20/04/2011

Ideário de Coimbra – entradas 176 – (fragmentos da penúltima entrada do livro) – e – 171 (fragmentos também)




176. E SE OS VIADUTOS INCANDESCEM A NEGRO SOBRE AS ÁGUAS DA PASSAGEM?

Coimbra, terça-feira, 1 de Março de 2011

Estive aqui uns versos, insensata equalização da minha vida. Não sei nem que nem como vou fazer dela, da minha vida. Talvez mais uns versos.

(…)

Esperamos todos a neve.
Ela virá, ela será.
Locomotivas sem passageiros troam
em nossos corações-plataformas.

Comemos ovos, ervas, dedadas de cal.
Imaginamos arábias douradas, andaluzias
nunca porém confirmadas
pela passagem dos dias.

(…)

Ao sol em anil: o eu-corpo. Passagem vespertina das vidas, digo, pessoas em paragens de transportes: gado melancólico portando comoventes sacos com fruta, algumas moedas, pentes, corta-unhas. Isto em Coimbra, durante a vida, um fim de tard’ia.

(...)

Uma ninharia de ratos, as ideias.
A declinação da saúde no latim do corpo.
O torso envolto de seda: a febre.
Os pés lá ao fundo sozinho da cama.

As mulheres ao fundo sozinho da História,
a economia delas, os segundos-andares
em cidades sem bibliotecas nem depois.
Eu apesar delas na névoa matricial.

Sou de películas dadas a secar a vermelho.
Sou da poesia e de mais ninguém.

Inclina-se, suave, uma cabeleira-canavial:
e tanto me basta para ser eufórico e lento.

Só que o dia virá em que de novo
terei os pés vestidos de areia de ouro
molhada de sal, terei, de novo, um dia.
Não sei se terei, mas digo que terei.

(...)


Digo que terei. Frequento em morenidão
as casas-de-pasto: cavalinhas, filetes,
homens utentes da solidão, estiletes,
que fundo penetram no coração.

Olha: tornei-me um homem tipo-Arregaça,
não me escusaram os livros de tal.
A Arregaça fica em Coimbra, Portugal,
e dali não sai. Sou aquele que, por graça,

também (ainda) não. Sigo que serei.

(…)

A criança é psicoamniótica na calda maternal.
Sim, o feto é completamente astronauta.
Os relâmpagos de infância são cosmovisões.
A velhice outona os gestos, doura-os, encastoa-os.

Leitos secos que as pedras cobrem de ferro.
Tangerineiras urdindo verdes cabeleiras.
Os amigos da criança quase cinquentenários.
Os filhos deles repetindo equívocos.

A minha poesia nunca foi sobre mim, querida.
Sou apenas o veio-de-transmissão das leis
motoras. Preside à minha insuficiência a vida.
Acho mais piada a ornitorrincos, porém.

Saio, manhã muito cedo, do leito.
Atiro-me à rua, faço-me sombra entre sombras.
As coisas nem acontecem: são coisas apenas,
lances que alguém diz a alguém que não ouve

e faz o favor de esquecer. A criança é.

(…)

A altura do mar é toda olímpica: uma pessoa
torna-se índica e pacífica a tal altura.
Sim, eu já fui a Lisboa.
Não, não tenho cura.

A lenha d’aldeia pinta oitocentismos.
Uma pessoa chega a casa e enxuga-se.
Sim, eu sofro sismos.
Mas a pessoa cura-se.


171. RATO DEIXADO POR CONTA PRÓPRIA

Coimbra, segunda-feira, 21 de Fevereiro de 2011

Existo. Uma pessoa existe. Como adentro o sono de uma ave, uma pessoa existe-me. Não sei que seja feito do esplendor de outr’horas. E quando as coisas mundiais se parecem com sentimentos? Ai queres exemplos?
Uma tampa de saneamento igual ao desespero;
um chapéu de cigano como um enfarte;
um morango tal um coração sem rola;
os políticos quais fanecas enfarinhadas e fritas;
a tua boca: lâmpada rubra.
Viste? Então,
existe.

(…)

Agora mesmo: para sempre, desde nunca.

(…)

Um dia grisalho, em Coimbra. As árvores escurecidas, delas os ramos emaranhando esquemas eléctricos contra o fundo alto de lousa-grés do céu.
A beleza triste das mulheres. A triste beleza dos homens. A nota azul de um prédio. Eu deveria ter escrito cartas ao meu Pai enquanto era tempo. Digo: poemas. Ele sabia quão grisalho haveria (e houve) de ser o futuro. Pássaros debicam miudezas no relvado ao pés das tileiras. Táxis abordam a circulação venosa dos destinatários (que ele há vários). Uma parede tatuada instiga-me a votar no BE, mas eu só faço pé-de-alferes à lentidão da metafísica. Eu ando aqui para me enganar nos outros. Sabes, a violência do nada. Sabes, o ouro de uma cordura. Uma mulher doente, atapetada de azul, tosse à passagem-de-nível da extinta da Linha da Lousã. Um cavalheiro, vermelho como um insulto, acarreta colesterol, chapéu-de-chuva e uma embalagem de amoníaco. Se chover, como farei? Há momentos (em) que não sei. O vórtice cósmico é quantas vezes cómico só? Uma mulher de unhas compridas a ler o Diário de Coimbra. Um rapaz vestido de mau cabedal e de olhar quadrado como uma teimosia. Eu vejo. Não: eu escrevejo. Era isto. Agora vou ao Zé Carlos do Viaduto, a gente depois fala.

