Friday, August 17, 2007

A Noite em Breve - 2

Letra C de Caramulo
no chão da manhã de 6 de Julho de 2007




A NOITE EM BREVE
ou
CORUSCAÇÕES NO IMO DE SOMBRAS
(uma portugalidade delével)







2
Caramulo, manhã de 11 de Agosto de 2007


É a manhã. Começou em oiro, metal de luz que uma névoa veio embotar. Acordei de um mau sonho por acção de um par de moscas. Desirritei-me levantando-me. Busquei água fria no lavatório, esfreguei a cara para nascer, nasci, fui à cozinha, pus o café em andamento, consultei o correio no escritório (nada), sentei-me na sala para uma justaposição de perfumes: café e tabaco. Pensei na véspera deste caderno, no trabalho iniciado. Considerei a seriedade disto. Continuar, não continuar. Continuei. Continuo.
Recordo alguns dias do mês de Janeiro de 1985. Tinha ido a um odontologista sem diploma: um sapateiro barateiro que me escavou um dente em busca de uma desvitalização que não sabia, nem soube, como levar a cabo. Em casa, horas depois, nuns segundos excruciantes, pela raiz do dente subiu-me uma dor única, implacável, inteiriça, mesmerizadora, inadiável. Era o desespero: era como se houvesse trincado um prego. Tinha o prego cravado da mandíbula ao cérebro. Não podia ser. Fui ao armário da sala (era em casa dos meus pais), saquei uma garrafa de martini, bebi metade a olho e de um fôlego, fui à gaveta das ferramentas, saquei o alicate, postei-me perante o espelho da casa-de-banho, agarrei o dente e puxei. Partiu-se ao meio. A dor cessou nesse exacto momento. Vomitei o vermute tinto de sangue, mordi um toalhete e voltei a deitar-me no quarto de solteiro hoje habitado pelo meu irmão Fernando.
Os dias seguintes foram eternos: a cara tornou-se-me uma abóbora de pus. Por fora, a máscara era a de um pugilista espancado sem mercê. Por dentro, a mucosa cebolava o caos ordenado da podridão. A Mãe olhava-me com aquela piedade clínica de bela águia pasmando à fealdade da cria. Depois, desinchei até que no sorriso novo do teclado um meio dente negro fazia de bemol. Os anos correram: sem freio nem dentes.
Agora é hoje de manhã. Tudo é, de novo, real. Sentado à última mesa do café que me serve de modelo para as cenas finais de (in)certo romance que ando urdindo desde Novembro, olho pela janela e assento a vitória da luz sobre a névoa primacial da manhãzinha. É quase meio-dia, vou levar pão fresco para casa. Enquanto não, sou revisitado por imagens ilusionistas dos livros de John le Carré. Ele e Graham Greene costumam fazer-me isto. São dois velhos mafarricos, magos antigos de uma ciência assoladora: contar uma história. Por eles, com eles, em eles, tenho vivido uma vida dupla não isenta de esquizalteridade, por assim dizer. Nem haverá leitor a que tal não suceda. O cinema de todas aquelas frases medidas ao miligrama, o equilíbrio britânico até no desespero, a perfeição ambulatória dos retratos, a súbita e lancinante nota poética que, como um flash, magnesia e magnetiza a escura acção.



At the railway station, the last train to anywhere has left.



Assim mesmo, a páginas 101 da edição em paperback (2004) de Absolute Friends. Le Carré sabe-a toda. Esta notação transitária é q.b. para nos pôr dentro da cabeça de um tal Ted Mundy à beira do desespero, mas só à beira. Literatura maior: nem mais nem menos: um comboio para algures (i.e., um comboio para nenhures) que já partiu.
Na literatura portuguesa também há disto (mas falo do encanto, não do urdume). Também há desta música – só a letra, natural e felizmente, difere. À janela do meu café de anjos terminais, confirmo a dissipação da névoa em prol do oiro e retomo O Fogo e as Cinzas de Manuel da Fonseca, Gaibéus de Alves Redol, Esteiros de Soeiro Pereira Gomes, A Noite e o Riso de Nuno Bragança, O que Diz Molero de Dinis Machado, Alegria Breve de Vergílio Ferreira.
Eu sei: não há puta mais injusta – nem mais mal paga – do que a memória. Perdoo-lhe pela justiça do pouco que salva. Estes títulos são justos. Estes – e todos os títulos de Carlos de Oliveira, senhor a que voltarei (sempre). Há mais, mas não tenho de confrontá-los com a elegância de Greene e de le Carré. Estas coisas duram, perduram: enquanto houver um leitor num país que não lê nem quer ler, não sabe nem quer saber. Se a isto entreguei de bandeja a minha vida e, se não a minha escrita, ao menos o meu escrutínio, a isto condeno, também, o meu livro-arbítrio, por assim dizer.
À mesa do lado direito, estão agora dois homens. Um é velho, o outro é muito velho. O muito velho usa chapéu à Georges Simenon. Enverga uma jaqueta muito leve de terylene. Duas moscas pousadas nas costas. Calça clara cor-de-casca-de-ovo, meias azuis, sapatos castanhos. O relógio de pulso mostra um mostrador amarelado: aquele amarelantigo dos avós, leite-creme com décadas e décadas caramelizadas. Na cara, os óculos são de lentes de escurecimento progressivo, como os anos. Orelha completas, de uma transluz de porcelana usada em banquetes esquecidos. Uma das moscas alpinou-lhe o pescoço, que o antigo sacode com o dedo do anel. O anel é de ouro com uma pedra negra. Vejo-o sorrir a um dito do outro: dentição total, de uma simetria acrílica que deve ter sido cara, a de cima como a de baixo.
Mas agora, como tudo, vão-se embora. Entrou no mundo português a hora de almoço, essa hierática (de sagrada como de papel finíssimo empregado na escritura dos livros sagrados, v. página 880 da 6ª edição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora) suspensão de toda a ânsia, esperança, esperânsia. Tenho de me fazer ao mesmo, embora calhe mal, agora que o discurso discorria quase sem mim. Sei que depois da refeição a força da gravidade voltará a exercer a sua autoridade ruminante, resistindo a cabeça como puder ao estomaquismo da condição humana, que é a minha sempre que não posso que não seja.
No horizonte do dia, ardendo já a tarde, está uma visita à outra serra, a da Estrela, para consumo de amigos, música, copos e palavras. No meu bornal, segue Ted Mundy: serei o comboio dele para nenhures.

2 comments:

Paula Raposo said...

Aprendo sempre a ler-te. Obrigada por isso.

RC said...

Dei por mim a pensar que sou teu passageiro nesse comboio para algures - não nenhures - que é o ler-te. Tenho de dizer-te o melhor que sei sobre qualquer poema que ouço. Não sei onde me levas e se não percebes como isto é longe e grande, melhor ainda, desde que sigas indo, desde que te siga indo eu, indo eu.

Luzes:

"Depois, desinchei até que no sorriso novo do teclado um meio dente negro fazia de bemol. Os anos correram: sem freio nem dentes."

"uma ciência assoladora: contar uma história"

"Estas coisas duram, perduram: enquanto houver um leitor num país que não lê nem quer ler, não sabe nem quer saber."

"livro-arbítrio"