Friday, September 12, 2008

ALVARÁ DE LICENÇA SANITÁRIA PARA CORAÇÕES E VÍSCERAS AFINS e outros poemas de lutar pela vida



Poesia é a gente andar cá dentro a lutar pela vida. Nem mais nem menos. A lutar com quem? Mais bem dito: a lutar contra quem? Contra a realidade. Há muitos anos (e para sempre) determinante na minha vida é a célebre epígrafe de Novalis que abria a também célebre colecção de poesia da Ática:

A POESIA É O AUTÊNTICO REAL
ABSOLUTO. ISTO É O CERNE DA
MINHA FILOSOFIA.
QUANTO MAIS POÉTICO, MAIS VERDADEIRO.


Posto isto, trago às vossas mãos e aos vossos corações e ao vosso olhar estas coisas seguintes, que de muito atrás (de muito dentro) vêm. (O melhor da festa sendo, naturalmente, a fotografia, que é da minha Sandra Bernardo, foi obtida a 27 de Agosto de 2008 em Viseu e é a nona da série Casa de Pasto. Chama-se Retrato de Senhora - Aristocracia do Povo.)

(E sim, a
“pomba ferida (…) aos pés da Sé” de um dos poemas é real. Era realíssima, ontem mesmo, senhor Novalis.)



Tábua

I. O ROSTO DA NOSSA MULHER É
Viseu, tarde de 7 de Setembro de 2008

II. ALVARÁ DE LICENÇA SANITÁRIA PARA CORAÇÕES E VÍSCERAS AFINS
Viseu, manhã de 12 de Setembro de 2008

III. APRESENTAÇÕES
Viseu, tarde de 7 de Setembro de 2008

IV. FERIMENTO MORTAL DE POMBA E HOMENS
Viseu, manhã de 11 de Setembro de 2008




I. O ROSTO DA NOSSA MULHER É
Viseu, tarde de 7 de Setembro de 2008

O rosto da minha mulher
é como o rosto do teu homem,
ambos o país profundo da nossa vida
a partir da cor dos olhos dela-dele,
se bem que azul, verde, castanha ou negra
não interessem, interessam-nos (d)eles os rostos,
o meu homem,
a tua mulher.

Ouve-me aqui um pouco: não temos
de perder tudo, só um pouco a razão,
a vaza dos domingos, sim-isso-também,
mas lembra-te da nossa mulher,
do teu homem, dos filhos que construíste
para que de novas ruínas disponham o mundo
e a arqueologia
– e o mesmo dia.

O chilro sabor do sangue na boca
como um café vermelho.
Os rostos dela-dele.
A funda tosse orgânica dos sonhos:
e a rebentação do mar adiado
a que prometemos as vidas.
E a água totalmente perturbada
da cor dos olhos
– ela mesma adiada.

Constróis um filho, constróis um cadáver:
a ama religiosa de todas as doenças
é o apanágio do amor, não o do por aquele
(aquela) com quem se fode, mas do que vai
nascer: a doença, o bebé, o cadáver.
Ouve-me aqui um pouco:
eu serei o bebé de alguém
que morreu já
mas ’inda a versos pertence
– como um rosto.

A quem poderia algum de nós
dedicar telefonemas
como telepoemas?
Pergunta-se pela saúde, comenta-se o tempo:
e a vaguíssima perdição dos outros nossa se torna.

Ombros nus de mulheres como laqueações de alabastro.
É domingo, o mundo dá suas maneiras.
Reporta a têvê seu fidelcastro.
No café só há daqui as bebedeiras.

Como laquear o riso próprio?
Como mesmerizar a pomba adulta?
Como integrar o trafic’ópio?
Como não ser uma pessoa estulta?

O rosto da minha cara é como o teu homem,
mulher.



II. ALVARÁ DE LICENÇA SANITÁRIA PARA CORAÇÕES E VÍSCERAS AFINS
(plagiado de documento municipal verdadeiro fixo em parede de restaurante viseense de minha frequência diária excepto aos sábados, quando encerra para descanso do pessoal)

Viseu, manhã de 12 de Setembro de 2008

O coração deverá ser mantido no mais rigoroso estado de asseio, não sendo permitida a varredura a seco mas sim com pano húmido ou, havendo-a ele, o coração, aspiração. Usar-se-ão os meios necessários para resguardá-lo a ele, coração, da poeira, das moscas e de outros lixos, como por exemplo a memória, essa mosca. O emprego de redes metálicas é permitido e, até, recomendado, pois que o coração é um pássaro de gaiola. É permitido o uso de copos falhados. De louças rachadas também é: a arqueologia é sinónima de cardiologia por alguma razão. A fácil deterioração dos géneros obriga a uma contenção frigorífica dos impulsos e dos bombardeamentos característicos da nostalgia, do luto e do amor.

Quanto mais hermético, melhor.



III. APRESENTAÇÕES
Viseu, tarde de 7 de Setembro de 2008

Rosa Maria, a nossa vizinha,
discreta viúva, talvez trinta anos:
é ela que passa passando a vidinha,
que o marido dela sulcou oceanos.

José, cara de galgo, barriga breve.
Camisola sujita de mostarda.
Um ar de cor no olhar leve.
Um andarilho antes que tudo arda.

De Cíntia o nordeste triste e frio.
O alterne que carambola de cona.
Mas na lembrança um pai e um rio.
E do rio a água, o pai à tona.

Ofélia remordendo malmequeres.
Restitutas volantes perdições.
Um credo só-te-dou-se-tu-me-deres.
Extintas rosas-bravas, carnações.

Francisco, curto e preto seu olhar.
Vigilância que doura o amargume.
Do risco de amar riscou ciúme,
Francisco, isco que se vê passar.

E Dália, que é mulher de popelina,
menina que ameaçou os casados,
há mais de quarenta que é menina,
quase quarenta e tais bem-mal passados.

E, dos créditos simples, o medo a cães,
que Juliana partilha com a filha,
reverte para lá de Guimarães
e de Cuba, que é país e que é ilha.

(Se nas associações recreativas houver sessões,
ficam, Mãe, feitas as apresentações.)



IV. FERIMENTO MORTAL DE POMBA E HOMENS
Viseu, manhã de 11 de Setembro de 2008

Também a manhã, que de um nasce, em um outro
crepúsculo morre.
De muitos crepúsculos é um dia feito, assim
uma vida de poucos dias é.

Guarda a pomba ferida o homem velho
que a descobriu aos pés da Sé.
Vela-a, nada podendo senão fazer por ela
vivê-la: velá-la.

Abrem a tarde comendo bacalhau outros
homens magníficos, de roupa iluminada
de escombros da cal: operários
que refazem a casa que foi de outros homens.

Outros homens entretanto feridos e não
guardados pelo da pomba, na manhã
terminal e terminada, como é usança
dos crepúsculos, um só, afinal.

1 comment:

LM,paris said...

bonjour daniel,
tudo o que escreves parece desenrolar-se de um novelo que tu desfias e vais seguindo o ritmo acompanhando as palavras que sao tuas irmas, maes e amantes.
é vertiginoso, parece um rio
que me corre nos pés e segura
a mao refrescando-a.
sim, é vertiginoso, abundante, baroco, liso, contundente,
sofrido, real, drôle...tens um coraçao enorme,verdadeiro!
Linda foto, textos sublimes, bom fim de semana!
Beijinhos, até jà,
LM