28/08/2006

Corpo-Circuito

Este mesmo fraco corpo todavia
concede a seu porta-dor a graça
emerge da água mental e acha
débil e robusto cada dia.

Tenho tratado de tratá-lo
e a muitos sítios levá-lo
não só com modos de ensiná-lo
mas dele fazendo cavalo.

De azul muito o ensaboo
não de todo a manhã rompeu
perdoa-me ele e eu lhe perdoo
sê-lo eu a ele e ele ser-me eu.




Caramulo, tarde de domingo, 27 de Agosto de 2006
(trinta anos exactos depois de o meu corpo, comigo a bordo, se ter metido debaixo de uma furgoneta: fractura exposta da tíbia e do perónio da perna direita, mais danos irremediáveis na mona)

Dois Planetas e uma das Eternidades - narrativas e poesia da noite de 25-8-06

1. Dois Planetas e uma das Eternidades

Não posso deixar de sorrir por dentro à ideia de ter feito uma descoberta revolucionária: a de que a eternidade não apenas existe, como existe quase todos os dias. Hoje é caso dela, aliás.
Saí do emprego pelo fim da tarde com o objectivo de comprar comida para a minha patroa, depois de passar pela casa da filha e trazer de lá uma camisola preta para ela. Cumpri o programa, entreguei-lhe os víveres e o agasalho e voltei a sair, livre até segunda-feira. Fiz então a descoberta.
Descendo a pé a calçada rumo à Taberna do Príncipe, assestei o olhar nos cumes da montanha. Já refrescava. Àquelas pedras altas não chega a vegetação trepadora. Chegam as nuvens baixas, acamadas pelo vento agreste. A luz escurecera de chumbo. Parei um pouco para ver aquilo. Depois, rodei para nascente a cabeça: para os longes do vale, duas nuvens absorviam o sol final, torrando de ouro a distância. Aqui e ali eram, mais do que nunca, dois planetas desavindos. E eu era o verificador disso.
Em outra página (em outra vida, direi), já me tinha sido possível o vislumbre de que só a ubiquidade nos permitiria a condição eterna: ou a eternidade da condição: ou a eternidade, pura e simplesmente. E escrevera isso. Agora (ainda é agora, sim), eis-me ali, exposto à névoa e ao sol, contemporâneo até do meu anacronismo, imediato e irremediavelmente longe. Devo acrescentar isto por ser verdade: e muito feliz.
Já não receio. Pode amanhã não acontecer. Pode ser domingo apenas, depois de amanhã. Mas cá dentro (onde sorrio), compreendo a eternidade o suficiente para aceitar que ela volte. E que, voltando, seja alta de mais para que a trepe a vegetação, mas não o meu olhar.



2. Vent’erdade

O vento traz vozes e crianças
e frio
mas pode que só o frio seja verdade
e o resto um verso apenas.



3. Afinal

Susan Newell, residente em Coatbridge, subúrbio de Glasgow, Escócia, matou, na noite de 20 de Junho de 1923, um rapazinho ardina de 13 anos chamado John Johnson. Sentenciada à morte, foi executada por enforcamento. O vento traz vozes, frio e uma só criança, afinal.



4. Alguma Anatomia, mas Pouca, e Algum Circo

Vi hoje um homem de tão descomunais orelhas, que, a cinco metros, me pareciam pés. A dois metros, já só me parecia que o homem tivesse deitado as mãos à cabeça. Diz que, ao contrário do sexo e do tempo, as orelhas não param de crescer com a idade.
Sentei-me perto dele. Gosto de pessoas. As pessoas são como um circo: têm habilidades, praticam truques, vivem sem rede, vão-e-vêm na mesma janela de ossos, pintam-se com as tintas da tragicomédia, acampam em lixeiras condóminas, amam os cães como a bebés hirsutos, dançam de vinho ao som de sax, bateria & acordeão, têm filhos e sofrem por causa da televisão.
Como o homem bebia aguardente, pude observar a meu bel-prazer aquelas orelhas fascinantes. Num arremedo literário que só me fica bem, direi que me lembravam o que não existe: folhas de couve-carne de veios verrumados a broca de berbequim. De dentro delas, tufavam golfadas de cabelo. O nariz seria, não foram as orelhas, grande. Era de um matiz purpúreo e tacto rugoso, sugerindo sem equívoco a prática do álcool e o hábito do escarafuncho. Um pouco muito pouco abaixo, a boca era uma navalhada. Em contraste com a eminência e com o aparato das orelhas, aquela era uma boca mais própria de mulher frígida e consciente disso. Acabava de insignificá-la um queixo tão maciço e peludo como outra cabeça.
Eu gostei muito do homem. E disse-lhe disso. Eu a dizer-lhe isso, e a mulher da taberna assim para mim:
– Escusa de falar com ele, que o homem é surdo. Se quer alguma coisa dele, escreva.
Assim fiz.



5. Tic tic tic tic

O amor é cego.
A memória é o cão do cego.



6. Isto É mesmo Assim

Se queres ser a rapariga de um homem,
sabe que ele só quer ser o rapaz
de uma mulher.

7. Cartografia

Segue com o dedo o mapa do corpo
da mulher que foste capaz de trazer,
este sábado, para casa.
Tens até às dez da manhã de domingo para
identificar as cidades: os homens antes;
e os rios: o amor dos homens antes,
pai dela incluído.
Tocarás, assim procedendo, curvas de nível
traidoras de elevação: o acne dos sonhos,
o tabernáculo sacrificial da vagina,
a cordilheira ainda infantil das vértebras,
a flor preta do ânus, os pés vulneráveis,
a mão do anel.
Como os mapas, as mulheres são
a cores.
Tu, masculino, exercerás
o teu daltonismo digital.
Sentirás a tua vida reduzida
à escala.
Sucumbirás ao atlântico do azul
dos olhos que ela abre, cinzentos.
Recolherás então o dedo,
são as dez da manhã,
ei-la que enrola o mapa e te
deixa com um beijo mas sem
azimute.




Caramulo, noite de sexta-feira, 25 de Agosto de 2006

25/08/2006

Tartanox ou Risco ao Lado

Há pentes da mesma matéria-tartaruga
de óculos: chamo a isso Portugal.
Aos domingos à noite, é-me sempre
mais fácil nacionalizar as coisas
do mundo.
Às segundas-feiras, ainda assim, luto
alguma coisa.
Quando foi que se tornou a vida esta
terça-feira perpétua?
Não, não há mais dias, senhor Português:
olhe, venha de noite.



Caramulo, domingo à noite, 6 de Agosto de 2006

Rimanço das Putas Sérias com Referência Final ao Filho Delas

A MAIS PUTA DIZ

Eu sou puta eu sou mãe
eu fui mãe mas foi sem q'rer
eu sou puta eu sou mãe
manhãzinh'ò'noitecer.



DIZ A SEGUNDA MAIS

Eu também cá vim parar
com'outr'ofício qualquer
diz que era pr'àlugar
aluguei qu'eu sou mulher.



UMA MAIS NOVITA ARRISCA-SE

'inda só recebi duas
oit'ò nove já guardei
quem nas tem chama-lhe suas
minhas nunca lhes chamei.



AS TRÊS, EM COIRO

Lá vem uma duas três
as três sempre a putear
somos todas um'à vez
mãe dum certo Salazar.




Caramulo, entardecer de 23 de Agosto de 2006

24/08/2006

Depois de TVer um Emigrante Luso Bem Sucedido na América

Quando se reforma, o trabalhador
bem sucedido dispõe ainda
de uma nesga de céu. Direi até:
de uma nesga de mar.
Não sabe ele quantas semanas,
ou, com alguma sorte, meses,
ou, com algum milagre ou o carago por ele, anos
- lhe restam in peace.
Tem dinheiro para
a cabine na montanha,
o rizorte, ou lá como é, na oura da praia,
o lugar à frente no festival
de fandangos.
Depois, é a tesãozita curta
dos dígitos da caderneta:
mas a droga em que a neta.
E a filha, já agora.




Caramulo, noite de 24 de Agosto de 2006

O Sol na Parede e mais Poemas

1. O Sol na Parede
(para o meu irmão Fernando, vero irmão)

Telefonaram-me de Inglaterra esta manhã
para que eu soubesse quão bonitas e inglesas
são as casas daquela rua onde fica o
telefone.
O meu coração não é colonial, embora
exerça um império mais dele que meu.
Quis-se-me deitar ao mar o coração, ir
ver as casas, ir
ver a rua, ir
ver a Inglaterra.
Escrevo este poema como quem agradece
o telefonema.
Estou bem sentado perante uma
parede brancamarela em que o sol
dá.
A parede e o sol são portugueses.
Eu também.
Estou aqui à espera do Outono.
Do sazonal e do ontológico.
Um traz sempre, marsupial, na bolsa
o outro.
Tenho trabalhado muito, não
decerto tão bem quão
devera; ou
pudera.
Na Inglaterra, as pessoas bebem chá.
Nós aqui enlouquecemos muito
ajuizadamente.
Nós aqui enlouquecemos muito
ajaezadamente.
Somos excelentes pessoas, excepto
as que não somos.
Também traçamos ruas, mas
ninguém telefona a ninguém
por causa disso.
Não me esqueci, ontem, de que ele
partia.
Chegado, não se esqueceu, ele,
de mim.
Um telefonema assim, mesmo inglês,
gratifica uma pessoa, quanto mais
uma pessoa que até escreve,
digamos, poemas.
Sobe de baixo a sombra, tomando
sol,
preparatória dos dois
outonos.
Isto não é mau: isto é
isto.
O meu coração
(o sazonal, o ontológico)
tem artes xávegas.
Se o quiser na Inglaterra
(ainda ontem era na Noruega),
na Inglaterra
(na Noruega)
o tenho.
O problema é a sombra que
trepa, trepana,
suicida, insana.
Mas qual!?
Amanhã,
faça chuva,
faça sol,
tenho parede a direito,
que o tijolo não é mole.




2. Ar de Cor

Toda a gente há-de ser,
julgo eu, a bem dizer,
o seu 'cadito porquita
no acto d'amor fazer.

Ele há-d'aver lembranças
de filmes de ar de cor.
Só, p'ra n'aver semelhanças,
dizem qu'é fazer amor.




3. Outro Soneto Inverso

Eu cheguei atrasado a ti a minha vida quase toda.
Tenho tempo ainda para um café no bar da estação.
A bagagem toda que trago é a que falta da que tive.

Para viver, é certo, uma pessoa tem de deslembrar-se,
mesmo que tal lhe sofra desmembrar-se.
Os mortos, sabes, nem sempre vão à vida deles.

Um casal eu vi junt'a'm balcão.
Os olhos molhados, a mão na mão.
Quis ser assim, só que faltava
a mim ser quisto por quem tardava.

De modo q'aqui m'eis, senhora, ou não,
fez-se o tempo frio, e mais é Verão.
Um bolo d'arroz!? Pois sim, como não?
É só ir ali ao bar da estação.




4. Os Imortais
- em Moimenta da Beira como em Santo António dos Cavaleiros
- um soneto impossível

Fazem arroz-doce e julgam-se a salvo.
Cozem o porco, rapam a erva.
Trazem a féria menos dois tostões de vinho.
É ruiva a manteiga, o pão é alvo.

