Wednesday, September 17, 2008

Lura

Caramulo, noite de 17 de Setembro de 2008


Já faz frio, os animais recolhem cedo às luras já.
Passo à noite pelos bairros apagados, de que a luz pública amplia a devastação.
A nada cheira: o futuro era afinal esta ausência de perfume.
Há vozearia para o lado dos bares, onde os cansados rejubilam euforias de pechisbeque.
Uma altíssima papoila pulsa no céu preto, talvez um avião a jacto, talvez um rubi sem dono nem deus.
Pastelarias e bancos e farmácias e retrosarias encerraram como se cerra o coração ao não ver retribuído o bom-dia dado manhã cedo.

Vamos por aqui.
Ali ainda canta a fonte, ainda a pedra escreve um nome de casa, podemos entreter-nos a decifrar rastos, capas, mãos de cavalos que na calçada chisparam o lume da passagem.
Vê a noite concentrada nas árvores: mais negra onde o vento lhes dá.
Outros coleccionadores de ossos peroram por aqui sua mudez, suas gabardines terríveis, suas saudades de cães, seus olhos de cães.

Chegaremos em breve.
Agora é uma praça de gravilha.
Além, uma galeria entre cujas colunas os fantasmas se dão às gincanas da memória.
Já procuramos o esquecimento, essa lura.

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