Thursday, September 15, 2005

O Onicófago - I - Dolores, Mãe de Kafka

(Noutro caderno, uma escrita já remo(r)ta. Era decerto o ano 1999. Eu vivia virado para uma colina de pinhal onde uma casa velha e desabitada se me mostrava em plena glória acabada. Perto, um prédio de apartamentos nascia grossamente. Já não vivo onde vivia. O texto aguentou-se, calado, numa das gavetas que, teimoso, vou reabrindo. Como quem reabre feridas. Enfim. O livro inacabado, talvez para sempre inacabado, chamava-se O Onicófago.)


Dolores, Mãe de Kafka

Casa no monte.
Os habitantes saem de manhã cedo, voltam à noite.
Voltam à noite com a carga de cavalos das horas.
Comem, deitam-se no escuro.
Ao contrário do que acontece com os olhos, podemos controlar os braços e as pernas.
Os olhos produzem o olhar, que se serve de nós para manter a realidade no sítio.
O sítio da casa é o cimo de um monte pequeno.
A casa é verde, mas o tempo e os temporais têm despido a casa de a cor verde.
Sobra uma pele de estuque.
Os caixilhos das janelas nunca foram mudados.
O vento canta bailes.
Os habitantes da casa verde não ouvem.
Crianças (três). E os adultos: uma avó que geme, o pai seco, a mãe.
Sopa, a caixa do pão em que o pão se confunde com a madeira, o cubo de toucinho que açula as moscas.
Ninguém espera na casa.
A espera não é uma ciência.
Bocados de lenha parecem cães deitados.
A criança mais antiga balouça-se no carro de mão.
Baba filiforme assinala o sítio da boca.
Olhos de sabão azul. Pele de tanque da roupa.
A mãe está prenhe.
Saem muito cedo.
O pai pratica alvenarias, carrega caixas de fruta no mercado abastecedor.
A mãe leva as crianças para a cidade. Todas pedem.
A avó fica. Só a avó conhece o que é a casa de dia. O sol etc..
A realidade é enorme, toda minuciosa nos aparece.
O tempo não é de semanas, neste sítio. É feito de ossos que crescem, estalam, adivinham a chuva.
O céu é a cave das crianças adormecidas.
(O céu jaz sob nós na infância, escreve Wordsworth).
Cheira a pés e ao cubo de toucinho.
A ureia da avó substitui o ar.
A lenha incha e seca, apodrece e nasce.
A baba da menina semeia caracóis no panasco.
O vento cantor enfunaria o desespero, se o desespero fosse alguma coisa de comer.
O pai achou um livro no lixo.
É a Lolita de Nabokov.
Rasgam as folhas do livro para limpar o nó cego do corpo.
No catre conjugal, embora raro, o pai e a mãe discutem economia (quantas moedas recolheram do dia), sociologia (quantos automóveis e quantos homens ricos viram passar), obstetrícia (a barriga dela range como uma igreja), literatura (o que a mais velha disse a sonhar).
Um coto de lápis de marceneiro é encontrado pela mais velha.
Atira-o ao lume.
O pai acode, tira o lápis do lume.
Levanta a mão queimada para bater na criança.
A criança não se encolhe.
Os olhos de sabão azulam a cara do pai.
O pai recolhe a mão.
Devolve o lápis à menina.
A menina atira o lápis para o lume.
As horas são as flores da casa.
O lume solfeja a passagem.
A duração, não a adoração.
Cristo é só uma história da avó.
Partiram o queixo ao pai numa rixa de desempregados.
Havia uma greve. Ele precisava das moedas.
Então a mãe começou a levar as crianças.
A cara pulmonar ajudou-as nos primeiros dias.
Mas só os pobres dão esmola.
Se os pobres estão desempregados, não dão.
Há um julho qualquer nas famílias: um tempo dourado, uma maçã encastoada na memória, uma película de naftalina que evoca a História e os Antepassados.