(…)

Sábado passado, estive, quê?, duas horas com a minha Leonor. É a minha filha mais cedo nascida. Atendeu o telemóvel, certo instante. Disse ela, à passagem:

– Estou com o meu Pai.

E eu sei que ela disse aquilo com maiúscula.
E eu fui feliz como um rato deixado por conta própria numa fábrica de queijos.
Fui, fui.

(…)

A minha boca é o meu olhar:
vejo com a Língua.

(…)

Amei-a ao contrário das pessoas.
Os animais sentinelavam a casa,
a memória também,
como também os fantasmas.
É uma questão respiratória:
quanto mais amas, mais asmas.

(…)

É estranho: sempre que penso numa mulher, é na minha Mãe que penso. Não tem nada a ver com Viena de Áustria, Doutor Freud. Tem a ver com o Amor. Uma pessoa existe. Como é que é? Como veio? Uma mulher, um homem etc. Leite, ovo. Vinho em night-club. Velas. Encadeamento. Encadernação. A poesia possível etc. Uma pessoa nasce. Eu não. Eu renasço. Tenho a Mãe doente. Mas agora vamos imaginar que penso noutra mulher. Vamos imagiquê? Imagiquem?

19/04/2011

Ideário de Coimbra - 164 (I) - UM TEXTO DE 16 DE DEZEMBRO DE 2010


Amedeo Modigliani  (1884-1920)
Retrato de Leopold Zborowski (1916)

