Sunday, August 19, 2007

A Noite em Breve - 3

Foto: Casa, Caramulo, 13 de Agosto de 2007
A NOITE EM BREVE
ou
CORUSCAÇÕES NO IMO DE SOMBRAS
(uma portugalidade delével)


3
Caramulo, manhã de 13 de Agosto de 2007

É outra manhã. Esta era futura, ontem. Agora, dá-se toda como um beijo sem experiência de vida. O pequeno comércio abriu já sua carapaça mínima. Uma lojita de roupa com um estendal de camisas crucificadas; uma frutaria expondo à porta a banca de melões e melancias, cachos de uvas e pêssegos rubicundos; o talho ocioso das segundas-feiras; o café dos anjos terminais; a bomba de gasolina, cujos preços se alteram para cima a cada notícia de atentado onde foi a Mesopotâmia. Tenho de fazer um telefonema por causa de um trabalho. Adio a tentativa de ligação até a hora de almoço. Há quatro dias que ando nisto. Não, há anos que ando nisto.
Um jogo parece infindável: a altercação entre as certezas íntimas e as incertezas quotidianas. Ilhas existem no mar revolto, sim. Ontem à noite, fechei a porta do planeta. Só em cuecas, alonguei a embalagem na cama, pus os óculos e dei-me por uma hora à leitura de um conto de Wilkie Collins, The Angler’s Story of Lady Glenwith Grange. A gata tinha preferido a cadeira da sala para exercer a perfeição do seu sono sem amanhã nem ontem. Do lado esquerdo, o ouro barato do candeeiro tudo encarecia, dourando tudo. A janela, de portadas abertas, franqueava a noite. Uma gota de água repetia-se a si mesma no lavatório. Fumei quase nada. A história da Lady desespiralava-se sem luta, oferecendo-me uma quietude próxima da felicidade – ou algo menos grave ainda. O domingo tinha acabado, a rádio deu meia-noite como quem dá um anel de plástico a uma criança de sessenta anos amiga do doutor Alzheimer. Depois já era hoje. Fechei o livro, arrumei os óculos, apaguei a luz e submeti-me à noite.
Acordei na água de sabão das seis e meia. Espreitando pela janela, recuperei a joalharia incolor das árvores incrustadas em gaze. Descerrei as vidraças, o fresco respirou para dentro do quarto. Aos pés da mesinha-de-cabeceira, o volume de histórias que inclui Wilkie Collins dormia um sono volumétrico tão perfeito quão o da gata, que pela noite se me juntou na cama. A gota de água no lavatório autocongelara-se em louvor do silêncio. Vi passar a furgoneta dos pedreiros, a carrinha do padeiro, a bicicleta do pescador fluvial e um cão magro que há quarenta anos passa quando acordo.


Shut out your past at the front door, and it creeps in at the back.

