Friday, October 08, 2010

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 84

© Marek Jedzer

84. SONHO EM ESPÉCIE, ESPÉCIE DE DESEJO

Coimbra, terça-feira, 5 de Outubro de 2010

Descontadas algumas interjeições soliloquazes, passei o dia calado. O Centenário da República, comemorei-o, pois, em silêncio solitário. Falar, falei pouquíssimo (os telefonemas, aliás escassos e breves, não invalidam o que anoto), mas ouvi. Ouvi lendo. Cortázar atirou-me para o aquário das suas vivíssimas medusas póstumas. Agora, agora que o Sol da tarde foi finalmente vencido pelo anoraque cinzento do entardenoitecer de Outubro, pois agora que se lixe. Sem recursos e sem expectativas, não cuido de amanhã. Hoje basta-me por vida. E por enquanto mais não digo. Ou falo.
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O intolerável das galerias comerciais fechadas nem é a interdição de fumar. O intolerável é a criancinha pequeno-burguesa que guincha e cabrioleia exigindo guloseimas e balancés electrónicos e coca-cola em vez de sopa. Não grita já o amor eventual que a gerou. Ela sim, grita, guincha, brama, trissa, ganiza, cainha, rincha, relincha, glotera e blatera. Invariavelmente filha de padrasto rematrimoniado com a madrasta seguinte, estas miniaturas estereofónicas entram-me pavilhões auditivos adentro com a subtileza do grão de areia em giz través ardósia. Tenho momentos em que me apetece jogar futebol com tal criancinha, fazendo ela de bola e o cabrão do padrasto dela de poste.
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Uma manhã, à maneira de quem nasce, levantar-me de entre duras pedras orvalhadas e seguir marchando, primeiro por um areal litoral de incalculável extensão, areal e areal e areal e areal, vigiado de cima por aves geométricas como cabides ou crucifixos, do lado direito pela espumosa asma oceânica (oceano e oceano e oceano e oceano), em frente sempre e sempre avante, até que, como quem cede, o areal entra, para atirar-se-lhe aos pés, floresta adentro floresta afora, e nisto a tarde tornada fotograma de si mesma na película árvore sim árvore não, o pólen joeirando pelas frechas solares, a lavanda lavando os aromas respiratórios, a maravilha tão álgida de uma mãe-de-água em talha onde satisfazer a saúde da sede, seguir até que o entardenoitecer me cumpra o círculo e, nas duras pedras sobre que a geada veio anoitecer, parar, sentar-me e morrer.
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(O que acabo de escrever – pode tanto ser um sonho em espécie como uma espécie de desejo.)





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