Tuesday, September 06, 2005

De Lavado

Acontece ser verdade, às vezes, digo que se nasce quando se acorda, há manhãs que sim, acresce o milagre de se nascer já com um idioma e um passado para além da barriga da mãe, das bolsas do pai, e então todo o futuro é coisa imediata, uma coisa pronta a estrear, como um presente, um achado, um encontro, um telefonema, uma promessa, uma praia tão recente como o mundo e tão por-vir como uma cria de gaivota, acontece, hoje aconteceu-me.
Nasci cedo, a luz estava armada na janela como uma tenda de vidro, tinha chovido de noite, o que me sossegou decerto o sono, que há muito não era tão tranquilo, tão despovoado de fantasmas, demónios e prestações bancárias, tinha chovido na terra do quintal, a terra cheirava a si mesma, que é ao que cheira quando o céu se toma dela, brilhava de lavada a latada de uvas, hasteava-se de verde rutilante o humilde pé de couve, aparecendo o castanheiro grande como um adamastor domesticado, desaparecendo na aura do esquecimento a tortura incendiária do verão, cedo nasci hoje.
Cumpriu-se tudo até agora, o sorriso do homem que me tira e põe a chávena de café, a espessura igual mas nova do jornal do dia, o rodar trôpego da bicicleta pedalada pelo vizinho deficiente das pernas, o bafo marinho da peixaria aberta desde madrugada, a visão aérea sobre a via rápida do alto da ponte, a vivenda encerrada dos vizinhos que nunca conheci nem conhecerei, talvez porque tenham morrido no Canadá, a chegada ao trabalho com o coração arrumado na caixa de ossos forrada a músculos de veludo, os olhos revestidos de verniz mental, as palavras de recém-nascido permitindo a frase nova, a história nova, as novas pessoas que hoje vou inventar como se de verdade acontecessem.


Tondela, 6 de Setembro de 2005

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