Os filhos esticam. A alma também.
Só o corpo mirra: e âmbar e incenso.
Deixa o Pai de ser mago. Quer outro
homem (nunca pensámos!), a Mãe.

Quem viver p'ra sempre quer
(seja homem ou mulher),
não sabe, doce, dormir.

Que em chegando o senhor barqueiro,
embarquemos, é porreiro!
(Deixá-lo vir, deixá-lo ir!)




5. Um Sem-Abrigo em Jardim de Lx.

Eu vi em Lx. um homem a escrever num banco de jardim.
Tinha muitos sacos à volta dos pés - como
cães de plástico.
Ele escrevia, escrevia, escrevia.
Eu estive ali muito tempo.
Eu escrevo, escrevo, escrevo.
Como é que se diz "ão" em plástico?





Nota: o 4º verso da 1ª estrofe do poema 4. Os Imortais (...) é tirado, menos ipsis mais verbis, do poeta Correia Garção (não sabem quem é, vão ver, que isto agora c'a internet é tud'u'nstantinho).



Caramulo, tarde de 24 de Agosto de 2006

Gomes Bernardo, Para

Cardumes alados das bandas do mar
vindo voando chegam sem cessar.
Poisam em tudo, manchas de tinta de prata.
Significo eu ainda? As mãos nas minhas,
diz-me. Olha, isto é uma lareira: acendi-a
de dia
para ti, só, mais que ninguém.
Este é agora o nosso quintal, império
breve, como todos.
Tens medo da morte e não da vida:
és tão engraçada.
Eu vejo peixes voadores, tu felizmente
não.
Que diferentes as pessoas
são.
Constituímos corpos. Em torno deles,
giracirandam facturas, bicicletas,
manequinas feminins as mais obsoletas,
recados eléctricos, de viagens prospectos
e cinecartazes os mais obsoletos.
É a vida.
Às vezes, dormes. Outras, morro eu.
O que disto não é ainda verdade,
sê-lo-á.
Adormece, pois, por enquanto.
No nosso quintal chove o alado pescado,
frios oblongos pássaros tentando respirar
pela barriga
como mulheres grávidas,
como cães espancados,
como os velhos do lar.
Iço por vezes a cabeça
acima do coração.
Quand'isso acontece,
vejo a vida como se de helicóptero.
Torna-se agradável.
Eu agora não ambulo tanto pelas vendas
de bifanas, foi-se-me o tempo de
ganhar muito dinheiro, fazer
v'cincos dabris por um verso
sem papel.
Não, eu agora já não.
E, já agora, não.
Vejo peixes, é o mais que posso
dizer-te.
A gente bebe café juntos como
velhos conhecidos.
Bebemos reconhecidamente
café.
Tu vês-me na manhã rápida.
Eu procuro conchas, obtidos
os peixes. Tenho corrido a lápis
o mapa da Noruega,
Ja Vi Elsker etc..
No meu entender, um homem pode.
Um homem feito de cancerígena vianda,
assim como de prospectivas recordações;
e um cão amarelo.
Há quantos anos parti
para a Noruega e não
voltei?
Há quantos anos parti
a loiça toda?
A gente é um homem,
a gente é uma mulher.
Diferentes óleos ungem nossas
peles. Pele com pele, as crianças serôdias
raspam côdeas, farinha e leite,
pastelaria-fina-fabrico-próprio.
Só a absoluta pertença de um
a si mesmo
justifica a propriedade privada.
Como um quintal de peixes
voados, caudais caídos anjos
de fria prata.
Passeando tão pouco, como tanto
viajamos?
Que o não pareça ainda,
e embora,
esta é uma conversa coroada
de serenidade.
A lareira parece um coração exposto,
repara.
O duro inverno campeia já, ínclito.
Egrégia se algodoa a névoa
em torno da casa exterior.
Vale que não despovoa o mar,
o inverno,
de peixes.
Salomónicos, partilharemos um pouco mais
do sal que chega do ar,
tocando de prata o quintal pobre,
a pobre vida
feliz.



Caramulo, anoitecer (ao tom dela...) de 23 de Agosto de 2006

Página 26

Faleceu Viriato Laranjeira Baracho, foto tipo-passe que deixou eterna saudade ao jornal, além de esposa, filho, nora, netos, cunhados, tias, sobrinhos, demais família, amigos e clientes. Arde desde ontem sua câmara, prevendo-se que, à hora crepuscular deste texto (que é um poema, e mais não parece), haja já sido sepultado no chão frio. Na página seguinte a Viriato Laranjeira Baracho, astrologia e massagismo.



Caramulo, tarde de 18 de Agosto de 2006

23/08/2006

Fado da Monarquia com Prólogo a Avisar do Pontapé na Placa

Prólogo a Avisar do Pontapé na Placa

Não tenho levado uma vida de que possa dizer-se: “Ena , mas caganda vida!”
Verdade verdadinha. Mas é a minha vida. Isto sempre me pareceu evidente. Não era evidente, porém. Algumas (muito poucas, felizmente) pessoas acharam que o evidente era a minha vida ser parecida com a deles. Igual até, se possível. E eu disse assim: “O caraças!” Não, disse assim: “O carago!”. Não, não, não: para falar verdade, disse(-lhes) assim: “O caralho!”.
Com mais planas palavras, tenho sido vilipendiado por duas ou três almas que, vencedoras de um campeonato moral só delas, acharam, em má hora (para elas), que poderiam dizer-me isto e aquilo.
Não podiam. Não podem. Levaram na corneta. Por palavras. Por enquanto, por palavras, já que uma dessas pessoas está ainda sujeita a engolir a placa a pontapé.
Imaginemos, por exemplo, que um gajo se droga na veia. Ou pior: que é empregado bancário. Ou que a mãe desse gajo frequentou, entre o Verão de 1987 e, digamos, o Inverno de 1994, a parte de trás do pinhal em frente à fábrica de celulose. Pensemos todos: que caraças/carago/caralho temos nós a ver com isso?
Não temos. Podemos ser católicos e ter muita pena. Podemos ser do budismo e cruzar as pernas (mas só depois de cruzados os braços e fechada a boca). Podemos ser do Sporting. Não podemos é chegar ao pé do drogado, do bancário ou da senhora do banquinho de campismo e dizer-lhe(s): “Olhe que você assim está mal, assim por não ser como eu…”
Aos meus leitores, digo só isto: vou continuar a escrever. De modo que estes textos são para vocês. Eu sei, ninguém dirá: “Cagandas textos!” Direis apenas, talvez, que são palavras de um gajo que vive como quer. Exactamente como quer: isto é, desejando saber querer. Isso, amigos e amigas, ninguém me tira, que eu não deixo. Vai de fadinho para continuar, então. Amanhã há mais. Mais para vós e contra os inspectores cinzentos da vida dos outros.


Fado da Monarquia

(Falado:)

A nossa vida é
mais simples do que um segredo
entontece perde o pé
perde o pé e ganha medo

(Cantado:)

Lampiões casas baixinhas
ruas de mijo de gato
muitas chuvas tão mansinhas
tão nuas como um sapato

Os popós a gasogénio
as senhoras digestivas
volfrâmio e tungsténio
os cancros com recidivas


(Falado:)

A nossa memória é
mais magra do que um cão
deixado à chuva até
que lhe ladre o Verão

(Cantado:)

Tu virás um dia eu sei
como quem não quer coisinha
garantir que eu sou rei
garantir que és rainha

Tu não tardes demasia
que é breve tanto viver
sei de cor eu dia a dia
quanto custa anoitecer.





Prólogo: Caramulo, tarde de 23 de Agosto de 2006
Fado: Caramulo, anoitecer de 18 de Junho e tarde de 23 de Agosto de 2006



Licor, Sabão e Sapatos

O meu Pai contou-me histórias e lances que me ficaram. Ouvindo-o, eu vivia a inequívoca suspensão dos leitores, que viria a repetir depois nos livros de papel por que me vi forçado a trocá-lo.
Das narrativas que me passou, não conservo senão a atmosfera escura dos homens (quase sempre ou operários ou homens de génio), a tristeza palpável das florestas com seus caminhos de criança, o carácter inapelável da chuva e um vago terror pela morte que não pude ainda confirmar pessoalmente. Quanto aos lances e às histórias propriamente ditas, quase nada posso aproveitar para nutrição do meu ofício. Ficaram-me a escuridão, a tristeza e o gosto por estas duas irmãs da imaginação. Quase nada?
O meu Pai está morto. Já não conta. Nestes doze anos sem ele, venho babujando os meus mesmos homens e as florestas improváveis que se erigem ao descer do sono, na cama que ele já não aborda para verificar a respiração do infante. Aceitei e cresci, velejando a lápis pela memória prospectiva e pela absoluta insensatez da poesia. É verdade que navego confusamente. Acontece-me escrever um homem, pensando-o meu, e ser ele, afinal, dele. É uma sombra de sombra. Isso faz-me sorrir. Sim, faz-me sorrir como um maluco sozinho de café. Não tenho problemas com isso. A cabeça de um homem é uma rosa de vidro duro. Cortando a cara, está a boca, território do dentista e da palavra. Escrevo estas coisas contra a claridade e, não raro, contra a alegria.
Porque a alegria seria poder não escrever. Não criar mais homens do que os já existentes, não mais rosas de duro vidro. Eu agora conto histórias e lances, sem filho embora. Da cama, vejo e ouço o ramo de árvore raspando o vidro: o ramo na minha cabeça. Todas as noites me são uma, daí que a minha felicidade seja um sistema feroz e totalitário. Pode o rolo dos meses ser tão compressor quanto lhe é natural: é uma noite só, só. Isto está correcto, assim.
De quando em quando, é de dia. Então, barbeio-me, visto um fato decente e saio para a rua a cheirar a sabão. É o mesmo domingo de sempre, claro. Farmácias fechadas, igrejas abertas, o rio pulsando a veia aberta de cobalto, o fumo da manhã, as pombas como cães rasteiros esburgando ossos de milho, mais a placidez acrítica do bêbado matinal ao fundo do beco. Saibam então que, então, me toma a feliz ferocidade de lhe ter sobrevivido. É provável que esta manhã ocorra de noite (o ramo no vidro). Não tem mal. Toda a gente é tão matinal quanto pode.
Os homens do meu Pai eram todos noctâmbulos. Também assim os lances deles. As estradas eram de terra, quando nelas chovia jorravam horizontais regueiros de café-com-leite, o pão era amargo, os filhos eram feitos num estremeção; e estava sempre a chover café-com-leite. Pouca diferença para comigo. Conheço isso, volto a ser feliz por causa disso. É o meu trabalho.
Hei-de levar-vos pela mão a este homem (não há engano, este é meu) de bom relógio de pulso, fraco colete de lã e orelhas entupidas de torrões de cera. Está ali, contemporâneo da minha mão direita. Usa um bigode tão denso e expressivo como um terceiro olho na mesma cara. Mãos cartilaginosas de comedor de canja, calças de fazenda preta; cotovelos de afiadeira, costas insignificantes, cinto de cabedal espúrio. Tem cinquenta e seis anos: e nasceu agora. Hei-de vê-lo a beijar um cálice de licor.

– Dona Judite, um cálice de licor.

