Friday, July 07, 2006

Vencimento e outros Poemas de 4 de Julho de 2006

1. Vencimento

Sei que está certo procurar, como sei que achar
é incerto. Em vão numeramos os dias, pois que
as noites são devoradoras de algarismos.
Assim é. Não é
a tristeza poderosa, mas a sua memória: a
nostalgia dela.
Fruto é da civilização, tristeza tal.
Em bifes de cervejaria molhamos o pão
alheio de cada dia.
Não hemos escorrido do padeiro o suor,
nem sua insónia profissional.
Somos os mesmos democráticos outros, nada
nos enche, tudo nos emprenha.
Valha-nos a palidez do bibliotecário, o dele
tédio funcionário, sua fartura
de volumes.
De Yeats se retenha, em péssima própria tradução, que
Carecem os melhores de convencimento, enquanto
aos piores assiste apaixonada convicção.
Sei que está certo não convencer-me.
Vencer-me, sim.



2. Higiene

Nenhuma razão tens, o que não equivale
a que nenhumas razões te assistam.
Se no idioma se fecham
horizonte e janela, mantém limpo,
ao menos, o quarto.



"As razões são tanto o que somos, que só nascendo outra vez as poderemos renegar."
Vergílio Ferreira, Adeus (in Contos)





3. Mas as Crianças, Senhor

Relato televisivo sobre menina adolescente suicida.
Alegados maus tratos do pai
levaram a três tentativas num mês.
Depois lá conseguiu, com a arma dele.
Em criança esfaqueava o boneco Ken,
marido da Barbie.



4. Pano

Drama social e tragédia
não são, dramaturgicamente,
a mesma coisa.
Ora ainda bem.
Suba o pano.



5. Vero

Verdade Total e Verdade Local
e Verdade Individual.
Toda a alma é guarda de corpo.
Ambicionamos um ligeiro
comercial a gasóleo, uma que outra
excursão ao paraíso da vitela assada,
domingos flébeis, sossego de
candeeiro laranja na sala de leitura.
Somos pobres-de-pedir, não tão
pobres a pedir, pobríssimos.
Não desejo qualquer Verdade.
Mente-se para viver-se:
esta é que é a verdade.



6. À Margem

Quero dormir rente a um rio.
Não é pedir muito,
mas é muito, por pedir-se.
A quem, ao quê, aliás, pedir?
A miséria provém da perda
de autonomia.
A miséria não é a falta, mas
o verbo.
Reside ela na repetida ausência
de acção.
Porque há rios todos os dias,
sons todas as noites.
Falta-se o homem.



It is true to say, I think, that the language of the family is the language of the private life - prose. The language of society, the language of public life, is verse.
Arthur Miller, The Family in Modern Drama, cit. por Dennis Welland in Arthur Miller

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