Friday, August 15, 2008

Alguma Sombra para Alguma Luz - I

Viseu, tarde de 13 de Agosto de 2008




Para a minha muito querida Amiga
Lucínia Baptista Azambuja,
que está doente.




I

A tua sombra habita já a terra,
deitada amante que a teu corpo aguarda.

Entre o teu corpo e a sombra a que ele pertence,
há um amor que se alimenta de invencível luz.

O alto sol branco a vós três desenha escuramente,
corpo, sombra e isso a que chamas eu.

Nenhum corpo deixa, à luz, de batalhar nas sombras,
suas luas tarjadas de preto e de cometas.

Quantas vezes isto a que chamo eu foi, fui,
treva travada em equinocial drama

de luz a mais outonal a pleno junho
– e sol e sacrifício e solstício?

Tantas vezes, vozes tontas. Drama colectivo e humaníssimo,
drama do pintor ante suas cinzas de color idas.

E sempre vindas, a sombra pelo chão derramada,
tanta pretidão oculta em branco, o sol alto.

A tua sombra como se uma mulher te falasse
ao ouvido tecnicamente: trabalho de músicas

urdindo os anticristos do silêncio, lá onde a
gonorreia e a fome e as agências de viagens.

E as de virgens, ao sol, num botequim
esconso como o coração, o sol todo de repente na rua.

O sol de repente todo na lua, subindo a montanha
a escalão de chuva, o gosto maior da morte na boca.

E a língua toda louca, entre sombra e corpo,
o homem pequenino comprando flores e rebuçados,

a enorme quarta-feira da eternidade, a cosmogonia genital
das mulheres, o transístor pasodoblando janelas cristaleiras.

E os bancos de pedra sob a tabuleta de telefone e selos,
na aldeia íntima do coração, num país sombrio

e solar como um susto de criança ante o poder
do pai, a vilegiatura da mãe e os limoeiros

que tossem ouro citrino contra o azul invencível
de que se alimentam corpo, sombra e eus e deus.

Cosmos e agonia – e rebuçados e flores – tudo
baba sua aranha negra, sua branca sombra de pomba e escombro.

Uma tarja verde oficializa o morto vegetal,
esse que transportamos em cafés e cigarros.

Convocas de pés no chão como mãos caídas
a humidade solar e terratenente do futuro, agora.

Os aviões choviam no escuro patrioticamente
a fundamental incompreensão da batalha. Era o idioma

nascendo seus cogumelos maus em vastas praias
como os sonhos e as mortes das mães.

E as coisas de que se outonam os versos
– e as pequeninas alegrias do sexo e dos rios,

quando as andorinhas fecham os olhos
e voam à maluca, riscos pretibrancos no céu azulealuz.

Esse tempo de árvores fruteiras que perdemos
na infância, lá onde a última cal e a primeira sombra.

A natureza alimentícia das casas pelo chão,
onde os cães botaram mãos de pintura e mijos.

A natureza mortal da beleza, isso a que a cada eu
ensina o tu demasiado vasto do que se perde

mais nascendo do que morrendo. E a ternura de prata
feita talher que alguma mãe guarda contra a perda

e contra os retratos, na linha de sombra que
deita olheiras ao sol. Assim de repente, assim

claramente, na noite que os outros tornam nossa
naquilo a que chamamos invencivelmente eu.

(E tudo depois
como nunca antes,

a sombra dos comedores
aos pés dos restaurantes.)

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