Tuesday, September 30, 2008

COSTA

© Josef Koudelka – De Joelhos (Irlanda, 1972)



Viseu, tarde de 30 de Setembro de 2008




Horizontais medusam pelas ruas as pessoas entre algas, altas
árvores. Transpareço eu também, fóssil morador de frases
todas por dizer, nenhuma por ouvir. Quero ir à festa, mas Deus
não recebe senão os ajoelhados. E eu deitei-me à música, o vento
arrasta já o manto da noite, essa senhora tão branca, tão
enegrecedora de litorais.

Digo mais: pátios da cidade não enclausuram já idos avós e marços,
o sol floresce de ferro na figueira doente, um fio de água põe ovos
de ar numa selha fria como um olho cego. Além, a senhora que trata
de meninos doentes enquanto as mães dos meninos registam
as mercearias do futuro nos hipermercados. Nas minhas costas, mais
pessoas deitadas passando, ondul’andando como aquáticos minerais.

As marés sargaçam sinais de trânsito, arenosa serradura duna
o chão das tabernas, em cujos porões o sangue do Senhor manda
ajoelhar as bocas ao altar do vidro e do mármore. Quanta beleza,
a destes suplicantes horizontes que nem já pedem nem podem já
senão perder o que se deu nunca
à costa.

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