Coimbra, quinta-feira, 16 de Dezembro de 2010

Era ridículo, agora já não tanto, mas era ridículo o que eu era e o que eu pensava. Outras pessoas podem andar toda a manhã com um fragmento musical na cabeça, mas eu não, eu andava todo o dia com, por exemplo, as palavras (anémona) e (begónia) na mente – para nada e por causa de nada, só porque sim e para nada. Cultivava em silêncio os meus sentimentos como uma mãe-de-família pensa noutra coisa quando irmana peúgas ou pana filetes de peixe branco. Já não me acontece tanto, não já tanto. Arranjei um emprego, mudei de quarto e de bairro, almoço numa casa-de-pasto abençoada pela esterilidade filosófica, bebo o meu vinho e como o meu pão – e leio muito menos, o que me resulta no melhoramento da pele e dos sacolejões da tristeza. Ainda me acontece pensar um objecto com um verso – e então é inevitável a palavra (coloratura), por exemplo, ou então a palavra (visco). Uma mulher chamada Lúcia, testemunha ocular de um crime de sangue, chora no televisor, o que me distrai deste trabalho. Depois regresso à órbita (poeira, astro) e olho as coisas que há no mundo, sobretudo pessoas, as pessoas-coisas, que são minhas irmãs, os corpos velocistas dos pássaros, a paleta dos jardins, o estádio de futebol, os cristais das montras, os espelhos-de-água, os sentimentos que alguém nutre contra o apodrecimento voraz da democracia, os cães castanhos que nos olham com olhos de mãe (peúgas, filetes). Devo ser um coração pasteurizado, por assim dizer. A maior parte das vezes chamam-me (Você), o que é um bom nome, um bom neutro, um excelente modo de ninguém. O trabalho vai-se fazendo, caixas conservam coisas, mecanismos articulam funções necessárias à sociedade, o Natal sucede ao Verão, viajantes largam docas a caminho dos respectivos sóis-poentes – e a beleza é, em geral, de uma inutilidade invencível. A questão das prostitutas é outra coisa. Frequento-as, por assim dizer, (em jasmim). Aceito-lhes o nome artístico (Cindy, Ruth, Soraya, Minnie, Rachel), uma vez por mês dá doze amores de aluguer por ano – e eu tenho já alguns anos-calendários a benefício de inventário e a golpe de misericórdia, Marguerite. Já o quarto, o quarto tem serviço de cozinha e logradouro de banheiro. Dá para ser abelha consciente da colmeia: quadriláteros eléctricos na noite da cidade. Quem quiser, que me acredite: é aos domingos que acordo e saio mais cedo: a solidão é (urbi et orbi) totalmente. As palmeiras importadas zunem o seu verde diferente. Num relvado, alguém vomitou feijão e sangue. A felicidade quase me sopesa o coração. Antigamente, nem tanto. Eu era mais torre-de-Anto antigamente, o que, aliás, não deixa de ser nobre. Sexo, comida, agasalhos têxteis e provas de vela fluvial vieram acudindo-me ao borboto da respiração, mas tenho disfarçado bem. Alguma coisa vem mudando no meu corpo, sinto isso quase confusamente, um pouco como se da monarquia da infância e da república da vintena de anos eu tivesse passado a uma espécie de confederação melanco(ó)liça. E quando assisto ao aparato de uma morena de botas de couro preto altas, assisto à palavra (jarro), mas digo (porcelana). Há um juiz aposentado em um dos meus pontos fixos do meu percurso (bebedouro). Ele é o tomador de café-com-leite e de bolos patas-de-veado. Dizem-no viúvo, mas não lhe noto qualquer contrariedade na emoção. Reforça-se de bombazina contra a geada de viver. Eu assisto, e depois um ano passa (Natal, Verão). Os sapatos duram-me épocas. O teatro local é fraquito, os circos revezam-se em trânsito de tigres ferrugentos, a misericórdia oficial gasta santas casas, nas farmácias os homens-caixeiros envelhecem depressadepressivamente, é um horror pensar no que por aí vai de cancros e de orfanatos, vale-me que nem penso nisso por aí além. Dantes, pensava mais, acho eu. Também me ocorre recordar casas pejadas de humidade como mulheres grávidas ou apenas excitadas. Isso era ridículo, claro, mas não é perdão que peço, nem literatura – não peço nada nem espero seja o que for. Setembro dourará os frutos, o anil fluvial educará rio no verde-azul de sempre, as meninas (campainhas, compêndios) escolarizam as terças-feiras de Novembro, quando eu não tinha ’inda vindo para ser apenas este – ou isto. Nem a minha Mãe pode fazer já o que for contra o facto de eu ter lido. Pessoas de outros países frequentam os hotéis da nossa pátria, incorrem em vilegiaturas museológicas, interessam-se pelo que aqui se fez de pintura, artesanato, hidroelectricidade, basquetebol (xisto). Crânios femininos amazoniados pela quimioterapia enlençam-se de chita (Festival RTP da Canção), nos autocarros os sobreviventes fingem não reparar no humor cronométrico das metástases, eu agora já nem ligo tanto, sou mais a favor de outras causas perdidas como o casamento homossexual e a taxação abusiva do recibo-verde. E esta é quanta verdade posso apor, ou opor, à invencibilidade da tristeza, essa areia (vidro) da praia do nascimento. Nas revistas de papel mais caro, rejubilo com os perfumes franceses e a publicidade aos relógios, deve ser tão bonito trabalhar com bons fotógrafos e com editores sérios e paneleiros. Mas eu não tenho nada a ver com isso, não sou romântico nem acredito no amor, nem em Deus, nem no Deus de Amor, que é uma terra perto de Leiria e que se lê com acento grave no A. E uma quinta-feira, noite adiantada já, abandono-me a nada e a ninguém no café do bairro que fecha mais tarde – e outros como eu (homens que ficaram sós sem apurar porquê, por distracção talvez) entram e saem, fumam, debicam empadas de galinha (mas é frango, não galinha verdadeira) e cálices de uma mistela poderosa qualquer (bílis). Eu quase não leio, consigo aguentar-me no quase, faço por não pensar coisas ridículas (ventura, esmeril), vou adiando o retorno ao quarto, à cama, à brutalidade (vilipêndio, estigma) da solidão. Conto as moedas que me restam, às onze e quarenta (vinte e três e quarenta) tenho ainda para mais três doses de qualquer coisa pela qual a humanidade trocou o fogo. E depois não me é possível continuar aqui, pago e saio e mudo de bairro, nisto a meia-noite regela as ruas que ambulo, por onde raros carros tripulados por mais e mais homens sós, cada vez mais sós, como se isso fosse possível ou legal. Desactivaram a linha do comboio suburbano, sigo por ela como quem adentra uma metáfora da existência, lixos envelhecem o chão, a isto nem se pode chamar tristeza, talvez (pusilânime) ou (exangue). E nisto descubro um café com nome de santo católico. É um em que se pode fumar, a iluminação não é grande coisa mas pode-se fumar. É um bebedouro povoado de cidadãos apreensivos. A televisão arde para ninguém, há som-ambiente que adensa a névoa dos cigarros e dos pensamentos com que esta gente se ocupa e preenche para nada e para ninguém. E a sexta-feira entra, confirmando o teor de ontem de todo o amanhã. Uma rapariga, cuja cabeleira ressuma azeite cosmético, levanta-se do canto, dirige-se à máquina do tabaco, abastece-se, regressa ao lugar abrindo o maço, que é azul-escuro como uma nódoa ou um hematoma conjugal. Nomes de cidades estrangeiras aparecem no televisor, logram por instantes iludir o meu mundo (restrição, aspereza). Outro dia (qualquer, exuberância) na calha da azenha licorosa do Tempo (portanto resignação, valência). Cumpro as horas, não evito por vezes uma emoção penitenciária. Sei que estou a entregar o meu corpo ao Tempo. Sob uma larga nespereira, dois homens conversam. Eu estive para dizer (efabulam) – mas não sou já tão ridículo, tão douradamente mesquinho. Falam de dinheiro (ouço-os bem daqui), da saúde das respectivas mulheres, de cães venatórios, de perdizes, de Lisbo’antigamente. E na antemão de um almoço mais surge-me pensar (E se eu tivesse tido filhos feitos por amor?) – e então a tristeza bate-me na cara como um trapo (um pássaro) molhado. Conheço uma mulher positiva como um relógio. Ela urde pratadas de bacalhau com a ilusória negligência quotidiana dos analistas laboratoriais. Ela emana humanidade. Na serventia da cozinha de que disponho, conservas fazem de biblioteca: grão, feijão, pickles, cavalas, salsichas, sardinha atomatada com picante, brinquedos alimentícios da solidão. As minhas divorciadas são anticorpos. E a virgindade só é relevante para o segundo que chega em terceiro. Estas coisas duradouras na cabeça douradora, dor a dor. Um casal raquitizado, seis décadas de solidariedade alimentar, certa troca de humores, incerta fusão de linfas, cada um dos dois filho de pais idênticos. E uma noite de domingo desperto a horas altas – ou fundas – e sinto que a morte é muito mais física do que metafísica, tinha cobertores a mais, uma cachoeira de sangue refluiu-me os dentros do corpo de baixo para cima, das coxas para a cara, durante não sei quanto tempo não respirei, depois respirei fundo para oxigenar quanto coração podia. (E, como azulejos únicos numa parede rebocada, as palavras Cão, assim em maiúscula, e tirocínio.) Ou então – mas é depois – um tempo como que feito de gesso, gesso aplicado à forma da cabeça que sente mais do que pensa (hectolitro). E, nisto, a Pensão Brasília em plena Praça do Conquistador – ou a, aliás mais reles, bem mais reles, Pensão Madrid da idem dos Navegadores. Esse (um) tempo que me liberta de qualquer responsabilidade, de qualquer tempo e qualquer peso. A memória como gesso – e como explicar isto às crianças (a vós) de oitenta anos? Mas é que às crianças de oito anos pode, por igual ou semelhante ou idêntica identidade, acontecer a vontade de morrer ao surgimento do lento-vento do entardenoitecer, a mim aconteceu-me, só posso crer por supor que (a voz) também.

