, esta menina de blusa amarela seria, em perfeição, uma delas. É filha deste casal aqui, vêem, este que lancha tantos bolos e tantas coca-colas. Todos chinelam de borracha, todos de calções. Por causa dos calções, os refegos brancos e moles das coxas da mãe enrosquilham-se magmas de banha seguros a custo pela pele. Por causa dos chinelos, os dedos dos pés do pai apresentam uma grossura de maneiras e um duplo pentagrama onicológico de esterco que escreve travessões no soalho-caligrafia do Café. Mas é por causa daquele amarelo da filha que, não sei porquê, pensei em andorinhas. E que, em andorinhas pensando, foi nela afinal que pensei e penso.

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