Tuesday, August 14, 2007

Minha Senhora - 1999 - 2004

MINHA SENHORA

1

Quando me chama, logo vou.
Falo de Deus ou da mais amante?
O que está antes controla o adiante?
Adianta nada ser como sou.

Ainda assim sou. Como não?
Passas do Algarve passa o coração.
Tudo passa. A ilusão
É pensar que não, que o contrário.

A vida repete os sonetos.
Certos são a morte e os horários.
Menino, li abecedários.
Em tudo lindos, muito correctos.

E pois que aprendo, o mesmo ensino:
certo é o metro, incerto o destino.


2

Na minha cara fica cromado o traseiro da rapariga.
Linda, alta, altiva.
De boa ganga revestida.
Boa, forte carnação.
É uma terça-feira, a estação
Promete.
Mete-se a primavera no sangue,
fica o macho oxigenado.
Todo cavalo, todo freme.
Natural do caldo é ser entornado.
Na minha cara fica cromado o traseiro da rapariga.
Boa fêmea, febra boa,
febril me deixa e pensativo.
Par’alma doente, nenhum curativo.
Erótico, herético, analítico, sintético,
está-me o corpo a pedir remanso.
Doce lençol, nenhum descanso.
Canto o encanto de quem me castiga.
Na cara, a minha, fica cromado
o redondo, o muito claro,
traseiro da rapariga.




3

Essa mansidão feita de cores.
Nenhuma papelaria vende as tintas desse olhar.
Junco, junho, ir aos Açores.
Férias que fosse, ou trabalhar.

Acompanho o macho a casa.
Dou-lhe boleia (é pobre, coitado).
E dá-me ideia (o grão na asa)
que é de mim que vai toldado.

Já se não pode sair
a um pub ou discoteca.
Amar é prelúdio de parir?
Cabelo é prefácio de careca?

Digo ao rapaz: tu tem calminha!
Dormirmos é caso não contado.
Pois nesta santa terrinha
Deitar é rima de pecado.

Os machos são pobres. Que lhes fazer?
Do arco da íris são pretas as cores.
Nenhuma papelaria me há-de vender
Essa mansidão feitinha de cores.


4

Noutro tempo que já foi
(e pois que escrevo, lá vai),
aprendi que o que dói
não é quem entra,
mas quem sai.

Quem sai pela porta traseira
da casa da minha vida.
Por segundos ou vida inteira,
a modos que arrependida.

Falo dela. Falo meu.
Este não tocou aquela.
Domingo à tarde, eu, romeu,
Telefono p’ra casa dela.

Alô alô, meu coração.
Olhe que deve ser engano.
Desliguei, minha aflição.
Noutro tempo, noutro ano.
5

O amor torna as próprias moscas graciosas.
Golpes traz o vento de cheiro de rosas.
Tudo o mais são campos de água.

Duro cimento se faz o dente,
trincador do pão, o tão lembrado rosto,
molhado em rubro o coração, a chaga.

Outra senhora ora me concorre.
A luz é triste, a pele ocorre.
Custa lembrar, custa esquecer.

O amor golpeia a carne das rosas,
torna as mesmas moscas graciosas,
cegas, partidas, no vidro a bater.


6

O coração – dizem-nos.
Como se fosse mais do que um músculo habitado
por pouco secretos demónios.
O coração – casa preta na noite do corpo.
Bate dentro da almofada.
Tem falado comigo.
Diz-me que ser coração é uma dura profissão.
Não de fé, concerteza.
Batido pelo tabaco e pelo desejo de mulheres.
O coração – cabeça de cansado cavalo cego.
Pedra grande numa praia tomada pelo petróleo
dos barcos estrangeiros – todas as outras pessoas
são barcos estrangeiros
para o coração.
O coração – hortaliça cabotina.
Bússola partida num deserto de bares fechados.
Tenho falado com ele.
Diz-me sempre que não seja sentimental,
mas de nada vale
prègar moral
a um coração
em Portugal.