18/04/2011

Ideário de Coimbra – 162. MUS(EU) – fragmentos vários

Coimbra, segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2011

Com as horas e os anos, volve-se o eu museu. Uma abrasiva voragem toma conta do estaleiro pessoal. Fagia do tempo fluvial, sono tão da morte propedêutico, êutico, eu, tu, tu a ti, tic, tic, tic, tac.

(…)

Não me sinto só entre sós.
Sinto-me, só.

(…)

Laranjas e limões citrinam a circulação do sangue, é tão bonito assistir ao fervor esmaltado dos eucaliptos, Portugal é uma coisa vegetal entre pedras e águas, as mulheres rebrilham de botas púbicas, as gerações instauram-se como estádios, tornam-se adverbiais as alternativas a isto & isto mesmo, não é fácil sofrer a evidência mortal (e mortífera) das casas encerradas para sempre, se madrigais madrugais entre e ao cabo de outras coisas mais.

(…)

O senhor João Ara S. lendo o jornal desportivo, os olhos dele de cor azul-atónito. Sapatilhas de menino em pés de homem, os dele, ele-homem. A escassez de recursos, a biquita, a barba por raspar, o pêlo na venta e o tufo na orelha. O cigarro pobríssimo no duplo estilete labial. A camisola azul-bebé envolvendo o ventre nutrido a calduns de banha de porco. Calças de dormir-com-elas-vestidas por falta de mulher no pré-fabricado. A mãe dele morta há dezassete anos fazendo-se sílex na terra argilosa da lá-santa-terrinha. Eu a olhar para o senhor João Ara S. como quem se mira ao espelho.
A senhora Magda Lena T. de nádegas-em-cera, dela as tangerinas peitorais murchando-ando-ando. Entanto, certa macieira-nefertiti em as faces, cujo carmim vale por toda uma natural cosmética, dado o afluxo de sangue-rosa à pele-pétala. Ela lendo uma revista cor-de-rosa. É de orelhitas de coelho-miniatura. Olhos castanhos, daquele castanho-mocidade-fascista. Nascida na Alta demolida, residente agora em Celas-as-Velhas. Sozinha como um cão (ou um pianista). Eu a olhar para a senhora Magda Lena T., querendo tão-só acasalá-la com o senhor João Ara S.

(…)

A alma – quase um funcionário me parece ela.

(…)

A senhora da banca de fruta: roliça-couve, de mamilos-medalhões-de-vitela, rins-que-chiam-como-ratas-úricas, grossos pés-de-faiança-venosa. E cravo de seu jardim. Algum homem a terá amado decentemente? Pergunto-mo. A esta mulher de Coimbra, algum homem terá aleitado em cordura? É que às vezes as pessoas mais merecem gardénias do que vénias ou ténias. Às vezes, as pessoas são ofuscantes como tardes-de-eternidade-egípcia.

(…)

Recordo tardes obliteradas de outros fevereiros. Eu era moço, a vida estava marcada para o dia seguinte. Hoje tornou-se ontem, esse anil.

(…)

Pessoas que entram e ainda desejam, proferindo-a (e preferindo-a), a boa-tarde a quem esteja e está: gosto de assistir-responder a tal. É uma espécie de fé, a educação. Digo: o civismo da cortesia. A delicadeza por ela-mesma. Uma espécie de doutrina, digo. Fez isto este homem. Éramos quatro no estabelecimento: o casal proprietário, o juiz reformado e o quase-poeta Daniel Abrunheiro. Uma lambidela de açúcar tocou-me a língua (e a Língua) quando, adentrando-se o senhor, disse:

– Boa-tarde!

Estou aqui a opuscular sobre esse recebimento, esse honorário emolumento, essa gratificação, esse solário salário. Uma junta de pessoas. Um cacho de frases (anémona de versos). Recebo retratos antigos sobre cómodas de bordados. Assimilo o bolor-mofo das despensas onde os novos ratos e os alumínios antigos. Em frente, o salão do Bingo espera a noite. A Noite é pontífice sempre. Não é, Jorge?

(…)

Sou um homem português entre laranjeiras idem.
O meu tempo foi-me dado por meus pais.
Habito o invernáculo pluvioso onde residem
soluços e tosses & suspiros e ais.

