Sunday, November 02, 2008

Adoração da Menina (quadras) seguida de Posse(s) (crónica da semana n'O Ribatejo) e ainda Esta Luz É a minha Derradeira

ADORAÇÃO DA MENINA

QUADRAS PARA AZULEJOS DE TABERNA PORÉM ASSAZ LEGÍVEIS (E ATÉ PRÓPRIOS) EM ESTE QUE AQUELE ANIVERSÁRIO DE VELHINHO/A SARCOFAGADO/A EM LAR DE TERCEIRA (E ÚLTIMA) IDADE



Pombal, manhã de 31 de Outubro
e Casa, Souto, manhã de domingo, 2 de Novembro de 2008




Tonsura-me o coração selénico, anda,
como estes ausentes anos outra coisa não
tens feito. Domingo, ao passar da banda,
hasteia ao frio ar a adoração.

Não me queiras mal, que sou
um alvedrio apenas, um deserdado.
Trago-te tremoços tantos do mercado!
Congosta é toda a via sobre que vou.

Pincha de riso o lábio ortodoxo
da senhora Dália, que é farfalhuda.
O pai dela, Dália, era coxo.
A mãe esbracejava, que era muda.

Reuma, fleuma, flato, mirtilo
e um par de rosas pagãs.
Tudo devidamente pesado a quilo
no fulgor breve das manhãs.

Flecha, folecha, ressalva, estearina
e um par de cravos vermelhos.
Tudo posto de joelhos
em adoração da Menina.

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Posse(s)

Tenho um amigo que não vê diferença nenhuma entre os “magalhães” de Sócrates e os electrodomésticos de Valentim Loureiro. Eu também não, não sei porquê.
Tenho um inimigo que não vê diferença alguma entre a minha pessoa e um saco deixado fora do contentor em fim-de-semana prolongado. E eu quase que também não, mas sei porquê.
Tenho uma prima que aos 43-quase-4 anos ainda não se casou. Todos na família a invejamos. Toda a gente sabe porquê.
Tenho uma varanda de onde avisto o mar interior de todos os marinheiros que nunca o foram nem serão. Da minha varanda, vê-se uma pastelaria, meia dúzia de limoeiros raquíticos, o tal contentor do lixo e uma pedreira poeirenta como a Lua.
Tenho um rato na biblioteca que começou pela secção norte-americana da narrativa: home, sweet home, pensará o gajo.
Tenho uma tosse esquisita às seis da manhã, hora a que me levanto para escrever crónicas e versos e números de telefone que nunca me respondem à chamada.
Tenho uma vontade danada de entrar de rompante (e de cavalo branco) nas assembleias municipais (todas elas) e espadeirar aquelas perucas todas com ademanes zorros.
Tenho um exemplar da “Varanda de Pilatos” autografado, em Novembro de 1927, pelo Autor, Vitorino Nemésio. Tenho, tenho.
Tenho vezes em que só me apetece suicidar-me ao contrário: emborcava um bocado do trigo roxo que o tal rato nortamericanizado despreza, esticava o pernil e nascia outra vez, mas para melhor.
Tenho um frigorífico tão pequenino e tão portátil, qu’inté parece um “magalhães” socrático.
Tenho umas pantufas tão puídas, que os pés me parecem fora delas.
Tenho uns sopros no coração que me levam a suspeitar da presença do mar onde, de facto, só a pastelaria, o raquitismo citrino e a desolação selénica.
Tenho práticas sideromantes que se devem todas à minha involuntária vocação para o sopitamento.
Tenho na cabeça milheiros e milheiros de palavras cujo vero significado me é impermeável.
Tenho um pardal na memória e uma memória feita de cinzas voadoras: como um hálito de pedreira.
No fundo, tenho quase nada – porque a tudo pertenço, por enquanto.
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Esta Luz É a minha Derradeira


Pombal, tarde de 31 de Outubro de 2008




Há muita amargura no mundo, metade da qual era, no mínimo, escusada.
Gente que olha o jornal sem ler o que, de facto e aliás, não foi escrito.
Rapazes escurecidos pelo divórcio dos progenitores irrompem a tacos de basebol vidraças de fiats e de corsas.
Gardénias de plástico branquejam moscas.
Noticiários noticiam amarguras felizmente longe, felizmente anestesia.
O dia passa.

Rompe o dia.
Cordas e arames crucificam camisas, abandonadas de corpo secando ao frio do mais recente novembro da História.
Da churrasqueira virada para a praça evola-se o perfume da carnificina: teclados entrecostais do falecido porco, aves esquartejadas como livros, costeletas da mansíssima vaca, o bedum activíssimo do anho mansíssimo.
Há muito perfume no mundo.

Estou sentado entre árvores. Não trouxe pão, não há pombas. Há mulheres carrinhando infantes roliços como bolas de miolo de pão, que olham o céu de dentro da nata, a brisa da respiração aderindo ao gás das nuvens e ao meu lápis.
Eles e as mães povoam os ilhéus onde a amargura espera, entre árvores.

Esta luz é a minha derradeira fortuna, que dissiparei no sábado convexo. As frases olham seu, mais que meu, pântano particular. Vou passar a tarde a ler crimes.
Serei entre móveis (ex-árvores).

2 comments:

incomunidade said...

(re)publicado na incomunidade

LM,paris said...

I-have-o-clavier-cassé-
mas-_adoro-voltar_aqui
*escrevo-com-_as-letras_que-posso
*_amo-o-texto,o-_antes-deste-
*o-do-rato
*norte-_americano,preferido,_amo-
*yes,we-can
*loveLM