Já está. Bebe à esquerda como um decifrador de palavras cruzadas. Sapatos de feira dormem-lhe aos pés como gatos de napa. Os joanetes embolam os gatos. Não tenho o meu Pai, tenho este homem.
Receio que me não acreditem, mas isto é a felicidade, mesmo que os traços sugiram a mesma tristeza e o mesmo domingo e a mesma floresta e o mesmo lápis. Alegria e felicidade nunca foram a mesma coisa: nunca foram a mesma pomba.
Fiz já algum amor, alguma comida, alguns livros e alguma sombra. Perto do meu coração físico, demora-se às estrelas o espectro da Pensão Central, abandonada e olheirenta. Entrei já, clandestino, nessa casa final. Terrinas de sopa branquejam ainda nas bancadas apodrecidas; penicos albergam ratos mortos de sede; um quadro vesgo recorda que há cabanas na neve, mas não para ti; sobrancelhas de arbustos vivos rompem pelas frinchas dos madeiramentos; e os mortos pensionistas reclamam chá de dentro das décadas estagnadas. Mas, dizia, fiz já algum amor (algum chá, também); e alguma comida, peixes salgados que deitei a assar sobre carvões rubros caramelizando a areia da praia; e alguns livros, onde se tornou inequívoca a impossibilidade de fugir; e alguma sombra, esse trapo que a luz deita a si mesma para não ferir os olhos.

– Dona Judite, um cálice de licor.

Os homens escurecidos do meu Pai correm os valados de Alcobaça, atormentados pelo ar frutívoro e pela música da água do mar da Nazaré, espermática na noite preta, reboadora, catedrálica, desumana. Eu não corro. Eu estou. Eu agora estou vivo. Isto é importante – porque me faltam muitas páginas.
Domingo de manhã, cruzei (cruzarei) a Praça das Cebolas, acossado pela repetição e mirado do limbo pelos cães dos toxicodependentes. Cheirei (vou cheirar) o vinagre das sardinhas fritas na viela por uma mulher de varizes cuneiformes, picardia aromática repercutindo por ondas na minha pátina de sabão. Ao fundo, a igreja de S. Bartolomeu, nesgada de sol e anemia. Além dela, a margem direita do rio, ao longo da qual tiracolam os pederastas suas tesões estéreis.
Só devo ter cuidado com o domingo por causa de o meu Pai reviver. Não se trata de uma intercessão de S. Bartolomeu, mas minha. Concorro a esse milagre sem querer, nem crer. Ele acontece, apenas. Algumas vielas foram iluminadas por ele, antes da rifa vascular-cerebral do fim. Ele cheirava a sabão, tinha raspado o queixo e surgia envolto num fato quase tão decente quão pobre. Sentia o vinagre das sardinhas, silvava melopeias às pombas, não havia drogados ainda, só cães, os mesmos. Ele não tinha estremecido ainda para fazer-me. Vem no meu sentido inverso: em verso. Já viu o rio, agora regressa, rumando aos Sapateiros, depois da camisaria. Não trocamos palavra. Isso é que já não pode ser.
A praça enche-se de homens, lances. A praça escurece. Há uma vozearia gráfica, como nos sonhos e na banda desenhada. O domingo excita estes homens carbónicos. A tristeza do meu Pai é tão evidente como uma toalha posta a enxugar à chuva. Descuidada, a memória alimenta-se de si mesma como o vento, que aliás sobressalta os cães e a placa de madeira do camiseiro. Percebo que isto é de estar a chover sem eu ter dado conta. Dentro da cabeça, a cronologia é meteorológica. Estou descalço: ele leva os meus sapatos. Se estou descalço, deito-me (o ramo no vidro). O domingo esvai-se.

– Dona Judite, um cálice de licor.

É de noite. Além da Pensão Central, a montanha desce-se a si mesma como uma história, ou uma vida, ou uma montanha. Estou vivo na antemão de tudo o que vem ainda. Há uma teimosia, nisto de as coisas seguirem vindo, que só pode ser galáctica. Luzitas eléctricas caspam, por todo o vale, o cabelo da noite: pequeninas vidas sem livros nem redenção, dentro das casitas, dos galinheirozitos, dos camiõezitos, da noite.




Caramulo, noite de 21 de Agosto de 2006

22/08/2006

Dísticos Matinais

(Foram compostos estes pares de versos no decurso de uma manhã muito esclarecida de Julho; escrevi-os na casa do dr. João Almiro, um homem de 80 anos que dedicou a vida e a fortuna a ajudar pessoas desviadas do comum rio dos outros: crianças, cirróticos, drogados, pessoas; dedico estes dísticos a esse senhor.)
1
As vidas: espelhos mínimos
da Grande Vida.
2
Gatos infantis num vaso de barro:
abraços mordidos.
3
Manhã suave, fresca, larga:
um tanque de luz.
4
Tudo ouro, tudo prata,
ar tudo: passagem.
5
Livre, pardal, coelho:
um homem bravo ao meio-dia.
6
Um outro:
um e outro.
7
Voz do pássaro pousado
no arame: flor rápida.
8
Sol a pino no pó:
despede-se a manhã.
9
Sombra na manhã como panos
nocturnos ainda, porém.
10
Correnteza de homens:
efémeros, seixos.
11
O céu é para mergulhar
de cabeça, o coração por terra.
12
Lavar por dentro:
conscienciosamente.
13
Terra tão depressa
laranja como pedra.
14
Janelas vistas para dentro,
como poços subidos.
15
Cores da telha, da árvore,
do céu: dulcíssimas violências.
16
Mulheres ingerindo bolos,
guelrando risos, alheias.
17
Serviço e féria.
Pão e manteiga.
18
Enquanto for vivo:
enquanto vier vivo.
Campo de Besteiros, manhã de 28 de Julho de 2006

21/08/2006

Caminha de Ferro

(O leitor/espectador é confrontado com a visão de uma gare de caminho-de-ferro; varrida do vento, água nas extremas da plataforma; passa gente, pouca, nas costas deste Homem de Gabardine Cinzenta, que diz/recita:)




Não tem importância a mãe.
Importante é a viagem de comboio
na noite de chuva.
O pai onde não anda?
Rola o trem disciplinado
ensinado o camareiro
que aponta lugares numerados
o vagão-bufete
o mijatório.
Digo:
a água eléctrica
tão fria sempre
da torneira vermelha
das estações terminais.
Ai caraças!
Por que não chamam nunca
iniciais
às estações?
Comboioutono, ferroverão, carrilinverno,
vera prima mágoa minha.
Eu durmo estendido
os ossos de arame
de frio encardido
haja quem miame.
Gosto de farturas.
Tão oleaginosas.
Nuvens são alturas
de água-de-rosas.



(O Homem de Gabardine Cinzenta cessa a recitação; adopta um ar confessional:)



Por outro lado, isto é mesmo assim. Uma pessoa faz-se ao caminho, tempera o desaçúcar e o salitre, diz que não a uma mortalha marraxeque-careca, ou diz que sim, ou vai para a caminha. E, aí, então, morre para nascer, se tal vos não ofender.

Caramulo, noite de 18 de Agosto de 2006

Crescimento e Aceitação - Quadras Impopulares

Ossos as pessoas são
um pouco de nervos e carnação
a luz retida na pupila
a pele esticada como uma tenda

Orgasmos secos coitaditas
as pessoas emitem aflitas
o resto é muito mercearia
pendente a barriga como uma papada

Dou-me a mim por exemplo
certo domingo em certo templo
acudia a gente a um baptizado
havia gorduras fritas ó depois

Oh sim nós queremos ser felizes
tirar caquimerda dos narizes
e até talvez um autocarro
qu'o vizinho não tenha nem possa ter

Chega a época dos incêndios
e nós qu'emos lido compêndios
lamentamos o país rural
faz cá falta maditadura

Quer'a minha idade de volta
maizos bígíz e o jónetravolta
quero mas não posso senão querer
crescer aceitar ganhar perder.



Caramulo, noite de 18 de Agosto de 2006

17/08/2006

Ela Voltou

Ela voltou para mim. Algumas vezes em que me achei mais fraco, terei pressentido não voltar a vê-la. Para minha boa sorte, errei. Voltou esta mesma manhã. Agora é de tarde, quase noite até, e ela permanece. Amo a sua nudez não passível de igreja, o descalabro da sua antiguidade fingindo-se moça, o seu despudor cantante.
Acho-a magra. É toda linhas, por e para onde quer que a olhe. Dá a ideia, decerto segura, de ter vivido sempre descalça. Olha de cima as árvores e o traçado das ruas. Ela respira como um pára-quedista: sustendo o coração.
Sei que partirá de novo. E que de novo enfraquecerei, temendo menos a morte do que não voltar a vê-la. Assim seja, pois sempre assim tem sido. E pois que até a senhora do café, à porta do estabelecimento, a olhou longamente, exclamando-me depois: "Bendita chuva!".
Caramulo, tarde pluvial de 16 de Agosto de 2006

16/08/2006

Valsa Inexistente e outros Sapateados

1. Valsa Inexistente (mas em 3/4 real)

Delicada senhorinha
dança uma valsa por mim
não existes coitadinha
danç'a valsa mesm'assim

(subida de voz para terceira do acorde, naturalmente menor)

Glória aos tristes profanos
glóri'a quem nos troca o passo
embaraço desenganos
tantos anos valsas faço

(e agora em jeito de dolência coimbrã, mas não abusando)

Eu vi nascer uma roda de meninos
entristecer
dobram por mim esses sinos (bis)

(a seguir, idem, mas mais descritivo; ternário sempre, atenção!)

Aonde foi a mocinha
que frutos deu co'a idade?
perdeu ganhou coitadinha
é presa ou em liberdade?

(com falso júbilo; não há que enganar)

Hei-de lembrar
ai com quem nunca dormi
hei-d' acordar
se me lembrar é de ti

(e zinga para instrumental de resumo e saída; se houver fagote, não prejudica, antes pelo contrário; na dúvida, sax barítono; na falta de cacau, nenhum)

Vai valsa sai
do meu peito que eu não sei
valsar valsai
valsar eu nunca sei valsei.

(E pronto. Bufete.)





2. Sim, Carolina
(ou Relatório de Agente de Polícia sem Grandes Estudos mas com Sobrinho à Mão)




Ele disse que os outros se meteram por ali mas eu não pude apurar se se tratava dela ou de sítio, o ali. Efectivamente, há maneiras de falar, vai do dizer, só sei que fui o primeiro a chegar à ocorrência, não tenho sorte nenhuma. E se isto não está pior de ortografia, sintagma ou paradigma, é porque levei o carago do formulário do carago do relatório para casa da minha irmã, onde o meu sobrinho está na faculdade de português e não chumbou e não é nenhuma merda como o tio, enfim, mas também não estou a ver o qu'é qu'á-de ser dele, dar aulas. De qualquer maneira, esperei ali um bocado e depois de vir o arvorado Garcia agarrámo-zios.




3. Derrapagens Ainda não Mortais


Eu dantes podia ir aos morangos
não fui mas tinha tempo
agora tenho tempo na mesma
mas não vou porque
mudaram pa' Espanha os morangos.

Puseram uma cabina telefónica
à frente da pensão pós ucranianos
telefonarem pó brasil lá deles.
Eu estou à janelita e vejo:
parecem surdos-mudos, não
percebo nada de línguas.

