Tuesday, July 18, 2006

Fado-Tango da Rosa Plastificada

1
Cada um em seu destino
trata da vida a correr
é assim desde menino
é assim até morrer.

2
Todo o dia se faz anos
todo o ano anoitece
quem pode à noite esquece
do dia os desenganos.

ESTRIBILHO
A rosa plastificada
sentinela à cabeceira
primavera congelada
falsa à tua maneira.

3
Estou a meio da vida
mais metade entretanto
fica-me a letra vencida
reformada no que canto.

4
Tenho andorinhas de barro
no muro crucificadas
à janela de cigarro
voo de asas paradas.

5
Às vezes por distracção
sou feliz não digo nada
tépido o meu coração
é uma rola sossegada.

6
S'a filarmónica passa
alecrim e rosmaninho
sino não tange desgraça
Deus é pão o Deus é vinho.

7
Minha casa é lusitana
naperons e guardanapos
acolchoam a choupana
são garridos os meus trapos.

8
Desde que te foste embora
mais sobra onde arrumar
o sal que um homem chora
põe-se ao sol a secar.

9
Sobe a Lua argentina
ó prata do mar estrelado
tenho deitado a meu lado
um fantasma de menina.

10
Ela cresce é rapariga
é dengosa é mulher
nada conta só castiga
quanto um homem lhe quer.

11
Hoje faz-se a luz vapor
algodão que queima a sede
no campo passa um tractor
vermelho em milho verde.

12
No solar abandonado
Camilo Júlio Dinis
na taberna sossegado
meu coração é perdiz.

13
Todo o antes é depois
ilusão de saciedade
um mais um nunca são dois
são só dobro de metade.

14
Vejo noivas engordadas
fotografadas a sós
luzentes acetinadas
e beijadas por avós.

15
Pisca o estio seu luzeiro
clarões flasham milharais
depois o céu em chuveiro
quer chorar 'té nunca mais.

16
A cois' assim se sucede
não se mede o infinito
antes que um anjo se quede
fica o não dito por dito.

17
Da infância refogada
ó cheiros da mãe-cozinha
a alma nasce sozinha
sozinha é entregada.

18
Verifica a tua rosa
tu não lhe queiras geada
qu'embora plastificada
dá ilusão de viçosa.

19
Certa terça-feira um dia
Vi que chovia à maneira
parecia a vida inteira
na quarta 'inda chovia.

20
Num repente fez-se sol
barra azul de giz o mar
m'estendeu o seu lençol
só p'ra nele m'eu ir deitar.

21
Não deitei fiquei n'areia
não me falta embarcação
não a vida não é feia
tem remos o coração.

22
Guardo dentro da carteira
a etiqueta de um gelado
que a minha filha matreira
deu depois de o ter papado.

23
Junto a Sua Santidade
a etiqueta deformada
podeis rezar à vontade
não é quadra blasfemada.

24
Eu não queria mas vivo
do lusco-fusco a manhã
tarde noite sobrevivo
coraçãozito-romã.

25
Muito tenho eu vivido
em certa literatura
não compensa tanto lido
o viver que se procura.

26
1800 sessenta e três
Júlio Dinis para a sobrinha:
fui renovar a covinha
que cavaste outro mês.

27
Covinha fui renovar
teus 13'anos minh'alma beija
adro da igreja d'Ovar
já morremos assim seja.

28
Uns baguitos de arroz
marmelada aos quadraditos
ceia que a si mesmo pôs
o T. Braga entre escritos.

29
Havia o Pinheiro Chagas
merda escuma portuguesa
ao Eça 'inda hoje pagas
c'os colhões e c'a tristeza.

30
Não é triste o meu viver
papéis voam pela casa
sou mais ave d'anoitecer
não me falta o golpe d'asa.

31
Minha mãe lavou retretes
na estação dos Correios
meu pai via bicicletes
e sonhava sonhos feios.

32
'screvo como quem procura
sentido orientação
'inda não é a loucura
'inda não a salvação.

33
Talvez venha se vier
o remanso prometido
não ser homem nem mulher
ter-se apenas nascido.

34
Ter-s'apenas merecido
por nascer em Portugal
idioma escrito e lido
fado-tango coisital.

35
À mesa da cabeceira
ó rosa plastificada
ist'é insónia parvoeira
faz favor não digas nada.

(ESTRIBILHO à vontade do cantor)



Caramulo-Campo de Besteiros-Tondela-Caramulo, manhã de 12 e manhã-tarde de 14 de Julho de 2006

6 comments:

Anonymous said...
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Fanette said...

Para o anónimo que não dá a cara :
T'est un mec qui articule
L'âge idiot
Qu'on a les yeux plus grands que le ventre
Qu'on a les yeux plus grands que le coeur.

Para ti Daniel:
L'aventure commence à l'aurore
A l'aurore de chaque matin
L'aventure commence alors
Que la lumière nous lave les mains

L'aventure commence à l'aurore
Et l'aurore nous guide en chemin
L'aventure c'est le trésor
Que l'on découvre à chaque matin.

José Antunes Ribeiro said...

Caro Daniel!Pensei que este tipo de gente se tinha quedado no tempo da outra senhora...Vejo agora que estou enganado.
Desde quando é que o insulto gratuito é uma forma civilizada de expressar opiniões?!...
E, no entanto, a terra move-se!...
Um abraço solidário do
José A. Ribeiro

daniel abrunheiro said...

haverá sempre gente desta, zé e fanette.
mas também haverá sempre um zé e uma fanette.

Anonymous said...
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