7

A luz abre um mar de laranjeiras
o mar chama
estou aqui já vou
sou feliz dentro da trampa
feliz nos hotéis de luxo
nos aeroportos gaseificados
nos velhos teatros convertidos à fé do cinesex
e manoel de oliveira.

A luz recorre ao crédito divino
para nos mostrar como parecemos
castanhos por fora
sangrentos por dentro
o mar chama
aqui estou vou já
sou feliz com a trampa
uso uma felicidade descartável
uma falsa alegria de lavador de dentes
de anedota de alentejanos
ou de portugueses no Brasil.

A luz assina com o meu nome
as sombras com que molho a cama
sobre que estendo um corpo tabágico
hemorrágico
menos e menos mágico
à medida que o sono
ou a morte por ele
me entra no quarto
e me apaga a luz.


8

Sem que me deixes ver a tua pele
dá-me senhora
a tua pele.
Não precisas de respirar perto de mim
senhora
para que o teu ar seja o meu bafo.
Senhora senhora.
Entregamo-nos
nós homens
a velhos hologramas.
Gostamos tanto de mulheres que
as mulheres nem precisam de gostar de nós.
O Everton perde três-um na ida a Manchester
(outra cerveja, Sílvio!).
A lua controla as marés com um apito de prata
que só os lobos ouvem.
Sem que me digas
sem que me lo digas
sei senhora
juro senhora
que sei quem és:
tua mesma lua
tuas mesmas marés.


9

Coração de rola
asas de verdelhão
riso-rio na boca
na boca muito vermelha
de álacre bico-de-lacre
em todo o gesto passarica
sassarica gaia e triste e feliz
como toda a ave
pássaro fêmeo
espanador de penas
e sofrimentos
debicadora senhora
da masculina semente.

Para mim, pássaro.
Para outros, apenas gente.


10

Minha senhora
chamei
acertando no senhora
falhando no minha.



11

O estômago, como uma bolsa astral, mama o pus das afeições.
Tudo lhe dá forte. O amor como um saco de cimento engolido sem azeite.
Esta paragem das funções importantes: rir, ir dar uma volta, ver um jogo,
pedir uma fresca, ver um fogo.
Esta aceleração da espiral matadora: o caracol da íris, a cosmogonia da orelha,
o brinco brilhante, a pérola dental, a rija carnação, o peito sopesado pelo vento,
as mãos esperadoras.
Sujeito e objecto do amor amargarinados ao sol: fusão de corpo que
se deita sozinho e pensa no holograma que dorme algures,
noutra noite, rente a outro estômago.



12

O sangue: espremida cereja da boca da minha senhora.


13

O rio é o tempo o sono é a morte o homem é a árvore.
A mulher é o rio a mulher é o sono a mulher não é o homem.


14

Doçura
palavra de laranjeiras pela tardinha
lentos homens em demanda de bares
o verão precoce adoça as laranjas
amargura é coisa humana
humana palavra pulsando no estômago
esse rés-do-chão do coração
do alto cai a tardinha
tudo cai do olhar
as mãos sobretudo
o sono o vinho as cadeiras de plástico
a televisão as rodas pretas chamadas olhos
as mãos peludas chamadas oliveiras
tudo cai do altar do dia
a mansidão portuguesa do tempo de Portugal
país onde por acaso nasceu a minha senhora
os carros olham de vermelho por trás
táxis procuram homens como homens
procuram mulheres
e é esse o menos doce dos jogos
dos fogos
e por isso a amargura
por isso o fim do dia
a noite escura.


15

Quarto do homem.
Uma cadeira
(nunca se senta nela, só lá põe as calças)
uma estante
(livros de aventuras e erotismos de contracapa azul-bebé)
uma janela
(quadrada, pequena, dando para outra janela, pequena, quadrada)
um gira-discos
(a agulha partiu-se e já não vendem)
discos
(êxitos pulverizados pelo esquecimento)
uma cama
(sobre que o homem,
sem calças,
sem aventura,
sem mulher,
sem vistas,
sem música,
lembra).


