Monday, September 01, 2008

Se no meu Rosto o teu Retrato




Fotografia: © Sandra Bernardo,
“Recorte da Sé de Viseu”, entardenoitecer de 31 de Agosto de 2008

Texto: Viseu, entardenoitecer de 31 de Agosto de 2008





I

Rondam as aves o entardecer dos sinos,
é já o outono a primeva condição derradeira.
No terraço arenam-se de tempo os meninos
sozinhos jogando a tarde inteira.

Jogando-a fora, longe a atirando.
A sul, há canaviais, ínsuas, tangerineiras.
Aves rondam, meninos rodam: tudo é, brincando,
sineiras coisas, tardias, entardecedeiras.

II

Reconfere no meu rosto o teu retrato, anterior senhor.
Em minhas últimas mãos, tua tremura primeira.
Isto passa-se num teatro dentro de nós, que o amor
é uma dimensão, não mera coisa aventureira.

Verifica, senhor, o teu coxo caminho roxo a meus pés.
Uso sapatos mui modernos, muito aprazíveis.
Continuo a passar ante ideias e mulheres comestíveis,
como, senhor, passaste: e foste e és.

III

Hoje não recebo senão aos domingos.
Tem toque de neve o dia útil.
Pode até resultar-me inconsútil
pano receber se não ao domingo.

Se não o domingo, então outro dia.
Mas a outro dia, ante o mesmo mar.
A gente não vive, a gente adia.
Não é isto viver, é só adiar.

IV

Não me receies a volta não duradoura.
Eu dou-me a limos e a cimos outonais.
Conheço fonsecas e outros que tais,
que cheiram a pílula não duraçadoura.

Tu, e eu, e os outros, nós a morrer vamos.
Do nascer viemos e vivemos, iguaizinhos que tais.
Oceanografia é ’screver oceanos:
e todos se chamam, como é?, portugais.

V

Os calhamaços de História (em)pilhados ao canto.
As flores sempiternas roxeando no pátio.
Eu sou lusitano: prò ano é que canto.
E sou português: prò ano sou pátrio.

Passa um gatito esmoler p’la calçada.
Tem pintas genéticas, as mais coloridas:
deve ser heptatrágico, o ter sete vidas,
que uma bem basta a não passar nada.

5 comments:

Anonymous said...

Pelo menos uma razão para vir aqui. Estas fotógrafa do Abrupto...
Luís Bernardo

LM,paris said...

cher daniel,
c'est ce train-ci que je prends pour me perdre , pour élargir le monde, pour que tu me lâches la main pendant la folle descente entre les arbres dans une sombre forêt, tu me lâches la main et je cours, inconnue de tous vers une
sombre clairière et puis tu reprends ma main et tes mots me souffrent si profonds qu'une cicatrice ancienne s'ouvre et accueille tous les maux,
de meninos com males et enfants en perte d'accélération.
Ta poésie est douleur et nature, âme enmaillotée de vertes et transparentes feuilles laissant au petit matin, traverser tout les soleils chauffés à mon coeur.
Sublime poème,anjo dai.
Baisers d'ici-bas.
LM

fj said...

bela, bela fotografia! privilegiado!

Manuel da Mata said...

Caro Daniel,

Regressado há escassas horas, aqui estou - e tu sabes bem o porquê- a botar meia dúzia de palavras. São palavras que quero de agradecimento ao criador, que nos vai deleitando e enriquecendo, quotidianamento, com a sua poderosa imaginação.
Abraço

lupussignatus said...

um rosto

a convocar

noites

trágicas

este da sé