Monday, July 17, 2006

Calor

Movimento-me devagar no plasma, peixe de boca aberta no aquário desconforme da luz. Que a luz é tão intensa, que desfoca a aldeia do Carvalhinho, esse presépio partido na língua de serra suspensa sobre mais nada. Babam sombra as crianças terminais do lar de velhos. Estão na xaroposa realidade, talvez alheias à loucura de viver. Consomem remédios, papas, garrafas de água, bolachas moles que se lhes empastam nos interstícios das próteses dentárias.
Eu ainda passo. O coração bate-me contra um fundo de alguidar. Os ossos guincham-me de esferovite. É o dia décimo deste julho irremediável. Ao almoço, como um operário da minha infância, comi bacalhau. Lavei a cara com água morna, purgatoriei uma sesta benigna que as moscas serraram a meio. Voltei ao trabalho como um sonâmbulo. Às vezes, custa um pouco mais do que o preço exposto. Eu digo – viver. Outras vezes (mas não é este o texto), é bom. “E a quem alçaras/O gemente clamor? Ao mar, que as ondas/Não altera por ti?” Isto é Alexandre Herculano, n’A Harpa do Crente. O mar. É longe disto aqui. Ouço-o na cama, quando me espiralo como um búzio fetal. Ouço-o no vento que dá nos cedros, raspando o vento de ondas os cedros.
Tive um cedro, na infância. Tive tudo, na infância. O amor batia-me na cara como uma epifania. Tudo fazia sentido. O mundo era completo como um ovo e cantor como um galo. Um ananás totalizava a maravilha. Como me não impuseram Deus, só tive de acreditar no ciclismo. Hoje, é o calor. Umas vezes, bacalhau. Toucinho, outras. No púcaro de folha, o café para soprar à janela nocturna, de onde verificar o vento nos cedros. Faço sempre isto: que é não existir senão por antecipação da matéria textual, instante merecido do mundo – ovo, cantor – a que só posso chamar poema.
Por outras palavras, tenho saudades do frio. No outro dia, a gata fugiu-me para um sanatório abandonado. Entrei por um vidro partido, andei pelas salas desertas. Impressionou-me a quantidade de penicos de esmalte. Onde eram os quartos, só o desenho geométrico. Arrancaram madeira e caliça, levaram os móveis e os apetrechos. Andei pelo deserto dos fantasmas. Encontrei a gata, tomei-a, resgatei-a do limbo.
Saímos para o ar muito puro do presente. Era um dia de sol, mas não deste calor. Em casa, cozinhei peixe para ambos, ela quis água, eu quis café. Ainda não tinha pegado n’A Harpa do Crente. Já tinham nascido as moscas que podem enlouquecer um homem.
Agora, calma. Calma é calor. Construo o meu texto – a minha vida encalmada. Também me acontece retocar de verniz a geografia por onde me venci e perdi: Praia, Bruxelas, Foitos, Figueira da Foz, Peniche, Braga, Setúbal, Adémia, Vigo, Viseu, Sevilha, Bairro da Relvinha, Alcobaça, Lisboa. Tudo se recondensa na serra. Sou abençoado, cada noite, pelo cinema do sono. Deflagra-se-me o litoral na cerração das pálpebras. O céu da serra, mar alto, sardinha-se de estrelas. Sou devolvido ao oceano amniótico. Pulso. Tenho uma cabeça de astronauta transparente. A nave-mãe não será velha nunca, nunca a verei, quando do bacalhau regresso, entre as crianças senis do lar de penicos e extraviadas gatas.
Movimento-me no plasma, faço por merecer a noite. Hoje, tenho ainda de visitar um político de aldeia, depois um concerto de jazz, depois o velocímetro do carro galgando o dia ganho caminho da cama. Amanhã, dia undécimo deste julho remediado, verei acrescida a conta de meus calores. Sobrou bacalhau. Hei-de pentear de água a couve inconsútil, esfaquear o queijo açoriano, encebolar o rubro tomate, torrar o pão a banhar de manteiga, fazer café. Enquanto não, encalmo de pó o meu texto. O meu corpo, tépido de alguidar, rasa as torneiras. Estou sossegado nele. A tristeza não mata depressa – é um napalm lento. Espera-me na aldeia o político. Na cidade, o jazz. Ainda há tempo, é tempo ainda. Quatro homens chucham caracóis na primeira mesa à esquerda de quem entra. Deixo-me, devagar, passar. É certo o vento, certo é o sol. Casais tensos como arcos farão crianças hoje. Gente só alugará um videofilme. As luzes pirilamparão na noite encalmada. O vento cheirará, no sono, a ananás.


Caramulo, tarde de 10 de Julho de 2006









2 comments:

Anonymous said...
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