16

Dá-me senhora
com um olhar
a cotação do mármore de Moçambique.
Com um gesto de mão olhada
dá-me senhora
a acção do cinzelador.


17

Os meus amigos reconhecem a minha amizade por eles.
Também sabem como lido com os bancos, se vou ou não comprar carro, bananas ou cigarros.
Mas desconhecem como ficam
azuis os pinheiros
e rosa o mar
quando a minha senhora
(por puro descuido, estou certo)
lhes pousa em cima
o olhar.


18

Gosto de tocar louças velhas e loucas novas.








19

Os panzers foram transferidos para Mannheim.
García Lorca esteve em Nova Iorque.
Vitorino Nemésio foi pelo menos sete vezes ao Brasil.
Levaram Carlos Paredes para Campo de Ourique.
Mas onde estás tu, minha senhora?


20

As minhas manhãs são frias
as tardes da minha senhora são frias
são de fogo algumas das nossas noites.

Estamos nus dentro dos olhos
toda a nudez começa nos olhos
toda a nudez acaba nos olhos
os olhos granadam a nudez
a nudez rebenta na noite
a noite desata a arder
parece uma cubata.

As minhas manhãs são frias
as tardes da minha senhora são frias
são de fogo algumas das nossas noites.

As mãos procuram os cigarros
os cigarros pirilampam no escuro
caçadores do próprio lume
adensa-se o escuro em torno do fósforo
adoça-se o escuro em torno do fósforo
as bocas raspam a lixa de uma a outra
as bocas desatam a arder.
Isto de noite.

Mas as nossas manhãs são frias.


21

A pátina do tempo no rosto da minha senhora.
Essa papada sob o queixo.
A mama já flácida, ácida já a voz.
A barriga cansada, os pés doentes.

Mas a boca.



22

Dá-me senhora
um olhar lento como azeite que aceite as oliveiras da alma
fala-me na linguagem das abelhas
fala-me da solidão dos linguistas
de um perfume de França ou do quintal

Dá-me senhora
um copo de chuva
uma pedra de sal
uma pensão limpa
uma palavra arejada

Dou-te senhora
a história do homem sentado na tarde de comboios
a flor do cuspo
o número do telefone
o suor do macho
o vento de Peniche
uma pedra de chuva
um copo de sal.


23

Era por uma santa tarde de fins de Março.
Ela dormia. Ele tinha um barco.
O rio estendia uma toalha de água por sobre a mesa da terra.
Ele forjava os frutos da terra: o amor, a morte, o sal.
Ela dormia. Sonhava com oliveiras povoadas de cavalos.
Ele tinha um barco chamado Cavalo.
Ele era o barco.
Ela era a água.


24

A boca da minha senhora anda a dizer coisas
que hei-de transformar em materiais de construção
para fazer uma casa, pois então.









25

A cara do homem que ama é uma bomba de sangue.
As paredes daquela casa de que vos falei hão-de ter escrita
a história do rebentamento da cara do homem que ama.
Há um excesso. Ele sente-se rebentar.
Ele acumula livros e tardes históricas.
Ele está sozinho.
O amor é a forma que ele encontrou de estar sozinho.
O corpo dela não resolve nada.


26

O amor mostra que a morte não é uma possibilidade.


27

Acordei na manhã fria.
Abri a janela. Vi um cavalo.
Pastava a erva habitada por caracóis e gotas de água.
O cavalo levantou a cabeça.
Eram os olhos do meu senhor.
Fechei-me na casa.
As minhas mãos apareciam no ar.
Apareciam no ar como a fruta e as lâmpadas.
Fruta viva e acesa, com as mãos toco ao longe
o cavalo comedor de caracóis,
o cavalo comedor de gotas de água.


28

As palavras sempre me apareceram
como mulheres
no escuro.
A diferença é esta:
minha e senhora
apareceram-me de manhã.
São palavras com dentinhos e viva carnação.
O cuspo rondava a lubrificação
dos ferros que me dizia
para iniciar a construção.
Amei-a ali e logo.
Logo ligo, digo.
Ligo:
Estou.
Sou.
Também eu.
Aí vamos.
Volta para casa.
A casa escura
onde o coração
onde as palavras
e as coisas restantes.