Eu acordei mas tinha o sonho
agarrado nas unhas e disse-l'assim
- Ó sonho, vai pó carago, pá,
vai pó carago, ó sonho!





4. Ou Então Não


Se a rapariga da livraria
do outro lado da rua
do Big Sleep tiver desistido
do Marlowe,
eu estou aqui.

Quero lá saber de 1860,
quero lá saber do Ben-Hur.
Primeira edição, sou eu.






5. Escrevo porque espero que chova


O título deste poema já disse o que tinha a dizer.









Caramulo, tarde de 9 de Agosto de 2006

Maradona

Deus chamou-se Diego Armando.
Deus cheirava cocaína.
Não havia melhor, jogando.
Deus nasceu na Argentina.



Caramulo, tarde de 30 de Junho de 2006

Cebolas Fazem Chorar

Fernando Pessoa?
Apareceu-me, sim, uma vez, em Lisboa.
Ia eu, caminho do Campo das Cebolas, com
alguém com que teria ficado,
não fora ter aparecido Fernando
e levar-me a dita pessoa.



Caramulo, tarde de 29 de Junho de 2006

15/08/2006

Contador

Enquanto os meus olhos gastarem água e luz,
serei o contador do que há, do que
receio que haja, do que
desejo venha a haver.
Amo as pedras escritas.
Amo os gestos, esses desenhos arqueológicos
traçados pela memória corrompida.
Conto essas coisas, nas vastas
noites devastadas,
enquanto a tesoura escura do corpo
contrasta os lençóis, a loucura
não mansa.
Ainda hoje assisti eu a duas moças
robustas e brunidas merendando
bolos e copos de vinho branco.
Carnações sãs, pés completos em finas
chinelas, dentes ortoépios, bocas boas,
mãos alimentícias, barrigas e almas
sólidas.
Este é o tempo, este é todo o tempo.
Um homem cavalga um tractor verde.
Moscas caganitam reticências.
Escolho e colho.
Um casal com sacos de compras:
pão, verduras, vinho, banha, insecticida.
Um homem de boné azul, braços fortes,
castanhos.
Escrevo a minha mesma pedra.
A ferida genital pulsando leite negro,
a tosse alcatroada.
Mais a inconsolável beleza dos montes,
sobre que espraio uma atenção desmemoriada.
Não sei quando, mas outra vez
ainda
tocarão a areia marinha estes pés portugueses.
Este é todo o tempo que falta,
ocasião para escrever a pedra,
exercício amoroso e triste;
e contador.



Caramulo, tarde de 11 de Agosto de 2006

14/08/2006

O Cliente Tem Sempre Razão

(No café, o empregado pergunta-me que desejo)

Que a minha palavra seja
luzidia como uma égua.
Uma égua num campo de água verde.
Que húmido choupal lhe deite sombra.
Que ciganos ladrões a perturbem
com navalhas.
Que um homem comendo laranjas
a leia escrita numa parede.
Que seja parede, a minha palavra.
Total como o dia, rútila como a noite
apedrejada de diamantes.
Que seja sexuada e ame.
Que sobreviva aos bailes de agosto.

("E mais alguma coisa?", volta ele)

Que a minha boca seja de pudim,
e o meu coração-relógio uma bomba,
assim como diamantinos os meus dias
e totais as minhas noites,
acólitas da lua e da memória física,
sedas ao vento sideral estendidas
para agravo do meu amor glauco,
do meu palavroso amor.
E a conta, se faz favor.



Caramulo, tarde de 11 de Agosto de 2006

09/08/2006

Razão

Ter razão em companhia interessa pouco.
Muda-se, na verdade, alguma coisa:
o preservativo moral, o circo lésbico,
a rua de não-fumadores e o
hamburguer vegetariano.
Ter razão sozinho chama-se loucura.
Há médicos e farmacêuticos para isso:
contra isso.
Não estou aqui a elogiar a loucura.
Pago os meus impostos.
Percebo que as primeiras páginas
dos jornais remetem
para caixas interiores:
assim também procedem o sol e a chuva,
índices de
melancolia
ou
euforia,
cá dentro.
Não tem mal.
Aprendi que a eternidade provém da
repetição cíclica.
A Primavera é a próxima primavera
anterior.
Outono, Verão, Inverno:
outono, verão, inverno.
Leite do homem, ovo da mulher.
Comichão da gata, moscas da leoa.
Isto não é difícil: gata em casa e em casa
a televisão (única maneira de ter leoas em casa),
onde a leoa repete a gata,
as moscas.
Socializa com uma nota de banco.
Aparece com um carro novo.
Com duas larachas in,
não estarás out nem serás
posto knock-out.
Saber um bocado de americano
integra-te na razão colectiva.
Farás bem, barbarizando.
Imagina que o Outono regressa,
naturalmente amanhã,
já.
Piscam na vila as montras do comércio,
o conforto electrodoméstico garante
a inexistência de bombistas-suicidas.
O Cristo da prateleira joga ao trapézio,
ginasta de ilustração para ilustração
de almas artríticas.
Duas mulheres combinam entre si
o transporte (a remoção) de um corpo
chamado pai
por uma
e homem
por outra.
É preciso alimentá-lo, lavar-lhe as
cagadas, trazê-lo ao sol
(euforia)
ou
arredar-lhe a cadeira
das rodas da chuva
(melancolia).
O homem só sorri
e diz
bons-dias, boas-tardes e
boa-noite.
O homem singulariza a noite.
Percebe, o velho.
Manhãs e tardes são plurais
razões colectivas.
A noite é sozinha em
sua razão.
Sua, não. Dele.
Dele, não. Minha.




Caramulo, tardia manhã de 9 de Agosto de 2006

07/08/2006

Ilustração da Classe Operária

Prólogo

A montanha e o mar continuam a fazer-me, do corpo, tabuleiro para jogo, ciência e chacina de suas pedras elementais. Eu ajudo à festa. É porque exerço uma demora caçadora. Direi mais bem - pescadora. Sou incapaz de supor o que faríeis em meu lugar (e em meus lugares): cada montanha usa um só caminhante; e o mar não comporta mais do que um náufrago, à vez.Salva-me a razão o facto de escrever sempre em puro êxtase pedagógico. Esta tarde de sexta-feira, 4 de Agosto de 2006, a minha vítima foi a classe operária.As circunstâncias eram partilháveis: a luz aparecia total como um vidro; a parede da montanha não poderia nunca ser subida por outro barco que o do versilibrismo; na casa de pasto, operários erguiam à luz as estranhas flores dos seus braços: as mãos; e vi um gato tão pardo como uma cortina de chuva.Ninguém me acreditaria se aqui depusesse a principal das minhas ferramentas – a felicidade. Todavia, tal é. Ainda hoje. Agora, é certo, o dia acaba-se, adormece contra as pessoas, fá-las clicar os botões eléctricos. Na montanha, o pior da festa é ouvir-se o mar improvável, na noite, quando são pretas todas as casas do tabuleiro. Que não são 64, mas 24: como as horas do dia e o quanto de versos de cada, digamos, poema.

Os versos 14-15 do poema 6. Sonho do Taxista são tradução quase literal dos célebres versos do poeta francês Jacques Prévert: Deux escargots s'en vont à l'enterrement d'une feuille morte.





1. Paisagem e Povoamento

Em torno a massa verde do mundo,
alguma língua castanha.
As águas são nutrientes.
A cabeça do girassol, coroada de ouro e óleo,
mira com atenção o mapa alto.
Suínos e humanos chafurdam em estrumeiras.
Cal, cálcio, calcinamento – o momento é todo
branco.
Dos Correios, a carrinha vermelha sai, carregada
de um homem e de palavras e números.
Uma mulher transparente ondula de vidro
no calor: registo-a.
Terra de casas pacientes e mortas.
Quando há baile, sob as árvores, ainda aparecem
seres: olhos fosforescentes: esmeraldas audíveis.
Há uma loja. Na montra, sobre placa perfurada,
ratoeiras de pau demonstram ardil e arame.
Bois são ensinados a bordar lavradios.
Cabras roçam as tetas nos pedregulhos.
Mais acima delas, um batalhão de estrangeiros
plantou ventoinhas eólicas.
Mais acima delas, a tela azul suspeita
do mar improvável
que daqui anseio.



2. Quando no Mar

Como se tivesse chegado atrasado a acabada
festa: assim chego ao mar.
Digo: assim chego à memória.
Mãos e areia: materiais para ampulheta.
À sombra do toldo, a areia era de um frio
sexual: o primeiro.
O meu primeiro corpo anchovava-se
de todo.
A praia era completa, então.
Tribos sem defuntos acampavam ao sol.
O mar tinha cheiros de pessoa conhecida.
É verdade que por vezes raptava alguém,
matando-o, devolvendo-o depois noutra praia,
noutro poema.
Os banheiros eram muito pobres, tinham só
a pele escamada, bebiam vinho e fumavam.
Manhã muito cedo, a vida era uma palavra única.
À esquerda, à direita, sul e norte coincidiam
na massa verde: só que eram peixes
quem bordava, não ainda bois.
Provisórios eram os socalcos,
girava o sol como uma cabeça de flor:
óleo e ouro.
Língua encarnada.



3. Os Peixes

No mostrador de vidro, aguardam operários
comedores de fim de tarde (hoje)
os peixes que mulher fritou em esconsa
cozinha.
São nutrientes como águas.
Embolados de saliva, descerão aos poços
gástricos dos operários comedores.
A minha vida foi tocada
pelo vento.
Demoro-me nas ruas cálidas.
Há uma idade-méxico, esta
é a minha.
Pó branco, luz de cal.
Em cima, os moinhos eólicos dos
senhores estrang’engenheiros.
A todo o momento, é possível
que cowboys surjam mortos
de sede. O táxi da vila, sob
tílias, embolsa o taxista adormecido
ao volante.
Estarei sempre onde estive.
Sempre é o nome de aonde fui.
Escrevo para alimentar os peixes
Gástricos. E para ilustrar a classe operária.



4. Palavras e Números

O homem dos Correios gosta de peixe frito.
Encalmado, tonto de azinhagas e envelopes
com análises clínicas mortais dentro,
sai da carrinha encarnada-língua
e vem morder um peixe.
Venho por esta dizer que estou bem.
Sou de tua excelência atencioso.
Que o pagamento se não esgota, o prazo
dele sim.
Aflautado passarito amarelo, em gaiola
de primeiro andar, sobre montra de
loja de ratoeiras, trila apogiaturas
de rotina.
Trila palavritas amarelas, numerinhos vermelhos.
Não cómodas prestações, mas,
ainda assim, falar com o homem
dos móveis, pedir-lhe uma linha
de tábua sobre que arrecadar
os livros, as palavras, os números,
a quieta passagem.
A mulher na casa do girassol,
viúva de si mesma, platina calcinada,
abre a carta, não sabe ler,
diz-me que lha leia eu.



5. A Carta

Saí como sabes ao mar e não voltei
sou de tua excelência atencioso
eu queria já não quero nem já sei
tenho frio e ando silencioso.

Como está o girassol?
Anda o porco na estrumeira?
Tenho no pé’squerdo um fole
sinto na cabeça uma zoeira.

