Thursday, September 29, 2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 16 - Coimbra, terça-feira, 12 de Abril de 2011 (fragmento 2)

Ela toca-me em quase pura gangrena: oxida-me o coração, volatiliza-me tanta espera. É na força da vida. Se ela me diz:

– Quero-te tanto desde tanto ontem

eu então peço café, leio o jornal, faço que não faço, sou feliz devagar. E a hora deita-se como uma gata saciada de leite. Ou: também acontece isto:

Penso na minha Mãe, no poderoso sono que a subjuga adentro a terra do campo-sono, sobre os ossos do meu Pai. Pensa nela/neles enquanto escrevo, como se o pensamento tivesse corredores simétricos. Amar é estranho. Uma pessoa manqueja, quando ama tanto. E nem corpos vivos são condição obrigatória ao exercício do tanto-amor. A mocidade do coração verdeja seivas que palpitam. Um capitão de artilharia, este amor de filho pró-pater-maternal. A boca (a Língua) plena de aurículo-ventríloquos. Santo Deus, Pobre Diabo. Bagas de azeviche reticenciando o amor. Desastres de viação à luz intermitente das estrelas. Em Rio de Mouro, existe um gerente comercial de 62 anos chamado José Moreira, diz o rodapé da televisão matinal. E eu existo. Sim, existo, se escrever:

Poderosa emanação linfática preside
ao destino remolhado da essência.
Serei tant’ontem quem reside
em ti adentro, terás tu a paciência.

Uma mulata de camiseta amarela, chinelos de borracha grossa, debica amendoins salapimentados de um pires com filete verde. Confronta-a uma branca de cabelo branco-azul, saia de bombazina listrada a gesso, ar de quem nunca foi a Lisboa comer um gajo casado. (Sim, as maravilhas da vida quando escrit’imaginada, eu sei.) Homem com dente de ouro encastrado na boca notarial: há quanto tempo não via eu dentes de ouro. Já fui jovem, amigos meus. Desço ora ladeiras a cima: a idade, o vilipêndio caríssimo da idade: o estipêndio da, o estupor da idade. (A Mãe morta-viva no corredor paralelo da cabeça-mente enquanto, ente, escrevo.) Se escrever, só se escrever:

De sardas picotado o bonito rosto,
carne de porco come à alentejana.
Formosa e grácil e lejana,
eu gosto dela, ai dela eu gosto.

No comments: