Thursday, May 22, 2014

Dia feriado do Município de Leiria. Ideal para maluqueiras em verso (caderno 30 da série LEITE DOS SANTOS)

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AQUI NO CAMPO É DIA FERIADO

Leiria, manhã de quinta-feira, 22 de Maio de 2014

Em pleno feriado, esta calma de campo desertado.
Mais livres me parecem as aves ao fresco.
Mais livros me parecem os campos da ave fresca.
Os toxiarrumadores não têm hoje que fazer.
Aborrecem-se devagarinho sem pão nem ópio.
Friúra de azulejo por gravura.
Estou aqui mui assentadamente contente.
Gosto do campo.

*
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Durante muito tempo acreditei na dádiva de si
com que cada um(a) finge entregar-se.
Como este homem de carão vermelho-sanguíneo-rubi.
Como a minh’antiga gata nas canelas a esfregar-se.

Sei hoje que não é preciso um(a) acreditar-se.
Todos antes por nenhum(a), cada um(a) por si.
O de rosto encarnado veio, creio, empanturrar-se.
(& eu interrompo o soneto par’ir fazer chichi.)

Estou de volta. Envelheci. Sofro de catarse,
de gota, de meia rota, de maleitas que nunca vi
sofrer o inimigo, o antipático – nem agora nem aqui.

Componho a braguilha, discreto, por disfarce.
O zíper enferrujou, desdentou-se, vai encravar-se.
Tá-tá-tara-tá, pi-piri-pipi-pi-pi.

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(Conversámos muitas vezes no escuro.
Foi quando melhor nos resultou a conversa.
Em solidão, fui talvez mais puro
– mas de forma inversa.)

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(E de também inversa forma é o soneto que se segue:)

É o que V. dizia: isto aos feriados é campo.
No relvado municipal, beira-Lis, um melro, um santo
melro a invisíveis larvas picotando.

É de retinto carvão, é lustral, é tão bonito.
Refulge de puro oiro o ouro do seu bico.
Em verbo fotograf’olho o nigromante saltarico.

Lá vai ele a seu nenhures ominoso.
Não, espera, poisou adiante, só mudou de sítio.
Por não ser bipolar, não é dado ao lítio.
À minhoca sim, lípido maravilhoso.

Quem bem rimou O Melro foi o Guerra Junqueiro.
Faço o mesmo por menos, que sou só Abrunheiro.
Mas, em a casa chegando, vou ler isto à mulher
- & de crisóstomo bico, como ela prefere.

*
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A maresia física chegava à cidade portuária
pelo ar das coisas que ao Tempo mesmo suspendiam.
Entre nós-ninguéns, as imagens a gelo ardiam
- & a vida era vária & una & una & vária.

Já então à morte não havíamos por adversária.
Os acontecimentos eram lentos mas aconteciam.
Da barra marítima velejava a ânsia corsária
por ignotos remo(r)tos portos que nunca amanheciam.

Compactas décadas fecharam a noite precária.
O mesmo corpo noutro rosto se fez alimária.
Os que foram, não voltam. Não vêm os que iam

lacrar nestes versos os que se lhes seguiriam.
Calma. A cidade lá mora. Demora, aniversária.
& a morte será vária & una & una & vária.

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