De espuma vou bordando o mar
de casa cal parece a espuma
navego e nunca hei-de chegar
a certa parte a parte alguma.

Eu talvez volte eu talvez não
deixe de estar onde não parti
agulhas breves no coração
coloração de rosa no chichi.

Sobem do mar a prumo os peixes
tocam das redes o baile mortal
oleosos de prata lembram-me feixes
lunares grafismos do papel natal.

Eu pago sem fim meu praz’amarelo
eu canto dos ratos o coração d’arame
não se cansa o mundo de triste e belo
não queiras meu nome ‘ind’assim chama-me.



6. Sonho do Taxista

Aos cantos da boca espumo um pouco.
Tílias dormentes m’embalsamam a viatura.
Adormeço como um infante vestido
de azul-marinheiro.
Mais do que a conta não sofro.
Não sei de mulheres nem homens:
xadrez infinito, teimoso jogo.
Tive ali o mar, sonhava com ele: não
o tinha.
Depois disseram-me que comesse por
conta. Essa conta sofri.
A França fui; e vi:
suínos e homens na estrumeira do idioma,
onde dois caracóis iam ao enterro
de uma folha morta.
Nunca estive aonde nunca voltei.
Sou tão fiel.
Seca-se-me a mãe ao sol,
Como um prumo de peixe de óle’ouro.
Estiola a espuma, cal se faz.
Morrem-se-me as casas.
Cowboys mexicanos vêm à babugem frita.
As tílias parecem bois, a luz
borda a noite inconsútil.



7. Tigre e Homem

O gato cruza impune a estrada,
entra no parque: registo-o.
Uma só natureza geradora, mas
tantos mundos.
Cresce na sombra: tigre.
Mais única que a minha, agora
e para sempre, a vida dele.
Uma senhora fala assim:
“Doem-me tanto os pés, tanto,
mas tenho de andar, caso contrário,
põem-me numa cadeira-de-rodas”.
Nem uma nuvem, o dia todo.
Abandonaram um carro numa rua
onde ninguém mora.
Como aqui não há areia, não há
tempo.
O dia nasce outra vez como
um siamês preso a um elástico.
Maduros de sangue, os animais regressam.
Maravilhosos bonecos, eles são.
Houve um tempo para mim.
Eu agora sou ilustrador.
As pessoas nascem, trabalham e dão
que fazer ao homem dos Correios.





Caramulo, dia 4 de Agosto de 2006





02/08/2006

Sob o Circo de Cinza

Mal seguras as calças à cintura, camisola com arrepanho ascendente, vejo do homem pobre o elástico das cuecas cor-de-casca-de-ovo. Sabe ler. Abriu o jornal como a um mapa, por ele navega na calma grés da manhã. Outro homem em cena. Traz queijos para vender debaixo de um olhar de avô baleado pela Pátria.
Sonhei de mais. A noite traspassou-me. Fui poroso à insistência das imagens. Eu estava numa casa de madeira. Havia um fogão a lenha. Havia uma varanda de tábuas inaugurando o vale. Era possível sentir os lobos, o terror dos coelhos na clandestinidade, a passagem caligráfica do milhafre no circo de cinza. E era no inverno. A cabana fazia parte de uma aldeia toda de madeira. Havia um telefone que não tocava, estava ali como um vaso sem planta. Atrás da cabana, subindo um pouco, eu podia recordar o bar dos ingleses: jornais sem fotografias, cadeirões de couro, tabuleiros de xadrez sem xadrezistas. O barman era português do Minho. O casal proprietário era do Sussex. Se eu acordasse, poderia talvez subir ao bar, ler as letras miúdas dos jornais, trocar uma nostalgia com o barman de Monção.
Agora, outro homem. Sobrancelhas espessas como arbustos, olhar grave como uma jura. Saúda com gravidade e espessura. Retribuo. Toma o jornal que o homem pobre leu, ou navegou. É tudo tão bonito. Da cozinha, sai o patrão transportando um prato com duas peras amarelas e uma faca de cabo de madeira.
Na minha casa de madeira, eu lutava sem um gesto, lobo sem coelho nem desejo. No fogão, a lenha ardia como um trapo de ouro. Registei a possibilidade de não mais poder sair dali, nunca mais ir junto do minhoto que infundia chás para xadrezistas nenhuns, jamais dizer aos ingleses o que sabia de Phyllis Bentley e de Ferreira de Castro.
E no entanto o Tempo na noite não assassinava, antes permitia a véspera de outros homens, outros jornais, outras cuecas e sobrancelhas. O velho comeu as peras depois de lhes esfaquear a pele. Vi que parte do sumo lhe abordava os cantos da boca, arroiando depois pelas fissuras, as rugas, as comissuras do queixo velho.
Não assim os ingleses, que mastigavam a seco triângulos de pão com lâminas de pepino. Ela tomava colheradas de extracto de carne. Ele mordia goladas sólidas de gin. Assestavam ambos sobre a minha cabana e o vale o mesmo olhar cinzazul de exilados.
A manhã raspou-se de grés, acordei sem ter dormido: como se nascesse. Tacteei as calças como se procurasse pernas. Procurei água no cubículo cerâmico. Outra mesma noite me acudirá em breve, facto que não lamento tanto como não ter comprado um dos queijos daquele senhor.



Caramulo, Café Avenida, manhã de 1 de Agosto de 2006

01/08/2006

Para Acabar de Vez com tal Julho

1. Biblioteca

Não chegarei a tempo de tocar, vivo,
a tua mão viva.
Não refarei qualquer amor.
Todo o palhaço é ridículo com a repetição
da anedota.
Da lira que a tua mão é,
não me voltará o coração a ser
caixa de ressonância.
Tenho tido uma vida longa.
Sentirei, breve, a morte.
Dizem que é dos livros.



2. Por

Olha, passam no ar meninas.
Olha, quem atirou estas laranjas?
Sumossanguíneas, voadoras: meninas
tangerinas, cabelitos, franjas.

Criancitas, ossos tenros.
A gente agora é pai delas.
Um dia, talvez, teremos genros.
Se estamos vivos, é por elas.



3. Dicção

Carne verde veste ossos brancos,
assim os homens.
Tules azuis esvoaçam raparigas,
assim elas.
Fios de água correm o Verão.
As mães doentes telefonam,
incomodam o quotidiano.
A conjuntura internacional abre brechas
à bomba.
Sinais-rádio picotam o ar.
Quero caracóis. Não,
não estou cansado. Dizias?



4. L’Homme du Temps

Vivo com um homem.
Vivo com um homem na minha cabeça.
Estou a vê-lo chegar de comboio,
marejada de rio a tardinha,
prometendo chover.
Cumpriu.
Vivo com um homem que chove.



5. Marav’olha

A minha vida é muito mais maravilhosa
do que paguei por ela.
Permite-me, até, a circulação pelo país.
Outras vezes, fecha-me na música, ela.
Sim, tive estios filarmónicos.
Um homem dava maçãs e vinho branco,
eu era um de nós, e nós
aceitávamos infusas e pomos.
A minha vida não era ainda isto.
Eu pardalava em absoluta ignorância
do preço do grão. E de o grão ter preço.
Depois disseram-me assim
– Olhe que você
– e eu não olhei.



6. Tento na Língua

A actriz diz ao actor
– Eu amo você.
Diz o actor:
– Você é estrebaria.



7. Visite o Caramulo

A Sofia assistiu, no sábado, às visitas.
Vêm de longe, de outro que não este mundo.
São os familiares. Os sãos. Os que gerem.
Vêm duas vezes por ano. Vêm
pelo calor, vêm
pela neve.
Manhãzinha muito cedo, os utentes tomam
banho nos lares.
As auxiliares, pressurosas, até licor de rosas
esfregam nas peles dos
condenados a isto.
Geriatria, psiquiatria – um a uma, uma
a um, os seres invisíveis vêm ver
a luz do sábado, pensam
que é domingo.
Não é.



8. Poema por Antecipação

Quando te fores embora e deixares
o corpo por sinal de entrega,
farás ‘inda bem se pensares
que aquilo que mata também sossega.

Envelhecem tanto, as raparigas. Tant’e no entanto
como são gráceis, rijas, inabaláveis.
São uma espécie de (des)esperanto.
Nascem e são logo inadiáveis.

Umas são mães sem pensar nisso. Outras
pensam que pensam e nunca o são.
Luzem, rebolam as ancas de potras,
mijam e sangram de pé para o chão.

Quando tu te fores embora, como direi?
Como hei-d’eu ceder à últim’idade?
Faço as perguntas porque não sei.
Mas’inda cá estás, responde à vontade.



9. Soneto Inverso

Tenho assistido: as pessoas tentam, em vão,
separar a vida da profissão.
Isto rimou sem querer.

Sim, claro que sim: somos o que fazemos.
E no que desfazemos nos começa a morte.
Não é azar, não é por sorte.

Gosto de mulheres. Já tive algumas
que me disseram – Sê homem
– mas, delas todas, nenhuma
ficou para velha quand’eu era jovem.

Tenho este trabalho. É ele o que sou.
Eu sou sonetista: catorze por um.
Eu sou o que faço. Desfaço? Não vou
agora dizer – Sou jovem ! (Ah hum!)



10. Cama de Casal

Alguém ou ninguém ou mais ou menos isso
respira a teu lado: e tu só na mesma.
Quando o teu braço de cambraia experimenta
o frio de seda na cama adormecida, e
só tu, ainda, restas acordado.
A guerra é experimentarmos um sangue não nosso.
Assim decerto, e também, o amor.
Nem os lojistas de móveis sabem
que nos propõem eles quando
nos propõem camas de casal.



11. Mossa Idade, Mossa Idade

Amarelo-gata-de-galinha retira-me
do dermoptimismo a mocidade.
Quem quiser ferir-me, fira-me.
Dig’assim – Iss’é da idade.

Mas, que porra!, aind’é cedo…
Nasci só em 64!
2000 & tal não me faz medo,
que eu pinto o Diabo e o 7 a 4!

Us’óc’los, sim. E prótese dentária.
Mas a gland’intumesce à simples ideia
da fêmea montada, vulgar alimária
que rache a fenda, mesmo seja feia.

Mas, p’ra ser sincero, aqui reconheço
que o meu eu não é com’ele já foi.
Manta nos joelhos, à brisa estremeço.
Só digo “Bom-dia!”. Nunca digo “Oi!”…



12. Match Box

Ainda brinco com miniaturas. Juntam-se-me sozinhas, aos pés da cama. Pululam, elásticas, aos pés do dia. São terríveis. Inexoram. Umas conduzem carritos de ferro que não posso pisar, e daí que me partam as unhas em total impunidade. Outras amargam o leite, fendem de verdazul o pão, corrompem a carne e oxidam o frigorífico. Outras são especialistas de arquitectura: fazem, refazem e desfazem casas onde ninguém pode voltar a morar. Outras juntam-se todas e totalizam a minha gata, que me olha, topázia fria, dizendo:
– Eu sou-as.
Outras vezes estou apenas sozinho. E não brinco.




