Saturday, September 06, 2008

DOIS POEMAS: VI DUAS ROSAS e DA TERRÍVEL INDÚSTRIA

I. VI DUAS ROSAS

Viseu, tarde de 30 de Agosto de 2008

(escrito para a D. Luci na primeira tarde do mundo sem ela)


Vi duas rosas sangrando a luz da tarde:
o sangue queima, a luz arde.

Eram duas rosas altas sobre verde na cinzura.
Tomámos café num sítio qualquer, na qualquer cidade
da nossa vida.

Em cem anos, fizeram muitas estradas, muitas casas:
e viveram e morreram e querem renascer.

Amontoam os carros, os sacos de compras, os pentes,
as unhas lacradas a verniz, as distracções.

Estou perante eles, sou como eles, que vós sois.
Frente a um prédio, duas rosas, uma pastelaria.

É verdade que continuamos almocreves, descalços
ao pó dos caminhos, gaseados na flandres em folha
do céu em cinza.

As novidades chegam velhas ao mercado,
vale-me a contemplação não cinegética da
grande beleza das mulheres, das rosas.



II. DA TERRÍVEL INDÚSTRIA

Viseu, tarde de 28 de Agosto de 2008

O que nos distingue
é sermos animais de coração bilingue:
falamos a vida e dizemos a morte.

E tudo está perfeitamente connosco
deste lado do rio.

Portamos certa graça morena,
certa negra graça lunar.

Varremos outonos que acabam de repente
cheios de água do país dos olhos.

Distingue-nos sim esta última saciedade ínfima:
este morrer tanto todo o dia para nascer um pouco

amanhã.

As varizes da varredora doméstica;
a grácil frivolidade do cabelo pintado dela;
a cozinheira esbranquiçada como uma galinha assustada;
o velho alcoólico atirando o aramaico da infância;
o jovem já calvo que vai a enterrar o pai;
a música interior das casas fechadas;
a nossa Mãe no cinema octogenário;
as nossas amadas árvores crivadas de pássaros e de indústrias labiais;
a seta de uma palavra certa no nosso coração;
o nosso Pai no nosso nome octogenário;
a terrível indústria que fabrica quartos fechados;
essas pessoas nesses quartos fechados;
a palavra morte ser tão viva;
as ancas das raparigas èguando as ruas;
nascemos um pouco amanhã, depois já não;
a coudelaria do anoitecer montada de fantasmas;
um peixe nadando nos sonhos;
o meu amor aferventado em leite-maria;
as ruas amarelas levando ao nenhures do pensamento;
as rosas também amarelas educando efemeridade ao ouro;
o nosso Pai tornando-se nosso irmão, depois nosso filho;
a nossa Mãe sozinha num quarto fechado;
e tudo connoscamente perfeito, deste lado do rio;
os padres que pelas ruas congregam as sombras;
uma ideia de Cristo na ânsia erótica;
a paz outonal que sucede ao desespero;
a ortografia portuguesa completa como um cristal;
o som dos sonos repercutindo cordas de bronze no coração;
e na cabeça e no estômago e no Camilo Castelo Branco;
a sardanisca que risca verde no muro solar, branco;
a nossa morena graça;
no relicário das noites, a jóia dourada das nossas cabeças;
as nossas mãos estrelando a terra;
nós aos pés do mar, fotografados agora;
o sangue feito voz escarlate (ou duas rosas lucilantes);
o chamamento dos mortos, surdino;
a memória desfazendo-se em água cor-de-terra;
a glória e a violência do amor alheio;
os pés das mulheres branqueando o chão;
o viço éreo das estátuas à chuva;
um homem de chapéu recusando o século;
uma merenda de fruta sob a latada;
o riso de uma senhora como um jorro de água;
a pulsação autofágica nas veias dos olhos;
o tempo de tirar as calças, a liquefacção das virilhas;
a palavra correcta que uma mão aberta é;
o restaurante afamado rondado de putas;
a doçura quase insuportável das partidas;
um barco denunciando a água;
o rio e o mar – e este lado de ambos;
este lado de ambos ser o coração;
o carácter vitríolo do Tempo;
a siderada condição sideral da incompreensão;
um arroz de frango comido a uma terça-feira;
a vocação elitista que faz fazer filhos;
um emprego deitado fora como um pedaço de pão;
uma colecção de versos capaz de leitor até aqui;
a sangria desatada de nós;
o poder autárquico cagando epigramas;
a boniteza perpétua de um painelazuldepaiazulejos;
uma casa branca como uma dentição amiga;
certos sábados à noite, em o antigamente ou 1981;
e as bilingues cor e acção.

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