Wednesday, July 12, 2006

XXX

I
Convoco a minha força.
Dor, humilhação, ultraje, alegria
- rostos do que convoco.
Não chamo por ninguém
- força é força.

II
Sobre o lado esquerdo,
a muralha de pedra
defendida do mar
pelo farol vermelho.
O mar perto e rondando,
como uma orca.

III
Não chamo por ninguém
- e no entanto sou escutado,
não por ouvidos, mas por mãos
pequenas, brancas pequenas mãos.
Ressinto isso.

IV
Às vezes, na cozinha, com
o meu feijão verde, o meu
pão d'ontem, os meus pés
descalços como mãos falidas,
às vezes repouso.

V
Isto está sempre a acontecer
- a convocação. O meu
peito, alcatroado de cigarros,
silva como serpente de mamilos
sem leite nem crias.

VI
Hoje, ouvi música. Ou ontem.
Música acontecida a um homem
que, aos 64 anos, se pergunta:
- Ainda faço sentido?
Li as palavras dele. Ele faz.

VII
Eu também faço. Um homem
é um homem: é a força.
Ou o chamar por ela.
Também ressinto isso.
As minhas mãos cresceram.

VIII
Estou atento à palavra
que diz - Pássaros. Se essa
palavra voa, aqui poisa.
É o milagre do meu ofício:
vejo por isto a volta da força.

IX
Sou amado por desempregados
deuses. Não têm mais que fazer,
amam-me. Reverto-lhes o meu
agnosticismo o mais cínico.
De modo que os amo, também.

X
Isto aconteceu-me: o idioma.
Uma vez, no cais sobre a foz,
vi um pederasta cigano
amaciar as palavrinhas.
Também lhe acontecera.

XI
Não podes matar o passado,
não podes renascer.
Matar é errado.
Renascer é errado.
Só não poder é certo.

XII
O homem que transporta
galinhas passeia com a
mulher dele. Ela deixa
cair penas no chão. Ele
apanha-as, guarda-as. Profissional.

XIII
Ao crepúsculo, a brisa fria.
Rondo, orca, minhas muralhas.
Na volta da fonte, o canto
pelas costas da água. Isto
não é, ainda, o mar. Será.

XIV
Ou não será. O que for,
faz-se consoante as vocais
respostas da força. Não vejo,
às vezes não vejo. Nem olho.

XV
Tenho obedecido a retratos.
Pressa de rosa - pressurosa vida.
Os pés fincados na terra. As
orelhas diademadas de salitre,
a cabeça como um farol vermelho.

XVI
Na cama, abdico da força.
A cabeça, estratossolta, pincha
no ar como um balão de Verne.
Os pés tossem. Abdico. As mãos
fatiam-se de dedos que
afagariam.

XVII
Ou se afogariam, incautos.
Têm força, estas mãos.
Só que não pensam. Esmagam
dentes de alho, fotografias.
O meu problema é que
também fazem versos.

XVIII
A esquerda, menos.
Mas no café é ela quem
dá as cartas. Tira, por
cima ou por baixo, o
transitório trunfo.

XIX
Não existe mais ninguém?
Eu às vezes pergunto.
Falta-me religião para
crer que sim. E no entanto
ouço vozes: lã de som,
de amortecidas ovelhas.

XX
Homens que vi: bigodes de
flanela espumada, cortes
de escocês os cachecóis,
perpétuas constipações deles
penduradas como lustres.

XXI
Vejo que, hoje, a minha força
se faz rogada. Santa caseira,
a minha força de homem
a pouco mais de meio
caminho.

XXII
Sob os plátanos, deles através,
o enlouquecido canta
"gaivota que andas perdida".
Deve estar a gozar, digo
eu, sob os plátanos.

XXIII
Mulheres que vi: bigodes de
escamadoras de peixe, sanguíneas
de alimentação, deformadas
de caçoilos, ânforas havendo
sido, alguma vez, para o
pescador.

XXIV
Tenho pena de não dar
notícias concretas. Aero
ou cabogramas. Algumas
linhas que dissessem de
mim, salvo estas.

XXV
Em outra vida, disseram-me:
- Agora nada, uma pausa.
Eu entendi:
- Agora tudo, uma breve.
Assim se fala de música.

XXVI
Mas não sou o homem de 64 anos.
Faço só esta música, que me
escusa de perguntas. A mão
esquerda galga a mesa, a
folha: a mão esquerda é
mais outonal.

XXVII
A mulherzita das couves
traquiteja, diligente, rumo
a casa. O sol já foi,
a lua será, ela é.
Sagrado Coração de Jesus.

XXVIII
Ou então a mulherzita
professora, diligente, gizando
as moléculas, o pretérito
imperfeito, a união europeia.
Também Sagrado, também Coração
e também Jesus.

XXIX
Ou então o homem das galinhas
aerocabotransportadas, sua
rouquidão suspeita, seu
cavername tabágico,
sua pena suspensa.

XXX
E eu aqui à espera dela.
Talvez tenha pousado no meu
ombro como um papagaio
mudo. Força, ó força.
Desempregada como um deus
dos meus.



Caramulo, anoitecer de 5 de Julho de 2006

5 comments:

G. said...

Lindo!Lindo!
Bj.

Anonymous said...

trelindo!

Anonymous said...

RELINDooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo.
Beijao
Ilda
Buenos Aires

Anonymous said...
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Anonymous said...
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