Caramulo, tarde de 31 de Julho de 2006

FM

Anteontem, conheci uma senhora que foi tanoeira, outra que foi moleira. Octogenárias ambas e ambas viúvas – frágeis são os homens. Duas lutadoras invencíveis – foi o que me pareceram.
Ontem, conheci dois homens (pai e filho) ferreiros. Mostraram-me lances da arte do ferro e do fogo. Vi, deles, as alfaias e as ferragens novas.
Hoje é hoje. Na rádio, as vozes delas e deles retornam ao éter. Faço de altifalante. Pego em vidas, torno-as ouvidas.
Impossível não gostar desta gente. Na casa da moleira, as estruturas de produção envelheceram com a mestra do ofício. Inquietei-lhe o gato, um bicho negro e lustral que se escapuliu entre tabuamentos ruídos. À porta da tanoeira, no pátio, ouvi e vi o correr da água para o tanque, para as árvores fruteiras. Na oficina dos ferreiros, consultei sem dicionário de rimas o duro lirismo dos oficiais de toda a vida, todo o ferro, todo o fogo.
Gravei orgulho e humildade. Magnetizei algum tempo. Estou, portanto, ainda a tempo. Posso ser moleiro, tanoeiro, ferreiro, repórter. Posso estar vivo para além da mecânica da respiração, do frenesim onírico, da roda alimentar, da enxúndia bibliográfica.
Pela tardinha, arrumado o gravador, quando o mel do sol coagula casas e veredas, uma pessoa é outra vez gente. Eu sinto. Os lugarejos, semeados pelo vento a toda a extensão do vale, pepitam de candeeiros. Um fio de azeite frita peixe miúdo. O louco que pede cigarros sossegou sob a tília, ei-lo que boceja imune como um cachorro.
Mulheres vivas, ausentes homens – o jogo é de sempre. Compreendo a minha função, exerço-a, não lhe chamo destino, chamo-lhe função. Formiga laboreira, acumulei víveres no carro. Pensar é conferir bronze à lata de viver. Não penso muito.
Às nove da noite, o ontem dos ferreiros reviverá no futuro escuro da rádio. Escuro e furtivo como o gato da moleira.
Não ligo o rádio: ainda é tudo tão cedo.



Caramulo, tarde de 27 de Julho de 2006

27/07/2006

Antes da Noite de 25 de Julho de 2006

1. Verificação do Cenário

O futuro era isto.
Ao cenário falta apenas acção.
Há casario, há arvoredo.
A estrada existe.

Há resina, há azeite.
A loja expõe melões.
Um inválido de olhar transparente
espreita, de entre cortinas, para
baixo.

Homens de pele cor-de-ouro
brilham sem querer
ao derradeiro sol do dia, digo,
do futuro.



2. Xilo

Para escrever quanto me lembro de ti
fui comprar um lápis, mas esqueci-me quase
de ti por causa da loja, que era
muito triste e bonita, o chão de madeira,
as paredes de madeira, a cara da
velhota de madeira, de madeira a louça,
de madeira os tapetes, os frascos, os azulejos,
o ar.
De tudo isto verificarás quão fácil é quase
lembrar-te.
Basta alguma madeira e
alguma arte.



3. Promessa

Ainda demoro um pouco.



4. Punho

Seres tão bonita não me afecta.
Essa esquerda perna soerguida como a perna esquerda
da letra A não me treme.
Nem a liquidez orquideada das pestanas me faz sentar.
Não. Já não.
Posso discorrer sem sobressalto
em torno da lembrada baía reentrante
da barriga, seu delta, sua fenda.
Mereci esta sobrevida.
Confesso, muito lati, outra hora.
Hoje? Tenho um lápis novo, um dia
que envelhece e desce
das árvores
como um macaco de luz.
Os teus pés perfeitos, desenhados pela
ausência de chão, nimbam-me não
mais.
Nem sei se viceja ainda, cordilheiro, o
tufo vertical de pêlos de ouro
vertebrais.
Basto-me: punho-me, lapiseiro.
Afligiu-me apenas, algum tempo, a conversa dos
outros homens. Garantiam eles a existência de
outras mulheres.
Nisso nunca cri.
Disfarço hoje que creio.
Vejo as mulheres deles: passam alheias
como importadas brisas.
A vida é quanto
basta para que
os dias se tornem anos
como o vento se torna movimento
no ramo da árvore.
Não é assim?
Assim é.
Fluo.
Às vezes, a luz é estrepitosa
como uma règuada.
Um homem também sente.
Finge apenas que não, que
guia tão-só carrinhas a gasóleo,
mercadorias, ir-e-vir-180-quilómetros.
Nada contra isso,desde que
paguem ao fim do mês.
Com o dinheiro novo, compra-se
um lápis novo e escreve-se
para se dizer que se não
lembra.



5. Soneto Heráldico

Podemos sempre, naturalmente, ignorar
a família e estudar heráldica.
Esfregar sabão nos azulejos, dar de costas neles,
afirmar depois que se lavou o corpo todo.

E ser consciencioso: também se pode.
A bem ver, pode-se tudo.
Basta reler o Conan Doyle,
acertar-se à quinta vez no criminoso.

Um amigo meu comprou, mas com
a mulher, uma vivenda por
dezoito mil contos. Foi um bambúrrio,

Digo, o achado. Tenra relvagem afronta
a casa, garagem depois, atrás. Não
ignorantes, heraldizaram-se um do outro.



6. Outro, Mas Agora Menos

A luz pulsa, da farmácia.
Bronqui'árv're tosse d'ar.
Gema d'ovo dá d'acácia,
sinto o corpo farfalhar.

A manteiga é tão cinzenta,
tão nojenta a margarina.
Diga-m'agora, menina,
'm'é q'um home' s'á-d'aguentar.

Fixa triste na janela
o além-campo litoral.
Tule e gaze dão por ela
flu'rescente, seminal.
Nasci perto do Mondego,
minha vid'é sem sossego.



7. Carlos de Oliveira Tinha as Suas Coisas

Animal cansado, capô de peito,
moreno talvez - nunca te vi mais
gordo.
Bicho semântico, quantas vezes
ministrei vocabulário (dizia-se
léxico) teu a incautas crianças.
Gostavam, aliás:
do que um morto é capaz.



8. Tenho de Ir Jantar, de Modo que um Fado

Rio é mar sem um diploma
sem curs'universitário
gaivota não é paloma
camelo n'é dromedário

Tu não faças confusões
e compra mãe-ciclopédia
põe de lado uns tostões
p'ra fazer ver ós ganhões
que tu és da classe média

(agora todos)

Somos bairristas
da bandeira nacional
somos sacristas
mas ninguém nos leva a mal
país d'Amália
Luís Figo e Belmiro
se m'atirar só m'atiro
p'la honra de Portugal

Caravelas cinco c'roas
peida-se o Vasco da Gama
damões dius tudo goas
penico baixo da cama

S'ingurança social
ó Estado pró-vidência
ETA Brigadas Vermelhas
'té tu Papa t'ajoelhas
a Cristo e à violência

(agora todos etc..)

25/07/2006

Entardecer de 24 de Julho de 2006

Prólogo

Vivi ontem um dia tranquilo. O calor não exagerou. O dia de trabalho formigou-se bem. As horas foram de areia. Havia brisas verdes e canárias, cantavam de fresco nas tílias e nos cedros. Cirandei a meu mesmo lado como um companheiro inelutável. Tinha lido bastante, sobretudo coisas necessárias ao trabalho. Pelo fim da tarde, mereci uma hora na esplanada do Avenida. É a tal sob tílias, as mesas são de ferro pintado por ingénua mão. Tinha papel e lápis. Saíram três textos. Dou-vo-los.

1. Casa Pouco Pia

Nunca tive filhos homens, por isso escrevo-os.
São os meus homens rumorosos, partidos cacos
de espelho. São os meus meninos.
Personagens? OK, está bem, personagens. Mas
gente masculina, gente geralmente só,
em pensões, mecânicos de autocarros,
advogados, professores, electricistas,
farmacêuticos,
geralmente sós,
em pensões.
São a minha galeria.
As letras de galeria
dariam
alegria,
já vistes?
Não dão.
Geralmente sós,
os meus meninos.



2. Já Agora

Está tudo bem.
O Manel não ligou.
Suponho que a Mãe
finalmente aceitou.



3. Guião-Sinopse para um Programa do Professor José Hermano Saraiva

Raspas de corno
unha de gata
amor-alcatifa
co'a Sé concordata

Ó Gomes da Costa
28 de Maio
é tudo uma bosta
desabril desmaio

D. Carlos coitado
vindo da caçada
levou c'a chumbada
banhudo caçado

Ó Tó-Zé d'Almeida
Ó T'ó'filo Braga
ó levar na peida
muit'o povo caga

Vei'a tuberculose
mu'to povo limpou
n'há rico que goze
t'm'ém ele chupou

Em Vila Viçosa
florbelo irmão
mu'ta a gente goza
co' sexo da mão

Ó Nicolau Bráina
Da velh'RTP
tu sabes da faina
iss'a gente vê

Pátio das Cantigas
Costa do Castelo
Broches às urtigas
Q'o mamar é belo

Minet'é limpinho
Conforme a senhora
'té Jesus bebèzinho
limpou manjedoura

Esta casa q'aqui vedes
nela cagou d.afonso
oxiúros de tão verdes
ó cu mesmo deram responso

Ó 1º de Dezembro
ó 24 de Julho
ó país de que não lembro
tanta porra de entulho

No nosso próximo programa
daremos em 1ª mão
florbelinha que muito ama
(é segredo, é o irmão!)

21/07/2006

Mãos Velas

Há mãos mais belas do que mulheres inteiras.
Não tocam os objectos, dizem-nos.
As outras mãos são objectos, perante elas.
Essas mãos não dão nunca a mão.
Não têm idade nunca.
Semelham jamais ter nascido.
Nunca as vi mortas, pousadas embora,
algumas, sobre vazios cascos, de gente,
na igreja, velas ardendo.
Não amo tais mãos, acho-as só
sós. E belas.
Torcem-se de sangue e ossos.
Ganham sol, aranhas morenas.
Algumas dizem adeus no vidro
dos comboios.
Outras pulsam a linha de pesca.
Umas têm dinheiro, outras
pedem-no.
Todas iguais, rumorosas todas.
Como insolentes crianças cheias
de inteligência macabra.
Só se calam quando chegam
à poesia: é vê-las
então, mamando
do próprio veneno.