05/04/2011

Ideário de Coimbra - 157 (fragmento 1)

© http://olhares.aeiou.pt/coimbra_0_mijacao_foto4433382.html






TENSÃO

Coimbra, segunda-feira, 31 de Janeiro de 2011

Ao fim da manhã, numa casa-de-pasto da Baixa, tive uma quebra de tensão. Esvaiu-se-me o açúcar. Foi um momento estranho. Fora do Tempo, por assim dizer. Registei a solicitude solidária de algumas pessoas freguesas daquele estabelecimento (MijaCão é o nome da casa). A coisa passou-me, ajudada por um copo de água açucarada e por uma chávena de café.
Desde criança que se me volveu dogma a certeza da falibilidade do corpo aliada à infalibilidade da morte. Isso não me assusta – nem me traz em agonia vitalícia. Vou vivendo tão vivamente quanto posso, em caligrafia sobretudo. Se calhar, até sou feliz e não o sei.
Pelas ruas de Coimbra, esta tarde, vario e ambulo entre igrejas profanadas e seres estropiados. Dei o pão que tinha às pombas residentes na Praça Velha. Estive na Casa Chelense, ao Largo do Mendonça. E nA Chaminé deparo ao balcão com o Boletim Informativo n.º 6 – Novembro de 2010 da Junta de Freguesia de Santa Cruz (a minha freguesia, já agora).

04/04/2011

Ideário de Coimbra - 154



154. AINDA A MINHA VIDA HOJE

Coimbra, sexta-feira, 28 de Janeiro de 2011

É sem culpa que abordo um final, mais de um dia (a) menos. E é sempre pela primeira vez que amo, quando amo. Já algumas coisas (de)terminei, passo a citar:

- A pessoa é o sul da chuva.
- Já morremos todos, lá onde estivemos e a que não voltaremos.
- Somos sacos de vísceras apertados em cima por um olhar.

Sim. Recebo a maré da noite na praia do peito. Faz-se fria a Hora. Graniza-se areia o Instante. Sinto-me rumor de barcos rumando os Açores, a Madeira. Não estou para brasis. Não angolo nem moçambico. Sou daqui. As fanecas humanas fritam a pobreza: o desemprego, a escassez de referências a Pedro António Correia Garção (Lx., 29.4.1724; Cadeia do Limoeiro, 10.11.1772), a magreza da chuva tão semelhante à dos cães, os casacos também magros dos arrumadores de carros.

*

O marfim do rosto daquela rapariga: mar, fim. Sangrentas unhas de verniz-lacre. Lenço de seda colorida a tosse. Boca em bífido estilete: da fina labiação, dos dentes curvos e nicotinos. Pés por igual finos envoltos em camurça breve.

*

Se eu quiser,

Não sei ainda a minha vida hoje,

ouço alguém dizer ao telefone. Eu também não.

*

Desata o céu seus nós de chuva. Fria e agreste. No abrigo dO Nosso Café, ao Calhabé, disponho de, para ler em sossego, da Cantata de Dido e Outros Poemas de Correia Garção (selectos, prefaciados e anotados por António Correia de A. Oliveira, Professor do Liceu de D. João III, em Coimbra, para a lisbonense Livraria Clássica Editora em 1943) e de Avieiros, de Alves Redol. Já a noite se consumou, príncipe. Homens (quatro) tremoçam-se e cervejam-se em mesa próxima. Batata-frita-se um adolescente já serôdio em outra. Agora, Redol, que desconfio ter sido bom homem.

*

Redol (em Caxias, Novembro de 1967) preambulando Avieiros:

Na verdade, não se recolhem os materiais da vida; vivem-se. Ou inventam-se. Mas escolhem-se as vivências ou as invenções quando um escritor sabe para que vive. E como lhe importa viver.

*

Porfio por um fio.

*

E no Zé Carlos do Viaduto uma conversa sobre marcas de bebidas importadas e importantes. Já não chove. O frio é a cerca mandibular em torno-ferro dos corpos. Posso ouvir, sei escrever: nem posso nem sei, porém, viver.

*

(…) ainda a minha vida hoje (…)

*

Liga-me o doutor João Saraiva pinto. Alteração da noite de sexta-feira. Ir jantar-conversar-ouvir a Miranda do Corvo. Autocarro das 19h56m, por desvirtude da desabilitação do ramal ferroviário da Lousã, às descustas deste socratismo obsceno que vivemos. Lá irei, estarei e serei.

*

A vida anota velas brandas e pandas.
Há uma pequenina miséria, imanente sempre,
entre a própria e a demais gente.
Não há?
A vida etc.

*

A glicínia parece, consigo mesma,
pétala e nome de menina.
Já a gardénia é mor senhora,
duquesa de lavoura e outra coisa.

A poesia é uma floricultura.
Jacintodàgua-se à fartazana.
Certos, cultivam-na por cultura.
Outros, só aos fins-de-semana.

(Mas, por ser sexta, hoje de novo se me ela pretexta.)









Ideário de Coimbra - 153 (fragmento 5)


A minha rua ainda existe (como uma cobra vazia,
porém. É a rua da minha Mãe.
Doura-a um estendal de limolaranjeiras,
escurece-a um historial de cancros, divórcios,
baixos salários e liquidação industrial.
A minha rua fica – e é – Portugal.

Ideário de Coimbra - 153 (fragmento 4)

Um vento greco-latino verseja ainda estas aragens.
Os laranjais de Coimbra içam saias eólicas.
Chega a ser bonito andar triste entre ínsuas
e agências imobiliárias: as cervejarias são outras
tantas poesias.

As preposições regentes do latino caso ablativo /circundam
as cumeadas encostas da frase ortoépi(c)a.
Uma pessoa por aqui-cá-aí e nem sonha
em amor que se ponha a jeito de saias.
(E tu-tem-te-não-caias.)

Ideário de Coimbra - 153 (fragmento 3)


Lavro a fio de ouro ’ma bordadura de amigos.
Gente boa com as suas deles / delas vidas.
Plantam pessegueiros e sémen de filhos.
Chega a ser extraordinário como (se) existem.