29

Vejam comigo esta poça de luz branca, este relâmpago de laranjas brancas: a carne da lua entra pela janela e faz-se o corpo da minha senhora. Ela está calada. Está a dormir? Pode ser que sim. O silêncio dela põe uma pele de pêssego nas coisas, eu incluído. Procuro a minha roupa. Não posso abandoná-la, mas tenho de me ir embora. Não posso morrer sem ela, mas obrigam-me a estar vivo noutros sítios, noutro tempo. Parto. A lua lá está, presa dos americanos e dos mais desgraçados homens: os que partem.
30

Um homem está sentado na tarde da estação de comboios. O vento vem de lado, põe as pombas coxas, passa uma mão fria pelas casas. O rio está todo arrepiado. Março é um mês muito poderoso. A amargura nota-se muito. Os pés do homem, vestidos de pele de outro animal, estão assentes no cimento. A mão esquerda espera a fotografia pousando sobre a coxa do mesmo lado. Os olhos deste homem já viram todos os comboios, sobretudo os que partem. O amor tomou este homem. Todo o homem se apresenta queimado pela fritura do amor. Parece não se importar com o assunto. Um homem está sentado na tarde de comboios, os comboios chegam e vão como horas. A vida é sempre ferroviária: origem, destino, horários. No entretanto, um odor de creolina, recordações como apeadeiros, vagos rostos rápidos entrevistos contra um fundo de pinhal, cavalos pastando na eternidade, lances de chuva, cidadãos estrangeiros. Ao longo do trajecto, ou o amor ou a loucura dele. No compartimento de segunda classe (a primeira classe é a dos sonhos), o homem fuma em silêncio. É uma hora pouco concorrida. A boca do homem é encontrada pela sede. Abre uma janela, passa a mão pelo vidro, bebe ao preço da chuva. Telefonaram-lhe. Ele vai. Esperou dias pelo sinal. Esperou anos. As lições do desespero não o mataram. Ele está vivo. O nevoeiro desce a noite, essa preta ladeira que sobe um homem. Tudo é a noite. A cidade está enterrada na noite como o coração está metido no corpo: profundamente, para sempre. Para sempre? Se ele quiser, não. Tem uma senhora que o espera. Ter uma senhora é ter o código da manhã. É de manhã. O homem está vivo. Vai à janela, vê um cavalo que pasta. O cavalo levanta a cabeça. O cavalo levanta a cabeça do homem. Tem olhos de mulher olhada: olhos de cristalaria, dois mundos químicos. As moscas voam em torno do cavalo. Graciosas por amor do homem-cavalo (do homem-barco), as moscas entontecem na luz. Safiras voadoras. As moscas, os olhos: safiras voadoras. As orelhas que partilham a cosmogonia com os caracóis. As partes do corpo são as partes do mundo. O motor do amor é a infelicidade. O homem apresenta a cara ao mundo como se apresentasse outra pessoa. O mundo: a cidade com seus quartos de pensão velozes como compartimentos. O homem no quarto. Sentado na cama, a fotografia ainda agarrada à coxa. Nas costas do homem, há uma mulher deitada. Ouve-se o bafo. Uma alegria desordenada, uma pulsação de rosas de Inverno. O homem ergue a luz da lua: na cama, uma poça de luz branca: a mulher. Ele estende frutas maduras: as mãos. Todo o dia viajou para isto. A maior viagem é a travessia do dia para a noite. Cosmogonia: agonia, cosmos. A poça de luz volta-se sobre o flanco. Um gesto de junco de junho. Acordou, a mulher. Ela está calada na neve de prata. Ela olha o homem. O homem fica quieto na tarde do cavalo. Minha senhora, diz o homem. Acerta no senhora, acerta no minha.



Primeira redacção: 3 a 31 de Março de 1999
Refundição: 29 de Abril de 2004

1 comment:

Paula Raposo said...

Leio-te porque gosto...porque me ensinas que a vida continua...