Friday, March 14, 2014

Linhas para o Caderno 25/Leite dos Santos - todas de Leiria, quarta-feira, 12 de Março de 2014

Q’À MESMA (COMO A LESMA)

Não oro
Não coro
Não corro
Não choro
Nem imploro
Que à mesma
Um dia
Morro.



CUIDADO CO’ HOPPER

Não fundarás, sequer fundearás, esta noite, qualquer diferença entre teus pares. Olhada de perto (i. e., de dentro), a realidade pode ser o desert’esespero, tem cuidado. Este homem é só como o poste-lampião público: quão privada é a malga de sopa que ele ingere contra o futuro. Numa casa-de-pasto pelas mesmas moscas habit(u)adas há décadas. Cuidado: que Hopper te não vassale a cabeça-em-visão.



SONETO DO NOME DA MÃE

Já que nesta série de cadernos me dispus
a dispor (de) alguma coisa da minha vida,
dou-as, vida & série, à própria luz
que branqueia muita coisa anoitecida.

Saúdo por dentro os leais amores fiéis
que berço me acalentaram sem preço.
Meço por meu nome os outros Daniéis,
que assim nos ’inda tratam, por bom apreço,

na terra onde gente me fiz quando feito.
É a norte da Coimbra-Pátria, é na Pedrulha.
Conheço cada pedra, cada braço direito,

cada pomba que ladra, cada caderno que arrulha.
Sítio da nascitura Hermínia: Maria Luísa
era p’ra ter sido. Não foi. De nome já não precisa.



BUCO(O)LISMO

Continuam elipsemente bonitas
as andorinhas que aos céus de Portugal
pintam de tinta-dita-da-China, catitas
& gaiatas quais crianças sem igual.

Prestam-se bem à melancolia
do nosso País os regatos inter-rurais.
Cantam prata noite & dia,
são frescos tenores sem rivais.

As mulheres dos homens, essas
fazem-lhes casa, tornam-nos lar.
Sem que eles o cheguem a topar,
montam o puzzle, unem as peças
(as doenças, os domingos, quebra-cabeças
que a sós eles não sab’riam juntar).



SONETO DO PRÍNCIPE REAL’VENIDA

Eu tive um pátio-quintal em Portugal.
Eu era então outra idade.
O tempo por demasia veio, mudei de cidade
– como quem idem de camisa ou de mulher, qual

inocente idiota malabar de bar em bar.
Ainda nessa vida (des)ando idiot&nocente.
É a minha forma de, só, ser só gente.
Aquele, olha, é casado, está p’ra s’divorciar.

Isto tem só de ser música, não precisa
sequer de haver plateia, balcão ou frisa.
Havia (era em Coimbra) o Teatro Avenida,

do Príncipe Real nomeado à fundação.
Foi quintal, foi pátio, teatro foi. Já não.
A vida a ter atém-se, pois, à vida (t)ida.

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