Por mim, há muito não vou ao cinema,
mas vejo filhos, deitando-me a sós com a minha
pele. Penso nelas / nelas. Imagino que dirão agora
em, por exemplo, breves assembleias de confeitaria.

Desejo uma caravela à minha porta, oito da manhã.
Também anelo índicos não pacíficos, amor.
Estojo de rubis, capa de romã.
Teresa de um lado; doutro, Leonor.

Os amigos, as pessoas fiéis ao Inverno.
Esse vício de ser onde ser não é terno.
O café sublimado, o leite perene
– e ’ma senhora triste chamada Irene.

Do que deixo dito, tão antes quão depois,
em tu vindo a Coimbra, falaremos os dois.

Ideário de Coimbra - 153 (fragmento 2)

SONETO DA DÍVIDA COMPLETA

Cumpro a noite como a uma dívida segura.
A argêntea humanidade me obriga a pensamento.
(Está frio hoje, espera um momento,
que tem cura a tristeza, a tristeza tem cura.)

Pantufa de ouropel, o meu coração
patinha veludos em tua direcção.
(E pelas noites avento o vento, que é frio
mas me resguarda da ânsia, da fome e do cio.)

A miséria generalizada
infecta milhões de seres-sós.
Não pode a poesia ser voz

deles. Nem o pode Jesus. A cada
ser (como eu, como vós)
compete voltar a ser como nós.

03/04/2011

Ideário de Coimbra - 153 (fragmento 1)

153. A POBREZA É UMA CORNUCÓPIA DE EMOÇÕES ETC.

Coimbra, quinta-feira, 27 de Janeiro de 2011

Ainda, periquita, se me periclita a saúde.
Uma vaga agonia respiratória, um não-bem-estar adentro o corpo mesmo.
O frio vem arrolando tremuras e fraquezas, que combato à conta de caldos e cachecóis.
Janeiro mora e demora-se por estes quintais do mundo-Coimbra.
Na pedra dos oratórios dorme a madeira dos santos.
O entardenoitecer encerra as igrejas uma a uma, encapsula-as no Tempo.
Cavadores sulcam panos de terreno.
Os comboios são de uma nostalgia veicular.
A jornada foi de brevíssimos arremedos pluviais.
Quartéis de horas em demanda sem o azimute do sossego (da serenidade).
Eu ando de versos. Assim:

Sucedâneos da água, das pessoas os olhos
reinventam o vidro colorido que pensa.
A cor a cores alcança, imensa, tensa,
humana como uma camisa suja,
caíd’invertebrada no chão do quarto de renda.
Nisto, passa uma mulher.
É de grande força, que suspeito
lhe residir na vontade moral entre miolos
e peito.

As montras (olhos também, das lojas) refulgem ouros pobres: brinquedos que carpinteiram infâncias, relógios por que o Tempo Homicida perpassa, presuntos cujo grená invoca a petrificação carnívora do sangue, camisas limpas, rígidas, destinadas a homens de aluguer em quartos sós, batatas fritas de pacote, óculos sem cabeça além, sapatos que defuntos estreiam para sempre ao jacente comprido, pílulas de alho para uma mocidade perpétua de mentira, máquinas de costura para avós que não há, sacadas de café que sabe a pano torrefacto, gravatas idiomáticas como línguas de seda, livros que infoliam folias as mais diversas, canetas de coral, detergente da higiene laboratorial, números que remetem para o improvável infinito de Deus, coisas do Diabo. Ou então assim:

(TRÊS SEXTILHAS PARA QUATRO SENHORAS)

Minha Mãe aluída de anos arteriais,
diz-me que ao menos a vida não é mais
que uma arquitectura de bonecas imateriais,
um caldo de fervuras hebdomadárias,
um saldo de ternuras e tremuras várias,
uma cinza de cinzas purgatórias, calvárias.

Minha Irmã da manhã, minha rosa clara,
diz-me que rara é a vida e vida e rara,
que o rosto não fica por ser mera cara,
medalha de ouro que adentro o sol brilha,
a filha do filho, do filho a filha,
e ouro de ouro, tesouro que rebrilha.

Minhas filhas, meus lírios do encantamento,
minhas certidões do valor do Tempo,
minhas florações de cada momento,
dai-me, fluviais, as águas que sois, naturais,
dizei-me que a vida não é menos nem mais
que das bonecas-crianças – e rosas – dos pais.

Ideário de Coimbra - 149

(pedaço metalúrgico que é a alegre alegria retro-ejectora das pombas da Coimbra do coimbrinha, que não a minha...)


149. TRÊS VOOS DO PÁSSARO APEADO

Coimbra, sexta-feira, 21 de Janeiro de 2011



O ouro-metal anela dois dedos esquerdos da mão daquela vendedora fumadora de SG Filtro e boa tomadora de xícaras cafeínas. Fora, o frígido vento de ontem renasce, varador, traspassador, sem comoção semântico. Sinto-me melhor do corpo. A voz vem-me voltando às cordas. Uma não despicienda atenção (menos e menos atónita) ao breve e admirável pequeno mundo desta Coimbra (também) capaz de içar uma estátua morta a um gajo vivo e irrelevante chamado Manuel Alegre (o versejador de Águeda, como lhe chamo na crónica nº 190 da série Rosário Breve, hoje saída em O Ribatejo) e de baptizar um estàdiozeco municipalzeco em Taveiro como Sérgio Conceição (um jogadorzeco de Ribeira de Frades que certa vez cuspiu no rosto de um adversário), em vez de, curialmente, lhe chamar, por exemplo, José Maria Antunes, o já falecido senhor que foi capitão da Académica vencedora da primeira Taça de Portugal, em 1939 (4 a 3 ao Benfica).
19h02m, nO Nosso Café, ao Calhabé.
Algumas noites (recentes), tenho ido à Pedrulha. Revisito amigos, durmo na cama que foi dos meus pais. Quero dizer: que adormeço e acordo em uma neblina amarelada que se chama isto (apenas isto e tudo isto): o Tempo – esse barco sem ancoradouro.