Caramulo, noite de 20 de Julho de 2006

19/07/2006

Três Homens mas já Nenhum Rio

São dois homens sentados em cadeiras de ferro pintado de azul. O chão foi acimentado há muitos anos. Gretas sulcam-no, enveredando formigas. Um dos homens levanta-se, a rua é a descer, ele desce até desaparecer do lado direito, em baixo.
Se eu agora pegasse num lápis de cor e pintasse o percurso dele, obteria mais do que um traço sinuoso. Obteria o rio dele. A greta de sombra que ele sulcou, abandonando esta nascente de dois homens. Sem ele, eu faço de segundo homem. Estamos em mesas separadas. Estamos sob as tílias. A luz é muito doce. Lá dentro, na sala de café, não tardará muito que o televisor comece a expectorar o telejornal. Líbano, pedofilia, incêndios, banco-de-portugal, hóquempatins, desfile de moda. Não possuo, sequer, um lápis de cor.
O rio do homem secou, entretanto. Ressinto a facilidade mortal com que secam os rios da passagem dos homens.
Entendi, finalmente, a História: as coisas são as coisas são as coisas são as coisas. Tanto tempo. E finalmente. Ou: e inicialmente. É bom. Sinto-me bem. Pena - só dispormos deste corpo traçador de rios deléveis. Se eu fosse, se eu pudesse ser os três homens - o que vai, o que fica, o que imagina um lápis de cor.
Belas tílias, entretanto. Chupam a água de sob o cimento. Deflagram interminavelmente. Gretam o cimento: querem olhar para baixo e voltar a ver a terra. Sobre o cimento, os meus sapatos muito correctos. Dentro dos sapatos, os meus pés portugueses. Lembro-me de ter metido estes pés num rio verdadeiro. Foi há muitos anos, mas já estas tílias existiriam.
Meter os pés no rio foi como molhar o coração. A floresta, nas costas do terceiro homem, subsistia dele. Digo - do rio. Nesse dia sem data (as coisas são as coisas são as coisas são as coisas), não poderia nunca ter-me ocorrido traçar de cor o rio. Quem já o traçava era uma mulher de quatro anos de idade. Assisti a tudo: a alegria dela era frondosa como um agrupamento, tantos anos depois, de tílias. Sim, ela era metade da razão por que o Verão se solsticia: para que nele fulgurem águas e crianças.
Reparo que, por momentos, não estive sob as tílias. O outro homem desapareceu, neste lapso. Não pude traçar o rio dele. Ficamos eu e algumas formigas. O telejornal vai nos incêndios. As tílias são as tílias são as tílias são as tílias.


Caramulo, tarde de 18 de Julho de 2006

18/07/2006

Fado-Tango da Rosa Plastificada

1
Cada um em seu destino
trata da vida a correr
é assim desde menino
é assim até morrer.

2
Todo o dia se faz anos
todo o ano anoitece
quem pode à noite esquece
do dia os desenganos.

ESTRIBILHO
A rosa plastificada
sentinela à cabeceira
primavera congelada
falsa à tua maneira.

3
Estou a meio da vida
mais metade entretanto
fica-me a letra vencida
reformada no que canto.

4
Tenho andorinhas de barro
no muro crucificadas
à janela de cigarro
voo de asas paradas.

5
Às vezes por distracção
sou feliz não digo nada
tépido o meu coração
é uma rola sossegada.

6
S'a filarmónica passa
alecrim e rosmaninho
sino não tange desgraça
Deus é pão o Deus é vinho.

7
Minha casa é lusitana
naperons e guardanapos
acolchoam a choupana
são garridos os meus trapos.

8
Desde que te foste embora
mais sobra onde arrumar
o sal que um homem chora
põe-se ao sol a secar.

9
Sobe a Lua argentina
ó prata do mar estrelado
tenho deitado a meu lado
um fantasma de menina.

10
Ela cresce é rapariga
é dengosa é mulher
nada conta só castiga
quanto um homem lhe quer.

11
Hoje faz-se a luz vapor
algodão que queima a sede
no campo passa um tractor
vermelho em milho verde.

12
No solar abandonado
Camilo Júlio Dinis
na taberna sossegado
meu coração é perdiz.

13
Todo o antes é depois
ilusão de saciedade
um mais um nunca são dois
são só dobro de metade.

14
Vejo noivas engordadas
fotografadas a sós
luzentes acetinadas
e beijadas por avós.

15
Pisca o estio seu luzeiro
clarões flasham milharais
depois o céu em chuveiro
quer chorar 'té nunca mais.

16
A cois' assim se sucede
não se mede o infinito
antes que um anjo se quede
fica o não dito por dito.

17
Da infância refogada
ó cheiros da mãe-cozinha
a alma nasce sozinha
sozinha é entregada.

18
Verifica a tua rosa
tu não lhe queiras geada
qu'embora plastificada
dá ilusão de viçosa.

19
Certa terça-feira um dia
Vi que chovia à maneira
parecia a vida inteira
na quarta 'inda chovia.

20
Num repente fez-se sol
barra azul de giz o mar
m'estendeu o seu lençol
só p'ra nele m'eu ir deitar.

21
Não deitei fiquei n'areia
não me falta embarcação
não a vida não é feia
tem remos o coração.

22
Guardo dentro da carteira
a etiqueta de um gelado
que a minha filha matreira
deu depois de o ter papado.

23
Junto a Sua Santidade
a etiqueta deformada
podeis rezar à vontade
não é quadra blasfemada.

24
Eu não queria mas vivo
do lusco-fusco a manhã
tarde noite sobrevivo
coraçãozito-romã.

25
Muito tenho eu vivido
em certa literatura
não compensa tanto lido
o viver que se procura.

26
1800 sessenta e três
Júlio Dinis para a sobrinha:
fui renovar a covinha
que cavaste outro mês.

27
Covinha fui renovar
teus 13'anos minh'alma beija
adro da igreja d'Ovar
já morremos assim seja.

28
Uns baguitos de arroz
marmelada aos quadraditos
ceia que a si mesmo pôs
o T. Braga entre escritos.

29
Havia o Pinheiro Chagas
merda escuma portuguesa
ao Eça 'inda hoje pagas
c'os colhões e c'a tristeza.

30
Não é triste o meu viver
papéis voam pela casa
sou mais ave d'anoitecer
não me falta o golpe d'asa.

31
Minha mãe lavou retretes
na estação dos Correios
meu pai via bicicletes
e sonhava sonhos feios.

32
'screvo como quem procura
sentido orientação
'inda não é a loucura
'inda não a salvação.

33
Talvez venha se vier
o remanso prometido
não ser homem nem mulher
ter-se apenas nascido.

34
Ter-s'apenas merecido
por nascer em Portugal
idioma escrito e lido
fado-tango coisital.

35
À mesa da cabeceira
ó rosa plastificada
ist'é insónia parvoeira
faz favor não digas nada.

(ESTRIBILHO à vontade do cantor)



Caramulo-Campo de Besteiros-Tondela-Caramulo, manhã de 12 e manhã-tarde de 14 de Julho de 2006

17/07/2006

Calor

Movimento-me devagar no plasma, peixe de boca aberta no aquário desconforme da luz. Que a luz é tão intensa, que desfoca a aldeia do Carvalhinho, esse presépio partido na língua de serra suspensa sobre mais nada. Babam sombra as crianças terminais do lar de velhos. Estão na xaroposa realidade, talvez alheias à loucura de viver. Consomem remédios, papas, garrafas de água, bolachas moles que se lhes empastam nos interstícios das próteses dentárias.
Eu ainda passo. O coração bate-me contra um fundo de alguidar. Os ossos guincham-me de esferovite. É o dia décimo deste julho irremediável. Ao almoço, como um operário da minha infância, comi bacalhau. Lavei a cara com água morna, purgatoriei uma sesta benigna que as moscas serraram a meio. Voltei ao trabalho como um sonâmbulo. Às vezes, custa um pouco mais do que o preço exposto. Eu digo – viver. Outras vezes (mas não é este o texto), é bom. “E a quem alçaras/O gemente clamor? Ao mar, que as ondas/Não altera por ti?” Isto é Alexandre Herculano, n’A Harpa do Crente. O mar. É longe disto aqui. Ouço-o na cama, quando me espiralo como um búzio fetal. Ouço-o no vento que dá nos cedros, raspando o vento de ondas os cedros.
Tive um cedro, na infância. Tive tudo, na infância. O amor batia-me na cara como uma epifania. Tudo fazia sentido. O mundo era completo como um ovo e cantor como um galo. Um ananás totalizava a maravilha. Como me não impuseram Deus, só tive de acreditar no ciclismo. Hoje, é o calor. Umas vezes, bacalhau. Toucinho, outras. No púcaro de folha, o café para soprar à janela nocturna, de onde verificar o vento nos cedros. Faço sempre isto: que é não existir senão por antecipação da matéria textual, instante merecido do mundo – ovo, cantor – a que só posso chamar poema.
Por outras palavras, tenho saudades do frio. No outro dia, a gata fugiu-me para um sanatório abandonado. Entrei por um vidro partido, andei pelas salas desertas. Impressionou-me a quantidade de penicos de esmalte. Onde eram os quartos, só o desenho geométrico. Arrancaram madeira e caliça, levaram os móveis e os apetrechos. Andei pelo deserto dos fantasmas. Encontrei a gata, tomei-a, resgatei-a do limbo.
Saímos para o ar muito puro do presente. Era um dia de sol, mas não deste calor. Em casa, cozinhei peixe para ambos, ela quis água, eu quis café. Ainda não tinha pegado n’A Harpa do Crente. Já tinham nascido as moscas que podem enlouquecer um homem.
Agora, calma. Calma é calor. Construo o meu texto – a minha vida encalmada. Também me acontece retocar de verniz a geografia por onde me venci e perdi: Praia, Bruxelas, Foitos, Figueira da Foz, Peniche, Braga, Setúbal, Adémia, Vigo, Viseu, Sevilha, Bairro da Relvinha, Alcobaça, Lisboa. Tudo se recondensa na serra. Sou abençoado, cada noite, pelo cinema do sono. Deflagra-se-me o litoral na cerração das pálpebras. O céu da serra, mar alto, sardinha-se de estrelas. Sou devolvido ao oceano amniótico. Pulso. Tenho uma cabeça de astronauta transparente. A nave-mãe não será velha nunca, nunca a verei, quando do bacalhau regresso, entre as crianças senis do lar de penicos e extraviadas gatas.
Movimento-me no plasma, faço por merecer a noite. Hoje, tenho ainda de visitar um político de aldeia, depois um concerto de jazz, depois o velocímetro do carro galgando o dia ganho caminho da cama. Amanhã, dia undécimo deste julho remediado, verei acrescida a conta de meus calores. Sobrou bacalhau. Hei-de pentear de água a couve inconsútil, esfaquear o queijo açoriano, encebolar o rubro tomate, torrar o pão a banhar de manteiga, fazer café. Enquanto não, encalmo de pó o meu texto. O meu corpo, tépido de alguidar, rasa as torneiras. Estou sossegado nele. A tristeza não mata depressa – é um napalm lento. Espera-me na aldeia o político. Na cidade, o jazz. Ainda há tempo, é tempo ainda. Quatro homens chucham caracóis na primeira mesa à esquerda de quem entra. Deixo-me, devagar, passar. É certo o vento, certo é o sol. Casais tensos como arcos farão crianças hoje. Gente só alugará um videofilme. As luzes pirilamparão na noite encalmada. O vento cheirará, no sono, a ananás.


Caramulo, tarde de 10 de Julho de 2006









13/07/2006

Cambra

(Quarto-quadro -e quadras; fita de luz-lua-néon diagonal: sentido céu-janela-cama; rapariga madura deitada de lado; cabelos escuros.)

Esta cama não é minha.
Minha não é esta cama.
Sou a virgo aqui sozinha.
Nunca mais me fazem dama.

(Olhar de cima-tecto; cama larga; duas mesinhas-de-cabeceira: uma inútil; rapariga alonga o braço direito fora da colcha; mão esquecida sobre o útero.)

Posso eu, se quiser,
arranjar qualquer amor.
É reguengo de mulher.
Assim mo disse o doutor.

(Quarto-chambre-cambra-câmara: deslocação do olhar para os pés da cama; deslocação rápida por baixo: um copo de plástico tombado, um lenço de papel amarfanhado, uma revista feminina partida como uma borboleta.)

