Tuesday, July 17, 2012

IDEÁRIO DE COIMBRA - 26 (conclusão) - Coimbra, domingo, 27 de Junho de 2010


© Henrique Medina (18 de Agosto de 1901, Porto - 30 de Novembro de 1988)


Pessoa em carta de Lisboa, 5 de Janeiro de 1914, a Teixeira de Pascoaes:

Passo a vida a adiar tudo – e para quando?

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O que mais surdamente pretendo – é não prota/nem/anta/gonizar o livro que, queira-o ou não, sou. Agonizar também não quero. Ambiciono a paz e a indiferença – mais o que resulta da fusão de ambas. Quero muito isto: ficar escrito em paridade com o inefável e o redundante. Ao cimo, enfim, duas datas no peito de mármore. Ao fundo, um rumor de raízes obstinadas, voluntariosos vermes e meia-dúzia de versos justificando as ossadas e as surdas pretensões que nutri em vida.

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 Trabalho ora com bons materiais: perfilados como de moedas, os rostos das pessoas. A economia delas: o que gastam sobre a mesa, se sim ou não arranjaram as unhas a pagar, o calçado que as leva e traz, os óculos e as minuciosas parafernálias afins. São estas fragmentações que me dão trabalho – e eu nunca voltei o rosto ao serviço.

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A felicidade é compósita, é elementar a tristeza. (Penso isto mesmo.)

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Outras vezes, acode-me desejar compor os versos das canções que novas Sereias cantassem para desespero novo de novos Ulisses.

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Que poderia ser isto, minhas filhas, em nosso redor
– senão o manto-de-mágico das estrelas no veludo tão alto da Noite que cruzais dormindo em transes de açúcar?
– senão a bondade infinita dos olhos dos cães e das vacas e das mulheres que os homens amam para que filhos e filhas?
– senão três, quatro árvores atoalhando de sombra de escuro linho a clara relva que grita verdes?
– senão um homem banal a escrever versos de domingo no Café de todos os dias as noites todas pensando nas filhas?

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Além, minha cabeça adentro, os legos humildes do casario ao colo da serra: como crianças de cal, cabelo vermelho, olhos que o sol doura como a janelas. De que para não precisar de ser feliz preciso? De coisas cabeça afora. Mas: impõem-se os recados gráficos de cercanias a que falta um centro – como se a S. Martinho do Bispo e a Lordemão faltasse, centrípeta, a Torre da Universidade.

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Vai Junho acabando. Outras coisas vão começando. Amanhã, reabre a casa-de-pasto Viaduto. Ontem, falei um pouco como pessoas que não eram eu. Na cama, sentia os carros subindo a Avenida. Hoje é domingo. No Nosso, a vozearia de um aldeão alcoolizado (marca feirante), de tez enegrecida pelo courato do esterco, incomoda. Não é o álcool dele que incomoda. É ele. Agora ladra que é de Figueiró dos Vinhos. O pessoal a ver o Argentina-México e o fulano a etilizar o cenário. (A propósito, e aos 25m da primeira parte, injustiça arbitral: golo de Tevez em fora-de-jogo conta na mesma.) O tição bebedolas, Dieu grâce!, foi-se embora. Resta, ainda assim, um maduro parvalhóide que noutro dia (durante o jogo Espanha, 2 – Chile, 1) por aqui apareceu estupidamente com uma estúpida vuvuzela. Ainda cornetou aquela merda, mas impuseram-lhe respeito. Hoje, está sem a corneta merdosa que o marketing do Mundial sul-africano criou, mas é como se tudo o que diz e vocifera fosse vuvuzelado na mesma. Amanhã conta 28, este Junho que quando quer arde, quando não quer emana frescuras quase frias. Penso na minha Mãe. Na cama, como quando fez os filhos e como quando (n)os pariu. Por estes dias, tem ela, do lado esquerdo, a Vida deitada; do direito, deitada a Inominável. E eu, que tenho quanta saúde não mereço, faço por ler livros, por escrever um e por não andar por essas ruas soliloquando gestos de doidinho letrado. Vai a Mãe acabando: que me interessar pode o começo de outras coisas?

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(No frigorífico, restos de sopa de feijão-verde e de esparguete com calamares. Julgo que uma sobra de creme de ervilhas também. Mortadela, ainda. As verduras acabaram, os pickles também. Apetece-me peixe com batatas cozidas, mas não há alho para benzer esse casamento do mar com a terra. Quando finalmente for à mercearia, hei-de convocar: uma lata de metades de pêssego em calda; um pacote de margarina e outro de banha de porco; um frasco de espargos e outro de cebolinhas em vinagre; tomates e agrião; mais batatas; peixe; carne de porco salgada; leite condensado, uma latita das pequenas para turvar o chá; dois pares de palmilhas para as sapatas; uns chinelos de borracha como aqueles com que os brasileiros já saem calçados das cavas uterinas das mães; pão-de-forma ensacado às fatias; alho e cebola e tomate com fartura; e um lápis.)

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Pessoa em carta a Armando Cortes-Rodrigues, datada de Lisboa, 4 de Outubro de 1914:

Há dias passava eu de carro na Avenida Almirante Reis. Levantando os olhos por acaso, leio no cabeçalho de uma loja: Farmácia A. Caeiro.

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Como o que ontem fomos o não sabemos já,
desconhecemos o que seremos no amanhã que será.

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