*

Refaço a Cidade a voo de pássaro apeado.

*

Um tempo e tal depois (22h44m), no Bar-Café S. José, Girassolum. A uma mesa perto, duas rolas aconchegadas (firmes, nédias) fazem o peito de uma pós-adolescente de blusa castanha e cabeleira esfiapada a madeixas de ouropel. Noite de sexta. Ninguém recorda já o Natal, esse carnaval do comércio cristão. Faz muito frio lá fora, Janeiro pune os transeuntes não motorizados. Projecto imediato: visitar o meu Amigo António Lopes Cação nO Cedro dele, Adões (Trouxemil). Tristezazita, por assim dizer, gástrica. Espectáculo do mundo. Rapazes de rala barba, cavalheiros encanecidos tais cúmulos alpinos, casais, des-casais, restos de consumos, esplanada desértica (o vento-gume impera, tremulam os folhedos). Raras crianças. E mesmo assim (mesmo assim), alguma beleza aproveitável: as tais duas rolas sob tecido castanho, os fragmentos frásicos da Língua como peixes-insectos remexendo a água dura do ar januário, os bons sapatos dos pés desta zona média-alta da socioCidade, os cachecóis ainda natalícios cheirando a mães, os óculos de armação finíssima a mais fashionable. Os empregados em camisas negras, aventais negros, calças negras, calçado negro: elegantes. Este instante vertical (sincrónico) no Século. Isto que vai diluir-se, desaparecer, ter-sido, não-ser, nunca-mais-ser.



Ideário de Coimbra - 150



150. NO MASSAS CAFÉ-CONCERTO

Vales da Pedrulha, domingo, madrugada de 23 de Janeiro de 2011

Saio pela noite a colher mais rostos, essas moedas de luz que o vento gasta ao balcão do Tempo. A tarefa é-me dificultada pela escassez das ruas. Está muito frio. Recolho-me ao dancing de um amigo, depois de jantar nA Chaminé. Velho show da solidão colectiva. Pares de mulheres em dança, na pista. Homens em redor observando carnivoramente, tristemente.

Ver pelos olhos de Kafka


     
      "Julius Schnorr von Carolsfeld (*) - Desenho: Friedrich Olivier, desenhando sentado num declive; quão bela a sua atitude grave (um alto chapéu cónico tal um barrete de palhaço, de aba estreita e rígida, descido para o rosto, longos cabelos ondulados, o olhar fixo no motivo, as mãos apoiadas, a prancheta sobre os joelhos, um pé deslizou um pouco mais abaixo sobre um talude). Mas trata-se de Friedrich Olivier, desenhado por Schnorr."

(*) Pintor alemão, natural de Leipzig (1794-1872)


(in Antologia de Páginas Íntimas, Franz Kafka, pág. 12, RBA Editores, História da Literatura, tradução de Alfredo Margarido)


Ideário de Coimbra - 142


142. BILHETE


De Pombal a Coimbra, quarta-feira, 5 de Janeiro de 2011

A solidão é uma das formas de glória menos prestigiadas. À mercê de um céu plúmbeo e plumitivo, então, mais disso me convenço. Arrisquei mentalmente alguns versos hoje, caminhando pelas vias da cidade de Pombal. Ano(i)te(c)i nenhum. Estive no senhor Ilídio & D. Rosa, pastei o meu bocado, trabalhara antes alguma coisa. Procurei o comboio de retorno – e encontrei-o. Amanhece tarde e anoitece cedo, por esta época. Assim na vida também? Também, digo, mas da minha falo. Por cercanias de Vila Nova de Anços, visão dos mesmos húmidos e amplos campos que a minha Mãe lobriga (está quase cega, a Senhora) do Lar onde a depositámos terminal e terminantemente. Riscos de lápis dos amplos campos: alas-áleas-almas de árvores bebedoras de húmus. Choupanas de guardar alfaias. Galinheiros. Pássaros muito brancos de que desconheço o orninome. Beleza triste: muita beleza e muito triste. Um crepúsculo (tão cedo no dia!: 16h59m) benfeitor de pachorras melancólicas como aquela que me subjaz. Poder dormir numa dessas choupanas: um pouco de lume: uma cafeteira: um pouco de bacalhau: pão & laranjas – desejo antigo. Por momentos no mundial nó-górdio de Alfarelos, consolido esse desejo patern’ancestral. Sair agora do comboio, rumar aos campos, choupana, café, chuva na cobertura etc.
Mas o destino é Coimbra. Coimbra-B. Bê como na vida.

