Monday, November 10, 2014

Entrada 56 do caderno 16 da série Leite dos Santos

56


Leiria, tarde de 11 de Maio de 2013, sábado




Um restolho carbónico de estorninhos ferve nata de sombra
em panorama de pinhal-barragem, certo dia além do Tempo
em que estou de pé no esquecimento como um crucifixo
ou um cão dos que aos donos ardeu a casa toda.
Quais duas jóias de vidro preto, as moscas zaranzam
no ar parado, o proboscídeo ar do Verão estancado.

Quando paro para reler a primeira estrofe do 56,
sorrio à evidência demonstrável de como
anda um homem a criar uma folha
ou uma falha
para isto.
Sendo isto

o trabalho dos armadores de ferro nas casas que começam,
algumas arderão de fogo vivo, outras do mero mortal Tempo,
príncipes que bordam o fundamento da cofragem,
um mês entre a Fontela e Vila Verde trabalhei com eles,
um deles ofereceu-me sopa da dele,
retribuí-lhe com um pedaço de queijo-ovelha-cabra,

conversámos na paragem de almoço,
pertíssimo o Mondego morria em pura glória,
pura glória é quando qualquer coisa em ti
se torna atlântica para sempre, qualquer coisa que,
como todos os do ferro, que não de ferro, sabemos,
dura pouco. 

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