Thursday, September 22, 2011

Rosário Breve nº 225 - in O Ribatejo - www.oribatejo.pt - 22 de Setembro de 2011



Gracias a la vida


A vida é mais parecida com Alberto João Jardim do que com Salgueiro Maia. Trata-se de uma infelicidade simples e objectiva, tal verificação. Parece-me incontestável, porém e aliás.
Se um argentino me mostra Piazzolla, eu aponto-lhe Carlos Paredes – mas, na verdade, estou a mentir-lhe. É uma mentira piedosa, mas é uma mentira: porque a nossa lusa verdade é Tony Carreira, aliás e porém.
Outra mentira (não piedosa, esta): a de sermos um país de brandos costumes. Somos nada disso. Seremos, quando muito, um país com o costume do brandy (mas daquele de Sacavém).
Seríamos mais dignos da dignidade de Salgueiro Maia se tivéssemos a coragem de rever a Constituição tal que as eleições das regiões ditas autónomas passassem a ir a votos de todos os portugueses, continentais naturalmente incluídos.
Seríamos herdeiros legítimos da pureza de Carlos Paredes se interditássemos os autarcas da chafurdice imobiliária e das adjudicações pato-braveiras. Seríamos. Nunca o fomos. Temo que o sejamos jamais.
À excepção de coisa de três anos e meio em Lisboa, sempre vivi localmente. Isto é: perto da fossa a céu aberto, do poço destapado, da aldeola desertificada, da fábrica falida, da oficina de zundápes e da taberna com chão de serradura pontuada a escarros mucosos, do bacalhau às moscas e das moscas ao bacalhau, do vereadorzito sem ortografia e do padreca vinófilo de bochechas atoucinhadas, dos caçadores de pombas, das sete-maravilhas da parolice endógena, das feirolas medievais com sabor a sévanète e ademanes de pechisbeque cóltural, das garraiadas desumanas em prol de um divertimento subanimalesco, das suiniculturas mais infectas e das infecções mais suínas, das escolas sem crianças e das crianças sem escola, das novas oportunidades tão equivalentes a velhas manhas, dos têgêvês a carvão que não passam o Tua nem chegam a Marvão, dos incêndios com hora marcada e impunidade judicial, dos rios sufocados de porcaria e das barracas de alterne onde por vinte euros se pode comprar uma facada em brasilês.
Tudo isto me surge em elevado grau de impureza e incontestabilidade. Dir-me-eis que nem tudo é assim, ao que vos redarguirei que sim, que de facto não, que nem tudo nem todos são assim.
Carlos Paredes e Salgueiro Maia não eram.
Nós sim somos, com um “penalte” de brandy gaseificado de sévanète à saúde do sôprezidentedajunta. Ou do da Madeira. Aliás. E porém.

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