Isto não é Wilkie Collins. É John le Carré através de Ted Mundy em Taos (Absolute Friends, pág. 115). Sobre o tampo da mesa, os objectos universalizam o reduto da manhã: o cinzeiro de vidro negro como os olhos dos anjos, a chávena vermelha escrita por dentro de espuma castanha seca, o coiso dos guardanapos de papel, um lápis e duas canetas, o le Carré de serviço e um caderno de folhas quadriculadas para coruscações no imo de sombras.
Recordo a tarde de 1996 em que caminhei dos Prazeres à Alameda. Dei-me duas horas de deriva pelo mundo interno do Cemitério dos Prazeres. Andei a ler as pedras. Registei a petrificação das flores como corpos presentes do Tempo, responsos de uma missa comummente rezada pela botânica e pela geologia No Talhão dos Artistas, estive de pé junto a celebridades cada vez mais menos célebres e mais deitadas. É uma outra cidade, aquele campo santo. Saí de entremuros e matriculei-me, pedestre, na cidade grande. Caminhei muito ao sol. Cheguei ao bairro (a cidade chama-lhe Bairro dos Actores) onde morava com aquela fadiga propícia à felicidade, como se a felicidade, já então, pudesse ser desbaratada por mim. Escolhi uma taberna fria e bebi cerveja em haustos devotos. O sol ia desistindo do dia para os lados do mar, numa profusão de violetas maceradas. Os prédios do bairro lisboetavam aquela inequívoca auto-suficiência comum a todas as capitais de países dependentes. Vi um porteiro de discoteca engolindo largas garfadas de carne frita. Era um energúmeno entalado num fato preto impróprio para albergue de musculações de ginásio anfetaminoso. Tinha uma cabeça mineral presidida por olhos biplégicos. As mãos eram-lhe de um material suficiente para fazer mais quatro. Dos dez chouriços digitais, quatro surgiam garrotados por cachuchos de ouro falso. Os sapatos eram barcas de ferro carregadas de carne, unto e marfim. O conjunto buldoguizava-se sem remédio numa poça de banha lustral. Retirei o olhar para entregá-lo à contemplação de uma divorciada magrinha e amarela que bebia vinho com uma minúcia de suicida. Toda ela valia por um assento notarial relativo ao bem imóvel da tristeza. Perto, o cinema vendido a uma seita evangélica com sotaque tropical assembleiava comoções dízimas. Devo ter saído dali, ido para o meu quarto e deitado a embalagem do corpo numa cama suportável apenas pela fotografia da minha filha, retrato que, na mesinha-de-cabeceira arrendada, justificava este mundo de lisboas e de caminhadas ao sol, o mesmo sol que tão devagar petrifica flores como depressa desiste a favor do mar e da noite.
No Missouri, EUA, um gajo entrou numa igreja pentecostal, matou três pessoas e feriu mais umas tantas. Na China, as cheias também matam e também ferem, mas mais. É o telejornal em toda a sua glória artística, num esplendor cabotino de pivôs com um umbigo maior do que uma brotoeja com elefantíase. A manhã termina em notícias, como todas: todas as manhãs, todas as notícias. Um pintor da construção civil escolhe um cone de baunilha com gelado de morango para sobremesa. É um rapaz na orla decisiva: os trinta anos. Sai de entre nós, anjos terminais. Sai para o cartão da tarde.
Digo “cartão da tarde” porque o sol foi dissolvido em cinza. Ainda não comprei pão fresco para o dia. A televisão mostra a chegada à Portela do elenco dinamarquês (dezoito jogadores, mais equipas técnica, directiva e clínica) que vem contracenar com o Benfica no palco pré-eliminatório da Liga dos Campeões. Da extrema janela do café assisto à passagem pela calçada de um dos anjos. Este é mais expedito do que os outros. Outro. andam sempre sozinhos, fora do Lar. Pedem cigarros com uma manha cristã e brasileira. Vagam, divagam, não propagam: são anjos locais, herdeiros dos aposentos que os tuberculosos extintos do extinto século XX deixaram vãos. Assisto a estas vidas como a sessões contínuas do mesmo festival do mesmo cinema. É pela escrita que não sou ainda um dos oficiais deste angelismo terminal. Em segredo, aliás, vou compondo um romance, não sobre mas a partir deles.
Isto não é um romance. Isto é um caderno de coruscações no imo de sombras. Isto é o Tempo. Não é o Mar. É o Rio. De “pedregosos rios” (the meeting of two stony rivers, pág. 117 – John le Carré, naturalmente).
A tarde da segunda-feira é, logo a seguir ao apagamento das notícias, inaugurada pelas raparigas empregadas que investem todo o resquício de chamariz erótico no pintar das unhas pedestres. Sangram-nas de verniz escarlate. As sandálias acabam exactamente antes das unhas. E eu acho que têm mamas tristes. Engordaram para além da vista em revistas. A alimentação rural, à base de enchidos ácidos e de fermentações maternais, não concede a estas solteiras um mínimo palmo de telemimetismo. Floribellas desprezadas, proboscideam-se sem remédio no enchimento alimentar, namoradas por doutor nenhum mas por tudo quanto é motorista de distribuição de garrafas de gás ou de cerveja. Sei que tentam ofícios de aprendizas de ofício: cabeleireiro, secretariado de dentista jovem, gabinete de contabilidade para empreiteiros civis, casamento. O problema é que envelhecem depressa como o meu sol de Lisboa 1996, e são violetas maceradas. Estas raparigas usam cabeças de onde se despenham farripas de tintura votivas de um louro espúrio. De pneumáticas barrigas, antes até de parir, chinelam pela província um europeísmo de cortiça. Assisto-as.
Além, as árvores da manhã não parecem as mesmas. Mudam, como nós, por causa das horas que são. Que são, que deixam de ser, que já não são. Além, o caminho de retorno a casa, passando pelo Núcleo do Sporting, que não recebe dinamarqueses pré-eliminatórios. No café esvoaçado pelos meus anjos terminais, há de quando em quando famílias regulares. Pai, senhora, duas crianças. Adultos cafeínos, crianças edulcorantes. Está ali uma família dessas: um presépio pequeno-burguês. Sim: conto sempre com os burrinhos e as vaquinhas para a minha literatura de palha. É de ir sendo Agosto, mês glauco que nenhum postal ilustrado redime. Também conto que esta narrativa me ajude a estancar a hemorragia poemática dos últimos meses. Vivo entre anjos terminais que não terminam. Em torno, a Natureza é pródiga, pictórica, repetidora de inocências ansiolíticas que não posso usar sem desequilíbrio nem desarmonia. Nem sem recordar além.
Recordo uma praia entregue ao mar cronológico do Verão de 1970. Era neste País. Espanhóis vinham passar férias da ditadura deles, chamados pelo estio da nossa solidão ocidental tão parecida com a deles. Havia uma farmácia, duas lojas de gelados, um bazar de bolas de borracha, quicos, padraméricos e cestos de vime. Havia uma torrelógio, estava quase sempre bandeiramarela. O sol era o Verão, o vento era o Inverno, a mescla era eu ter seis anos adultos em 1970. Era na Figueira da Foz. Longe dali, na montanha, havia os últimos tuberculosos, os sanatórios não eram ainda, cada um, o Lar, e eu não sabia que um dia, hoje. Na praia, um deficiente de muletas mostrou-me, entre barracas, a piça. O homem dos gelados Águia era sósia do Joaquim Agostinho. O mar já contava a mesma história única, só que, então, eu acreditava nele – e nela. Rápida loja de trapos: os anos. Rápido: trinta e tal anos depois, quase quarenta. Voltei, com a minha mulher desta vez, à Figueira. Não estava lá, a cidade de 1970. há comida como a italiana, há comida como a indopaquistanesa, há sardinha assada à discrição a preço único no Núcleo do Sporting local, há o Daily Telegraph, o El País, o Allgemeine Zeitung, o Corriere de la Sera e o Le Monde no quiosque do Jardim, mas não 1970 nenhum, que era o que queria comprar sem ser a prestações. A mulher e eu vimos o futuro em escritos anémicos colados a vidraças:


