Thursday, August 30, 2007

Excessiva Estrela


(alguns poemas para o meu amigo João Portulez
enquanto não reabre a Feira Popular)


1

Se se nos consumam flores algumas horas,
mérito das horas, não nosso.
Não tem mal, isso, se de todo nos não
foge, ainda não, o merecimento de,
em algumas horas, ver uma consumpção
própria de flores.

Assim dias e assim anos.
E vidas assim:
algumas só,
porém.

2

Recordo para a frente alguma chuva
enegrecendo alguns bosques.
A precipitação era grave como a mente.
Gravemente, escrevia a chuva negras letras
em árvores de papel
só amanhã legíveis, quando não souber
que as recordo.

3

Pedrarias incrustam taças.
Assim algumas palavras, algumas bocas.
Algumas só a só algumas,
porém.

4

Nascemos para que os rios se saibam vistos.
Pagam-nos eles com o tempo de cotejo que são,
até quando invisíveis; ou nós mortos.

5

Sangram os telhados fulvos à luz do sol.
Casas descem a encosta da montanha,
cheias de parados homens dentro.
Musga-se a manhã de tácitos orvalhos e plácidas ovelhas.
Flameja depois a grande ourivesaria da tarde.
E, à noite, subimos a preto-e-branco
de fechados olhos, a pele aberta às
visitações da janela.
Se nos pulsa dentro a tristeza como
um coração suplente, está bem.
Uma cabeça amarela é o candeeiro cabeceiro.
Ao lado do copo com água, o livro de outro homem.
Quase ternas como irmanações, as
pantufas, no chão, nunca deixam
de apontar o futuro.
Frente a suas ponteiras digitais,
a parede.
Depois da parede, antes da Lua,
o telhado.

6

Facas nadam dentro de água.
Só a luz as distingue:
tendo a confundi-las em
prata e verde.
Sei que são palavras:
não são aqui essa marina,
nem essa cutelaria.
À distinção, pode chamar-se
poesia.

7

Todo o excesso, deixa-o aqui.
Na poesia que quer ser poesia.
Na vida que se não sabe viva.
No ter ido ver peixes cujas
mudez e nudez
equidistam entre si
como estrela de
si mesma.
Excessiva estrela.

8

Uma tela de amianto entre ti e o teu coração.
Norueguesa água-pesada metralhada a gelo.
Aço, observação, acção, óbice, semelhança.
A vida é enciclopédica e engenheira-capataz:
tu és o operário dela.

9

A deitada tela do mar
tem pinturas.
São vivas e não obedecem
a galerias.
Olhando tainhas,
de hienas podemos falar,
tida em conta a voracidade
e a tristeza a que,
acima do mar,
preside a divórcios
e a gestão de filhas.
Na dupla régua que ensina
latitudes e longitudes,
o coração é um ponto
salgado e sujeito a golfos.
Nos fins de tarde,
ou de semana,
não é diferente.
Nos fins de tarde,
um homem não envelhece:
assiste ao envelhecimento
e nada é, no geral, nada
com ele
porque,
naturalmente,
tudo é com ele,
quando ele
se faz ao mar.

10

Os outros homens fizeram coisas
que lhes adiantou sobreviverem.
(Se tivesse escrito
– que lhes sobreviveram
teria escrito uma banalidade.)

Os houtros omens
etc.

11

Nenhum cancro de vida deixa de proporcionar
uma morte asséptica.
Sentemo-nos e fixemo-lo.

12

De uma sossegada renda (de dinheiro e cortinas)
flui a sombraluz da minha cidade, a que voltei
em plena glória literária e pós-viril.
Hamburgam rulotes, é certo, mas é possível,
finalmente, conversar sobre as coisas e sob
os plátanos, aposentados de minha mesma – e
vossa também, já agora – glória.
Ou não.
Ou então,
outra coisa.

13

A criança estabelece uma claridade
dotada de inegabilidade.
Os coisos que a geraram não contam
para o totobola.

14

Flores de costas na água de um tanque.
Olham para o céu com tanta atenção,
que parece, o céu, diferente: cá, em baixo.
Ele há boletins que daqui crescem.
Os sistemas de orientação na solidão.
O vitrofusco dos tilinvidros no bar da
quinta-feira.
A memória toda botanizada pela
mesma natureza da memória:
costas e nostalgia de luz, cá, em baixo.
Eu digo que noutros botânicos.
Tu não dizes a qual luz.
Mas são a mesma coisa:
dizer, não dizer.
Ficamos assim.




Foto: Figueira da Foz, 28 de Julho de 2007
Poemas: Caramulo, tarde de 30 de Julho de 2007

1 comment:

LM,paris said...

o numero 5 daniel, mata-me!
" Musga-se a manha de tacitos orvalhos.Flameja depois a grande ourivesaria da tarde. "
Vamos todos fazer muita força para que a sua poesia deslize do blog e flameje( diz-se)?...em livros abertos nas maos de muitos!
Tem de ser!
Amén.
Obrigada pelas rosas, sao rosas senhor, e afinal ela, a santa Isabel, cheirava a lirios, foi o Patricio que disse e eu acredito no que ele diz, ou disse.Lm, paris