Thursday, July 27, 2006

Antes da Noite de 25 de Julho de 2006

1. Verificação do Cenário

O futuro era isto.
Ao cenário falta apenas acção.
Há casario, há arvoredo.
A estrada existe.

Há resina, há azeite.
A loja expõe melões.
Um inválido de olhar transparente
espreita, de entre cortinas, para
baixo.

Homens de pele cor-de-ouro
brilham sem querer
ao derradeiro sol do dia, digo,
do futuro.



2. Xilo

Para escrever quanto me lembro de ti
fui comprar um lápis, mas esqueci-me quase
de ti por causa da loja, que era
muito triste e bonita, o chão de madeira,
as paredes de madeira, a cara da
velhota de madeira, de madeira a louça,
de madeira os tapetes, os frascos, os azulejos,
o ar.
De tudo isto verificarás quão fácil é quase
lembrar-te.
Basta alguma madeira e
alguma arte.



3. Promessa

Ainda demoro um pouco.



4. Punho

Seres tão bonita não me afecta.
Essa esquerda perna soerguida como a perna esquerda
da letra A não me treme.
Nem a liquidez orquideada das pestanas me faz sentar.
Não. Já não.
Posso discorrer sem sobressalto
em torno da lembrada baía reentrante
da barriga, seu delta, sua fenda.
Mereci esta sobrevida.
Confesso, muito lati, outra hora.
Hoje? Tenho um lápis novo, um dia
que envelhece e desce
das árvores
como um macaco de luz.
Os teus pés perfeitos, desenhados pela
ausência de chão, nimbam-me não
mais.
Nem sei se viceja ainda, cordilheiro, o
tufo vertical de pêlos de ouro
vertebrais.
Basto-me: punho-me, lapiseiro.
Afligiu-me apenas, algum tempo, a conversa dos
outros homens. Garantiam eles a existência de
outras mulheres.
Nisso nunca cri.
Disfarço hoje que creio.
Vejo as mulheres deles: passam alheias
como importadas brisas.
A vida é quanto
basta para que
os dias se tornem anos
como o vento se torna movimento
no ramo da árvore.
Não é assim?
Assim é.
Fluo.
Às vezes, a luz é estrepitosa
como uma règuada.
Um homem também sente.
Finge apenas que não, que
guia tão-só carrinhas a gasóleo,
mercadorias, ir-e-vir-180-quilómetros.
Nada contra isso,desde que
paguem ao fim do mês.
Com o dinheiro novo, compra-se
um lápis novo e escreve-se
para se dizer que se não
lembra.



5. Soneto Heráldico

Podemos sempre, naturalmente, ignorar
a família e estudar heráldica.
Esfregar sabão nos azulejos, dar de costas neles,
afirmar depois que se lavou o corpo todo.

E ser consciencioso: também se pode.
A bem ver, pode-se tudo.
Basta reler o Conan Doyle,
acertar-se à quinta vez no criminoso.

Um amigo meu comprou, mas com
a mulher, uma vivenda por
dezoito mil contos. Foi um bambúrrio,

Digo, o achado. Tenra relvagem afronta
a casa, garagem depois, atrás. Não
ignorantes, heraldizaram-se um do outro.



6. Outro, Mas Agora Menos

A luz pulsa, da farmácia.
Bronqui'árv're tosse d'ar.
Gema d'ovo dá d'acácia,
sinto o corpo farfalhar.

A manteiga é tão cinzenta,
tão nojenta a margarina.
Diga-m'agora, menina,
'm'é q'um home' s'á-d'aguentar.

Fixa triste na janela
o além-campo litoral.
Tule e gaze dão por ela
flu'rescente, seminal.
Nasci perto do Mondego,
minha vid'é sem sossego.



7. Carlos de Oliveira Tinha as Suas Coisas

Animal cansado, capô de peito,
moreno talvez - nunca te vi mais
gordo.
Bicho semântico, quantas vezes
ministrei vocabulário (dizia-se
léxico) teu a incautas crianças.
Gostavam, aliás:
do que um morto é capaz.



8. Tenho de Ir Jantar, de Modo que um Fado

Rio é mar sem um diploma
sem curs'universitário
gaivota não é paloma
camelo n'é dromedário

Tu não faças confusões
e compra mãe-ciclopédia
põe de lado uns tostões
p'ra fazer ver ós ganhões
que tu és da classe média

(agora todos)

Somos bairristas
da bandeira nacional
somos sacristas
mas ninguém nos leva a mal
país d'Amália
Luís Figo e Belmiro
se m'atirar só m'atiro
p'la honra de Portugal

Caravelas cinco c'roas
peida-se o Vasco da Gama
damões dius tudo goas
penico baixo da cama

S'ingurança social
ó Estado pró-vidência
ETA Brigadas Vermelhas
'té tu Papa t'ajoelhas
a Cristo e à violência

(agora todos etc..)

1 comment:

Paula Raposo said...

Adorei o 4.Punho. Bom fim de semana.