VENDE-SE
ARRENDA-SE
CAFÉ ACEITA SÓCIOS-GERENTES


e uma bandeira nacional que perdeu 0-1 na final do Euro-2004. De modo que não recordo nada. É tudo agora. Tudo é agora. Tudo é agora, também. Nenhum espanhol dos de 1970 compra o El País, mesmo que ao sábado traga o suplemento cultural Babelia. Os ingleses têm net portátil, não compram o Telegraph para saber mais choradinhos tablóides pela Maddie McCann, menina inglesa desaparecida há cem dias da Praia da Luz, Algarve, Portugal. E a França acabou há tantos anos, que até o Le Monde já diz isso. Mas isso e isto não fazem mal a ninguém, pelo que pode ser dito, redito, vivido e revivido: chama-se Literatura, o inócuo animal.
À extrema janela do café de anjos terminais, debulho, folha a folha (página a página) a espiga do meu milho: coruscações no imo de sombras, da noite abreviações. É um trabalho. Não é (eu sei) um ofício. Ofício é ganhar a vida, oficialmente. Oficialmente como um anjo oficial de seu ofício. Na debulha, ocorrem compassos temperados pelo bom cravo da lucidez: o nada que isto tudo vale. No dia certo, à hora não marcada. Pedregoso rio, naturalmente.
Recordo, pouco antes de 1970, a tarde de rio em que fui ao Choupal da minha terra. O bosque cinematografava os dardos oblíquos do sol entre folhagens. O pó suspenso dos dardos imitava micróbios de ouro. As passadas dos adultos eram para acompanhar a correr. Violas e acordeões bacheavam perante a partitura brutal da Natureza: ter uma infância, ter um rio: ser uma infância, ser um rio. Era o Mondego, a cuja margem direita merceeiros alcoólicos traficavam laranjadas e tremoços refrescados em água de sal. O peixe fluvial ou nadava ou era frito em azeite e alho antes de ser perdoado com vinagre e palitado a aríetes de salgueiro. Falavam homens nas alturas deles. Eu cabisalteava-me para entender a rouquidão grave das palavras deles, pois que sabia, já então, quanta vida pode ser perdida numa palavra que se não ganhou. Poderiam estar a mentir, como eu estou – mas a verdade da infância é sempre um ardil da imaginação.
Minto – porque digo o que não sei mas gostaria que fosse. Essas tocas de peixes que não alcancei à mão, um tal pescador fluvial que vejo passar às seis e meia de uma montanha sem rio: e a loja de trapos: os anos. E esses homens que vi depois de me tornar homem: más cópias antecipadas daquilo em que me tornei, eu também. Escrevendo, nem vendo – dou laranjadas e tremoços à margem do pedregoso rio.
Há pão fresco. Peço um saco de papel com seis dentro. Caminho na orla do foguetório inaudível de outros verões, outros sanjoões. Lá em baixo, há anos que ando nisto, passado o Núcleo do Sporting local (não há sardinhas), sempre antes do telejornal da noite.

