Saturday, November 15, 2008

Cristalino Vicente – I e II

© Sandra Bernardo – Redinha, 12 de Novembro de 2008



I

Em casa, Souto, noite de 15 de Novembro de 2008


Não sabe como o sabe – porque o não leu em lado algum nem lho disse ninguém – mas parece-lhe sempre ter sabido que

As árvores sofrem muito dos braços, partem-se-lhes com uma frequência que denuncia a facilidade da fragilidade, o vento, as crianças, os camponeses impacientes que varejam à porrada, partem-se-lhes os braços muito. Mas depois elas tratam delas mesmas, curam-se, fazem nascer-se outra vez em ramos e ramos e flores e outra vez frutos, como se não houvera sido nada. Depois ficam podres por dentro, uma pessoa sabe que aquela e aquela morreram. Mas depois uma pessoa olha em torno da que morreu – e há tantas vivas à volta, tantas a nascer, mal se vêem, são do tamanho de flores, mas não são flores, são árvores que vão dar flor. E uma pessoa não sabe como sabe – porque não está escrito nem ninguém fala disso.

Os sonhos dele são assim: claros, irrefragáveis, até bonitos. Ele é matador. Chama-se Cristalino Manuel Damas Vicente e é matador. Não é um assassino. É um camponês que chamam para que mate o porco e os filhos do porco e, por assim dizer, a mulher do porco. Também acede a matar cordeiros, embora lhe custe. O carneiro, nem tanto, como aliás a ovelha. Os cabritos, igual aos cordeiros. A vaca, não é capaz de todo. Não a sonhou ainda, nem a leu algures, nem ninguém lha disse, mas a razão é que a vaca (o porte da vaca, o olhar da vaca) lhe impõe(m) a Mãe que teve e que apodreceu por dentro e que, afinal, não rebrotou nem deixou iguais a ela em torno, nem ramos, nem flores a que o matador chame irmãs, nem frutos a que ele possa chamar irmãos.

II

Ibidem


Uma ainda nem madrugada, Cristalino Vicente acorda sem ter sonhado. Sente-se um tanto vazio por causa disso, mas não se pergunta. Faltam dois minutos para as cinco, levanta-se um minuto depois do sino.
Não sonhei com nada.

Desperta lume no lar, chega-lhe a cafeteira, junta uma mão de gravetos e uma pinha. Sai ao pátio e lava cara, mãos e antebraços na selha. Frúi a friúra da água, que lhe ferra os ossos. Reentra, serve-se de café numa malga azul e verde. Serra um pão, vai ao mosquiteiro e tira o naco de toucinho cru. Come. Bebe o café em dois sorvos. A cara despede-se da água da selha, assimila a força do lume. Está pronto. O cão também. Chama-lhe Mondego. Despedem ambos pela congosta. Sobem e descem linhas de terra entre pedras. Arde a gelo a primeira pincelada de alba. O casal é a duas horas de caminho. Chegam.
Está tudo preparado. No pátio do casal, depois do carro de bois, que, sem bois, inclina as varas para descansar no chão, está o cepo largo. Trazem a porca grande. Já não pode ter nem dar mais filhos. As mães dos homens, um dia, também chegam a isto. Ele espera que os homens da ajuda firmem a fêmea, que já percebeu tudo e o olha sem rendição. Ele evita-lhe o olhar. Opera. O sangue cachoeira-se, a patroa da casa acode com o alguidar, a colher de pau, o vinagre. Para aquela ex-mãe, tudo acabou. Ele espera que a queimem à flor, que a raspem com cacos de telha. Depois, içam-na. Crucificam-na ao contrário. Ele abre-a de alto a baixo. Revela-a. Revela a humanidade dela por dentro.
Nisto, o filho da casa grita no pátio. Não tem ainda cinco anos, estava a brincar no carro inclinado, caiu mal, partiu um braço. A mãe grita, o rapaz também. Levam-no. Vai ficar deficiente daquele braço. Cristalino Vicente e Mondego regressam a casa: pedras, terra, (tantas árvores vivas, algumas mortas). Lava-se na friúra. Entra. Faz mais café. Come pão com toucinho. Trouxe laranjas, come uma. Deita-se, pergunta-se antes de adormecer
Hei-de agora sonhar com quê?

2 comments:

Isabel Cotrim said...
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mar said...

o teu blogue é uma locomotiva em andamento, daquelas que deitam muito fumo mas são tão agradáveis à vista que as pessoas vão esperá-las antes da estação e vêm a correr ao lado dela até ela parar finalmente.

e esta viagem que fiz, apesar de ter gasto a sola dos sapatos, foi das mais bonitas.