Wednesday, September 28, 2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 15 - Coimbra, segunda-feira, 11 de Abril de 2011 (completo)



15. FRUTOS POENTES SEM PEIAS

Coimbra, segunda-feira, 11 de Abril de 2011

É sem peias nem remorsos que reconheço limitar-se a minha literatura possível a nótulas breves, inócuas e descartáveis sobre a meteorologia e a silvicultura, por vezes com rápidos reparos de cariz ornitológico. Não tem mal nem faz mal a ninguém. Julgo que não, que não tem nem faz. Que a minha vida seja, ao menos por escrito, da Vossa imitadora: sulcadora da luz e da chuva, das vinhas e das ruas, amadora de pardais como de pombas – como de senhoras e de árvores dotadas de cervicalidade. Os meus dias são os meus livros. Leio-os à passagem vertical, sonho-os sobre um catre celibassolitário. Escrevo-os em dor ou/e euforia. Por exemplo, hoje:

Num bairro popular da Cidade de Coimbra. Dálmata não daltónico, usufruo da calma que se chama calor. Dou devagar ao rabo. Senhor de tão pouco, anseio por nada. Uma laranjeira além, uma casa abandonada aqui. Um velhote absurdamente enroupado para a força da tarde: camisola interior, camisa de flanela, pulôver de lã, jaqueta de caqui. O velhote, sentado no banco exterior da Associação local, não é presidente: conta, de um envelope, as notas da reforma. Olha-me com desconfiança, o tonto, o magano – vim à rua escacilhar um cigarro, o senil pensa que lhe cobiço as misérias esmoleres. Volto para o caderno, saciado de claridade. Encomendo uma cerveja muito fria, espera a vinda do meu Irmão Carlos, que precisa de uma assinatura minha num documento obrigatório (pós-morte da nossa Mãe). Respiro sem pensar nisso. Observo discretamente os outros bebedores. Como eu encalmados, bendizem o refrigério engarrafado: cerveja quase todos, mas um preferindo vinho branco cuja frescura é de embacia-copo. Um casal com dois petizes de colo, menino e menina. Evidência da pobreza: as roupas, os cabelos, as sandálias, a paraplegia dos quatro olhares. O cu da empregada: regueifa bífida, cerúlea, sebácea, gelatinosa. Um sentido para a vida? Ná. Não demando tal. Resigno-me sem agonia à descomunal insensatez cósmica e antropológica de tudo isto: estar vivo, os patos na lagoa, as estrelas em perpétua gambiarra natalícia, os homicídios, a puta da cristandade e quejandas meretrizes teosóficas. Em filosofia, fico-me pelo cu da empregada. Ou então isto:

Às 16h34m da segunda-feira chamada 11 de Abril de 2011, estou vivo, respiro grafemas. Fora desta sala, a banha luminescente torna hidrófilas até as sombras. O meu Irmão Carlos veio, esteve, disse, partiu. Estou bem, as coisas vão. Há muita (toda a) luz lá fora. Sombras perpassam, palpitam nos olhos ledores, credores, escritores. Toco o ar como se herdasse seda. Esmalto esse toque. Creio na passagem. Risco esquinas. Tenho segredos. Degredos, também tenho. Ou tive. Possuo um olhar gráfico:

As casas com painéis de seis azulejos 15x15 com representação de santos. O meu Pai pintou alguns (muitos) dos que vejo. Uma mulher jovem de olhos verdes quase tão jovens quanto ela. De peitoral-peitoril, muito branca. Diz à amiga que tem febre. Boca, de facto, quase sem água, a pele dos lábios descamisada. Ou então se:

o pequeno toque táctil te tentear
em meio à bruma sensitiva do instante
e quanto não disseste for declarar
que esta assim-assim foi tua amante,

tu não ligues, tu não digas coisa nem nada.
Se amante foi ou há sido, foi amada.
Nada nem alguém a ver com isso.
Alheira é o falar do mundo, é encher-chouriço.

Digo:

Agora os cursos superiores são comparativos por baixo, as pessoas já nem percebem por que motivo se chama uma rua Alves Redol, o nível é estrumeiro, o nónio de Pedro Nunes não lhes cabe na puta craniana da cabeça, sabem lá elas o que não for pornografia televisiva, o preto-segurança baleado pelo ex-amante da ex-gaja-dOdivelas, a riqueza das buganvílias dando roxo para nada e a ninguém, o capitão Salgueiro Maia e os compêndios gramaticais da escola técnico-industrial do Antigamente, a Vida, essa senhora-de-berma-de-estrada esperando o camionista-da-Morte. Só não me peçam para viver, se (não) (para) escreviver.

Redigo:

A semente do trabalho dá frutos poentes.

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