(Não. Não creio nisto.
Não espero. Não sei.
Não gostaria de saber.
Escrevo contra a vida.
Tenho frequentado restaurantes.
Salões de dança.
Conheço a nossa vida de pêssegos:
um caroço de cianeto é-nos o coração.
Hoje, tenho a história da casa no monte.
Amanhã, tenho outra história.
Um dia, não.
Espero. Sei. Creio nisto. Sim.)
A noite ensina-lhes o regresso.
As crianças fazem pequenas corridas.
A mãe leva a mão à barriga, onde outro coração.
O Nabokov vai a meio.
O pai lê enquanto tudo se esvai: o corpo, o tempo.
Guarda o livro.
Mas as crianças e a mãe também gastam da literatura.
De modo que a história de Lolita tem sobressaltos que o pai colmata com a imaginação.
Habituou-se aos nomes estrangeiros do romance.
Parecem os nomes da fruta estrangeira sobre os ombros dele.
Bebe vinho uma vez por semana.
(Eu sei, não há semanas no tempo desta casa.
Isso foi o que eu disse.
Não acreditem em tudo o que digo.)
Regressa a casa como um imperador.
Sacode dos ombros a mosca do nada.
É dono do seu corpo. É dono do corpo da mulher.
As crianças ouvem-nos.
É uma ginástica mortal.
Ele pincha sangue e leite nela.
Ela recebe as marés.
Não é o amor da tradição. Isso, não.
É só um homem cravado numa mulher.
Aqui sim, há espera.
Ela espera que ele se acabe.
É como um ataque cardíaco.
Um estremeção, um ter subido aos níveos despojos da montanha, esse queijo masculino que inicia as almas do mundo, os trabalhos do mundo, as formigas do mundo.
O vinho está na semente do leite.
As crianças ouvem.
A avó sabe.
(Dispomos de todas as palavras erradas.
Não controlamos o olhar.
O produto dos olhos revela-nos: cloreto de sódio, literatura, uma casa no monte, o abominável homem das neves, a sardinha descomunal do Loch Ness, o prestígio da gabardine de couro negro, a rapariga de gaze que vi na tarde de comboios, os amigos que alimentam as toupeiras da consolação, esta vida demorada, esta tarde de comboios, esta tarde, hoje, esta casa, este monte, o homem cravado na mulher, a tristeza que sucede ao leite e antecede o sangue.)
A avó aparece morta como antes aparecia viva.
Levam-na numa caixa de madeira, como se ela fosse pão, ou fruta.
Fica dela o rumor da ausência, outra maneira de estar.
A Lolita vai nas últimas páginas.
O pai ganha mais moedas, bebe mais vinho.
Fechadas as sombras do corpo-prisão.
(Wordsworth, Yourcenar - agora sei.)
Oh como cresce a mais antiga das crianças!
Torna-se na mais nova das mulheres.
O perigo ronda. Ela há-de ser fértil, apesar do fio de baba que a desce.
Os flancos já crocitam, já se lhe amorangam os mamilos.
Lolita, Lolita.
(A intempérie no caldo de tormentas do meu coração.
As moscas esquadrilham os pés adormecidos dos meus mortos.
Cresço para ser uma árvore lúcida.
Colo a alma à parede para que um dia ma leiam.
Consulto no espelho a extensão e a profundidade da ferida chamada olhar.
Pestana diurética de quem se comove com facilidade.)
A rapariga baba-se no escuro da floresta.
O lenhador ia passando. Viu-a.
Olhou, roedor, em derredor.
Toma a menina, está desde sempre à tua espera.
Não menina já, não ainda mulher.
O pai há-de morrer numa rixa de bubas.
O tempo come e bebe o tempo.
O tempo defeca o tempo.
Quando Dolores parir, o tempo come o tempo, que é como os olhos, que não podemos controlar, como fez Kafka, parido por esta menina nove meses e tal depois desta história.

No comments: