© DA.
Redondilha menor – 48
Em diversa hora
Fomos que não somos
Viemos embora
De perdidos rumos
Aves apeadas
E alvoroçadas
O caçador anda
Em nossa demanda
Voláteis arquivos
Nós perambulamos
Só enquanto vivos
Por aqui andamos
Esquecidos ofícios
Olvidados fora
Tantos sacrifícios
E agora, agora?
Damos por perdidas
Horas requeimadas
De pequenos-nadas
& tão mal vividas
Pouca gratidão
Diferença alguma
É da condição
Suma & nenhuma
Mui de vez em quando
Uma voz amável
Connosco rimando
Em verso afável
Rói-nos ansiedade
E anonimato
Ser ninguém é mato
Em plena Cidade
Língua Portuguesa
’inda nos irmana
Aquém-Taprobana
Sim pois com certeza
Oportunidades
Marés que não tornam
Copos que se entornam
Assim tais vontades
Vem tu, Liliana
Sofia, tu vem
Esta Taprobana
Nos fica aquém
Dá para a risota
O taful janota
& dá para o gozo
O imbecil vaidoso
Em noite profunda
Anda o pensamento
Muita barafunda
Pouco achamento
Em reviravolta
Um golpe de sorte
Pode vir à solta
P’la hora da morte
Coragem, António
Bravura, Man’el
Não vá o demónio
Rasgar-nos a pele.
Visitação – 49
Jónatas Alcino Neto Godinho, príncipe triste deste reino:
ei-lo de visita ao internado, seu parente-rhesus.
Indecisa claridade campeia, mundial, os derredores.
Na volta da visitação, descreve linhas insonoras.
Pai de Jónatas, Telúrio Godinho não é já entre nós.
Mãe de Jónatas, mulher de Telúrio, Luz Neto também não já.
Este parente-de-sangue de Jónatas chama-se Roderico:
Roderico Vilão Godinho d’Arrais.
Foram sempre de recíproca afeição tais dois primos.
Viam-se talvez de ano a ano, conforme o ano.
Quando sim, almoçavam juntos na Rua da Gala.
Noticiavam-se de ambas as vidas, conforme a vida.
Adoeceu de idade Roderico, internou-se ele mesmo.
Reformado, com poupanças a juros, pôde escolher Lar.
Sem mulher, sem filhos, apelou a seu primo.
Jónatas apenas & só é quem dele é visitante.
Tem vindo a apagar-se, o fio-de-voz de Roderico.
Mostra lapsos de lúcida clareza, em melhores dias.
O apagamento, todavia implacável, alastra como bolor:
proliferam, inapeláveis, os fungos do esquecimento.
Ei-lo, a Jónatas, da finitarde sentindo a algidez ligeira.
Farfalha o arvoredo que sentinela a praceta.
Sob o viaduto, acamparam dois sem-abrigo com cartões.
Em laranjal sanguíneo derrama-se o vasto poente.
Jónatas pensa: Impossível refutar a intransigência natural.
De facto & deveras, volta não há dável à morte & aos impostos.
É todavia em olímpica serenidade que tal considera.
Não há-de ser Jónatas a iludir-se de mitografias.
Processo de liquidação, a cada um seu processo registável.
Quaisquer deficiências do procedimento de registo,
assim como eventuais vícios de forma processuais,
de tudo tem, até agora, Jónatas Godinho dado conta & recado.
Sim, cada obstáculo reitera a linearidade possível do caminho.
Escaninhos mentais, de singular exclusividade, são portos-de-abrigo.
Há décadas que Jónatas colecciona vocabulários & códigos:
não tem, porém, a quem deles dar recado & conta.
Vão-se extinguindo as publicações em papel assináveis.
O mundo real virtualizou-se, existe se electrificado só.
Sobram por enquanto alguns estancos-alfarrábios.
E nestes a glória paginada das infinitas literaturas.
Sim, ir andando sempre: mesmo quando sentado.
O processo faz de elo na coexistência-Jónatas-Real.
Ei-lo, passado já o viaduto, em demanda de sua casa.
Chama casa, que o são, às águas-furtadas na Antero de Quental.
Sem prejuízo do disposto em registos-civis outros,
este de Jónatas (& en passant, de Roderico) não difere muito,
ou não muito diverge, da normalidade crepuscular
da existência hominídea, ah pois não & não & não.
Fio de rádio surde serenamente de sobre a mesinha-de-cabeceira.
A botelha com água, encimada pelo copo irmanado, vigia a música.
Na parede, o retrato oval dos casados Luz & Telúrio.
E também: um postal mostrando Veneza anoitecida.
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