4 comments:

bom jogral e mau segrel said...

Senhor Daniel... perdão; desgraçado cão: o seu blogplace tem muita classe. Posso opinar? Por que não publicar fotos de família, suas? Do seu canil genético, se assim posso dizer...
Já agora... o que é isso de "estadísticas grátis"?! Ah!, cuidado com as lambidelas... se é dog, not god.

Daniel Abrunheiro said...

"Estadísticas grátis" é um contador (à borla) das visitas ao blog. Recebe-se no e-correio um relatório diário.

RC said...

...como se estivesses sempre a precisar de convencer-te da propriedade da proposição do "imo". Sentencio, pois: vale, sim. vale, montanha, praia, lisboa, coimbra, segue, estou de cinto de insegurança posto... vá, segue...


Luzes:

"camisas crucificadas"

"oferecendo-me uma quietude próxima da felicidade"

"the meeting of two stony rivers" -(deslumbramento)

"A tarde da segunda-feira é, logo a seguir ao apagamento das notícias, inaugurada pelas raparigas empregadas que investem todo o resquício de chamariz erótico no pintar das unhas pedestres. Sangram-nas de verniz escarlate. As sandálias acabam exactamente antes das unhas. E eu acho que têm mamas tristes. Engordaram para além da vista em revistas. A alimentação rural, à base de enchidos ácidos e de fermentações maternais, não concede a estas solteiras um mínimo palmo de telemimetismo. Floribellas desprezadas, proboscideam-se sem remédio no enchimento alimentar, namoradas por doutor nenhum mas por tudo quanto é motorista de distribuição de garrafas de gás ou de cerveja. Sei que tentam oficias de aprendizas de ofício: cabeleireiro, secretariado de dentista jovem, gabinete de contabilidade para empreiteiros civis, casamento. O problema é que envelhecem depressa como o meu sol de Lisboa 1996, e são violetas maceradas. Estas raparigas usam cabeças de onde se despenham farripas de tintura votivas de um louro espúrio. De pneumáticas barrigas, antes até de parir, chinelam pela província um europeísmo de cortiça. Assisto-as."


"Está ali uma família dessas: um presépio pequeno-burguês. Sim: conto sempre com os burrinhos e as vaquinhas para a minha literatura de palha."

"Rápida loja de trapos: os anos." ou, o que é a mesmíssima belíssima igualmíssissima coisa: "Shut out your past at the front door, and it creeps in at the back"

"Mas isso e isto não fazem mal a ninguém, pelo que pode ser dito, redito, vivido e revivido: chama-se Literatura, o inócuo animal."

RC said...

dog, not god não é nenhuma lambidela. É um certificado de habilitações, excelente segrel. Não é uma reparação. é um reparo.

Repare, escute e olhe.

Cão sim e Deus não, pois.