Eu de dia, lá na caixa
do superminimercado,
só penso em meter baixa
e fugir p'ra qualquer lado.

(Entra aquela música dos violinos: uma qualquer que não dê para dançar; visão romântica: à janela, a cortina respira brisa; relance, quando a cortina sobe, do cedro e da lua.)

Deitada tenho 20 anos,
outr'idade dia afora.
Eu da sombra uso os panos.
Vou ligar a luz agora.

(Flash branco: tipo raio; trevas imediatas; a janela bate; cortina frapeja no exterior; chuva grossa; revista sob a cama folheia-se sozinha; o copo rola; o lenço foge; ela recolhe o braço para dentro; e termina:)

Amanhã, domingo, hei-d'ir
à capela da Agonia
deixar rosas a florir
trinta noites e um dia.

(Trevas definitivas.)



Caramulo, manhã de 6 de Julho de 2006

12/07/2006

XXX

I
Convoco a minha força.
Dor, humilhação, ultraje, alegria
- rostos do que convoco.
Não chamo por ninguém
- força é força.

II
Sobre o lado esquerdo,
a muralha de pedra
defendida do mar
pelo farol vermelho.
O mar perto e rondando,
como uma orca.

III
Não chamo por ninguém
- e no entanto sou escutado,
não por ouvidos, mas por mãos
pequenas, brancas pequenas mãos.
Ressinto isso.

IV
Às vezes, na cozinha, com
o meu feijão verde, o meu
pão d'ontem, os meus pés
descalços como mãos falidas,
às vezes repouso.

V
Isto está sempre a acontecer
- a convocação. O meu
peito, alcatroado de cigarros,
silva como serpente de mamilos
sem leite nem crias.

VI
Hoje, ouvi música. Ou ontem.
Música acontecida a um homem
que, aos 64 anos, se pergunta:
- Ainda faço sentido?
Li as palavras dele. Ele faz.

VII
Eu também faço. Um homem
é um homem: é a força.
Ou o chamar por ela.
Também ressinto isso.
As minhas mãos cresceram.

VIII
Estou atento à palavra
que diz - Pássaros. Se essa
palavra voa, aqui poisa.
É o milagre do meu ofício:
vejo por isto a volta da força.

IX
Sou amado por desempregados
deuses. Não têm mais que fazer,
amam-me. Reverto-lhes o meu
agnosticismo o mais cínico.
De modo que os amo, também.

X
Isto aconteceu-me: o idioma.
Uma vez, no cais sobre a foz,
vi um pederasta cigano
amaciar as palavrinhas.
Também lhe acontecera.

XI
Não podes matar o passado,
não podes renascer.
Matar é errado.
Renascer é errado.
Só não poder é certo.

XII
O homem que transporta
galinhas passeia com a
mulher dele. Ela deixa
cair penas no chão. Ele
apanha-as, guarda-as. Profissional.

XIII
Ao crepúsculo, a brisa fria.
Rondo, orca, minhas muralhas.
Na volta da fonte, o canto
pelas costas da água. Isto
não é, ainda, o mar. Será.

XIV
Ou não será. O que for,
faz-se consoante as vocais
respostas da força. Não vejo,
às vezes não vejo. Nem olho.

XV
Tenho obedecido a retratos.
Pressa de rosa - pressurosa vida.
Os pés fincados na terra. As
orelhas diademadas de salitre,
a cabeça como um farol vermelho.

XVI
Na cama, abdico da força.
A cabeça, estratossolta, pincha
no ar como um balão de Verne.
Os pés tossem. Abdico. As mãos
fatiam-se de dedos que
afagariam.

XVII
Ou se afogariam, incautos.
Têm força, estas mãos.
Só que não pensam. Esmagam
dentes de alho, fotografias.
O meu problema é que
também fazem versos.

XVIII
A esquerda, menos.
Mas no café é ela quem
dá as cartas. Tira, por
cima ou por baixo, o
transitório trunfo.

XIX
Não existe mais ninguém?
Eu às vezes pergunto.
Falta-me religião para
crer que sim. E no entanto
ouço vozes: lã de som,
de amortecidas ovelhas.

XX
Homens que vi: bigodes de
flanela espumada, cortes
de escocês os cachecóis,
perpétuas constipações deles
penduradas como lustres.

XXI
Vejo que, hoje, a minha força
se faz rogada. Santa caseira,
a minha força de homem
a pouco mais de meio
caminho.

XXII
Sob os plátanos, deles através,
o enlouquecido canta
"gaivota que andas perdida".
Deve estar a gozar, digo
eu, sob os plátanos.

XXIII
Mulheres que vi: bigodes de
escamadoras de peixe, sanguíneas
de alimentação, deformadas
de caçoilos, ânforas havendo
sido, alguma vez, para o
pescador.

XXIV
Tenho pena de não dar
notícias concretas. Aero
ou cabogramas. Algumas
linhas que dissessem de
mim, salvo estas.

XXV
Em outra vida, disseram-me:
- Agora nada, uma pausa.
Eu entendi:
- Agora tudo, uma breve.
Assim se fala de música.

XXVI
Mas não sou o homem de 64 anos.
Faço só esta música, que me
escusa de perguntas. A mão
esquerda galga a mesa, a
folha: a mão esquerda é
mais outonal.

XXVII
A mulherzita das couves
traquiteja, diligente, rumo
a casa. O sol já foi,
a lua será, ela é.
Sagrado Coração de Jesus.

XXVIII
Ou então a mulherzita
professora, diligente, gizando
as moléculas, o pretérito
imperfeito, a união europeia.
Também Sagrado, também Coração
e também Jesus.

XXIX
Ou então o homem das galinhas
aerocabotransportadas, sua
rouquidão suspeita, seu
cavername tabágico,
sua pena suspensa.

XXX
E eu aqui à espera dela.
Talvez tenha pousado no meu
ombro como um papagaio
mudo. Força, ó força.
Desempregada como um deus
dos meus.



Caramulo, anoitecer de 5 de Julho de 2006

09/07/2006

Teletexto

Uns baguitos de arroz, uns quadraditos de marmelada, uma
cafeteira de café: este o jantar, segundo Julião Quintinha,
de Teófilo Braga, perto de morrer-se.
A televisão deste fim-de-semana não me o recordou: vi
corpos elasticados, tvdourados como fritos de capitão iglo,
nadegando fissuras espermatizáveis junto a lusos litorais.

E vi mais.



Caramulo, noite de domingo, 9 de Julho de 2006

07/07/2006

Vencimento e outros Poemas de 4 de Julho de 2006

1. Vencimento

Sei que está certo procurar, como sei que achar
é incerto. Em vão numeramos os dias, pois que
as noites são devoradoras de algarismos.
Assim é. Não é
a tristeza poderosa, mas a sua memória: a
nostalgia dela.
Fruto é da civilização, tristeza tal.
Em bifes de cervejaria molhamos o pão
alheio de cada dia.
Não hemos escorrido do padeiro o suor,
nem sua insónia profissional.
Somos os mesmos democráticos outros, nada
nos enche, tudo nos emprenha.
Valha-nos a palidez do bibliotecário, o dele
tédio funcionário, sua fartura
de volumes.
De Yeats se retenha, em péssima própria tradução, que
Carecem os melhores de convencimento, enquanto
aos piores assiste apaixonada convicção.
Sei que está certo não convencer-me.
Vencer-me, sim.



2. Higiene

Nenhuma razão tens, o que não equivale
a que nenhumas razões te assistam.
Se no idioma se fecham
horizonte e janela, mantém limpo,
ao menos, o quarto.



"As razões são tanto o que somos, que só nascendo outra vez as poderemos renegar."
Vergílio Ferreira, Adeus (in Contos)





3. Mas as Crianças, Senhor

Relato televisivo sobre menina adolescente suicida.
Alegados maus tratos do pai
levaram a três tentativas num mês.
Depois lá conseguiu, com a arma dele.
Em criança esfaqueava o boneco Ken,
marido da Barbie.



4. Pano

Drama social e tragédia
não são, dramaturgicamente,
a mesma coisa.
Ora ainda bem.
Suba o pano.



5. Vero

Verdade Total e Verdade Local
e Verdade Individual.
Toda a alma é guarda de corpo.
Ambicionamos um ligeiro
comercial a gasóleo, uma que outra
excursão ao paraíso da vitela assada,
domingos flébeis, sossego de
candeeiro laranja na sala de leitura.
Somos pobres-de-pedir, não tão
pobres a pedir, pobríssimos.
Não desejo qualquer Verdade.
Mente-se para viver-se:
esta é que é a verdade.



6. À Margem

Quero dormir rente a um rio.
Não é pedir muito,
mas é muito, por pedir-se.
A quem, ao quê, aliás, pedir?
A miséria provém da perda
de autonomia.
A miséria não é a falta, mas
o verbo.
Reside ela na repetida ausência
de acção.
Porque há rios todos os dias,
sons todas as noites.
Falta-se o homem.



It is true to say, I think, that the language of the family is the language of the private life - prose. The language of society, the language of public life, is verse.
Arthur Miller, The Family in Modern Drama, cit. por Dennis Welland in Arthur Miller

06/07/2006

Situação Internacional - Quadras Portuguesas

Portugal seria berço belíssimo
de bombistas-suicidas desde que
se não morresse disso e houvesse
hora de almoço a respeitar.

O país da Santa da Ladeira
não percebe nada de Deus.
Pois se nem sequer tem judeus
que se vejam, valha-lhe Deus.

Portugal palestina-se só nos incêndios
de Verão. Extremidade cagada a sul
da europeiunião, país-praia
tira-mete-bandeira-azul.

Vivemos bem, atenção. Ainda hoje
almocei cozido à bandeira nacional.
Comer farinheira não quer dizer
que se não conheça Fialho de Almeida.

Vi um coiso fascista na internet.
Português, fez filhos. Ele já morreu.
Mas os filhos coiso ponto com.
Mandei cortar a luz.

Mas ao sol, de rubra opa,
segura o terno cidadão
a cruz de jesuseuropa,
chefiando a procissão.

Vem aí o mês de Agosto.
Em Moimenta, o émigrã
pode dizer com desgosto
ó que seita ucranianã.



Caramulo, tarde de 6 de Julho de 2006

Pastoral dos Filhos

para a Gracita, que sabe
Vê pois tu como se nos tornam os filhos
meninos-de-rua.
Parece-nos, a nós, impossível como assim,
quando de nós mesmos não fizemos ainda
gente grande.
Eles aí andam, vestidos já de roupas
que lhes não comprámos.
Os livros aprenderam-nos uma vida
parada, paginada, compaginável.
Inimaginável é a outra, a vida
deles.
Como estão agora? Jantam sozinhos?
Terão frio? Imaginam o quê?
Saíram-nos do corpo, não do
pensamento.
Aí estão presos, ilusão nossa.
Estamos quietos como Saturno,
anelamos por eles.
Frescos, tristes, cansados como borregos,
ouvimo-los que balem.
Sonhamos com o Lobo.
Somos o Cão.
Já os amamos para além de nós,
o que não impede tenhamos
sempre um pouco de erva tenra
para eles.
Caramulo, manhã de 6 de Julho de 2006

Canzoada Assaltante