Ideário de Coimbra - 139

139. PARA QUATRO AMIGOS


Coimbra, quinta-feira, 30 de Dezembro de 2010


I


(para o Joaquim Jorge Carvalho)


Há pelas cercanias da vida que levo um arrumador com cara de pássaro. Junta as moedas do dia, ao entardenoitecer compra heroína, injecta-se numa casa abandonada ao pé do estádio municipal. Junta as moedas do estacionamento para comprar veneno e mete-o no corpo de pássaro que é o dele e só dele. Eu também habito o veneno do subúrbio. Não gasto heroína, gasto outras poeiras: a da memória, a da consciência dos versos, a da porra dos versos. Acho-me as mais das vezes prontuário. Não pronto (não ainda), mas prontuário. A ele, chamo-lhe O Pássaro. A mim, nada chamo. Os torsos das mulheres lactificam a ordenha da vida, isto do dia-a-dia entre-noites. Isto não é uma história – como só o meu Amigo Quim parece saber –, mas uma espécie têxtil de desnudamento. Os irmãos de cada um habitam a suburbanidade das famílias: os filhos deles crescendo e espraiando-se como buganvílias (chama-se a isto famílias) e/ou jacarandás (dormir sem sonhos é que é paz). Não é suficiente juntar uma morgadinha dos canaviais às pupilas do senhor reitor para formar uma família inglesa, o padre Amaro que o diga sem amor nem perdição. O Pássaro engrola o sangue de pó, fuma naftalina, os dias passam por ele em adequado voo. As mulheres singram pandas como velas – que bolinas são meninas. À falta de história (de enredo, Quim, digamos), acaba-se-nos o ano, a chuva atira-nos uma jaula de arames, os ainda-vivos pensam cozidos-à-portuguesa e euromilhões e Ferreira de Castro à volta pelo mundo em 1942 à maneira do hipismo inglês matador de raposas – e O Pássaro deriva com perícia entre ópeixecorsas & fiatezunos: como um príncipe: ou como um verso.


II


(para o Manuel Barata)


A tosse convulsa e o raquitismo acompanham
a série infanto-juvenil de eras diferentes.
Ter quarenta anos é ter quarenta que se apanham
só por ter nascido, vivido entre gentes.


Que estranha é Leiria! Que estranha, a Braga!
Um coração é brasa que s’acinza, se apaga
entre avós de madeira que fritam filhós
entre octogenários d’azeite d’avós!


Eu não acrescento nada, eu nunca escrevi.
E eu nunca vivo, que, nado, morri.
Mas digo aqui a quem quer que me ouça


que, em Castelo Branco, o rumor da louça
é igual na forma, na cor, na tília,
às saudades que tenho da minha família.


III


(para o João Portulez)


O rapaz chega-se à beira do rio onde pisam
as solhas, os rapazes são assim nesta – nessa –
idade, pisam as solhas – e nem pensam
que a vida se passa – eles nem pensam.


Sentem, porém. Porém, sentem. Sentem a qualidade
morena dos paternais quadrados maxilares que mastigam
um pão de quilo, a maternal fritura da banha
que até a útero cheirou. Um dia, sabes,


perde-se tudo – e eu faço quadras de fim-
-de-ano.
É onde estou, sempre estive, como tu
aliás, desejo bom-fim-d’ano, aleluia, rapaz!


IV


(para o Rui Correia)


Ele acontece onomasticamente
porque tudo quão pessoa é gente para ele.
Ele agora é pai, sente-se diferente,
que quanta é gente é pessoa p’ra ele.


Ele desce da gente, Rua do Pinhal.
Ele tem arremedos do sítio-Portugal.
Ele tem dissonâncias, mas o tom é da filha,
que quanto se anda em dobro se trilha.


E o gosto que tenho, é môr de família.
Caldas da Rainha, higiene, Cecília.
É sabê-lo bem, posto em memória


que um dia ter ele sido estudante de História
não lhe tira fama, nem cama, nem glória
: é ele ter família: famí-Leonor e lia-Cecília.

01/04/2011

Rosário Breve n.º 200 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt




Fedores da pátria cloaca


Este País não anda: tresanda. Dia a dia, mais e mais chafurdamos na cloaca. Claro que os queixosos (as pessoas que trabalham mesmo, que descontam mesmo) só podiam ser – como são – acusados de negativismo antipatriótico. (Pois se até a mulher de Cavaco, recebendo uns míseros 800 euros de reforma, parece tão feliz na mesma, tão comprometida, tão empenhada (ou “engajada”, como no jargão francófilo-sartr’existencialista), tão activa, tão caritativa…)
Mas nem todos podemos ser cônjuges do Chefe de Estado. Não, a Parvónia tresanda, não anda. Exemplo: cheira-me que daqui a uns tempos o espectro cancerígeno-financeiro do BPN vai fulminar, por metástase, um tal BCP Millenium. Cheira, cheira. É que o furúnculo não é rosa, é só da cor dela. Outro exemplo: cheira-me que o famigerado “rating” das tentaculares “agências internacionais”, o tal “rating” que nos põe mais ainda de rastos para melhor nos desfechar um pontapé definitivo nos quartos traseiros, significa apenas isto: “ardil de ratos”. E este exemplo ainda: cheira-me que o decreto que alarga em milhões e milhares os limites de autorização de despesas pelos donos e pelos mastins dos cargos ditos públicos (primeiro-ministro e ministros, institutos, directores-gerais disto e daquilo, chefes de gabinete e demais pandilha, entre a qual avulta, valha-nos o Santíssimo, a autarcada toda) é um avia-clientelismos de última e desesperada hora. Mas já não me cheira que o Tribunal de Contas venha a conseguir (ou sequer a querer) fiscalizar, de facto e deveras, esta tripa-forra demencial.
Corrijo-me: isto não cheira – isto fede. (E ainda por cima, como se nada disto bastasse para colectiva desgraça, o antigamente grande Sporting Clube de Portugal está transformado numa rulote de bifanas, coisa que me cheira a preocupar mais, deveras e de facto, os portugueses do que os Portugueses.)

Canzoada Assaltante