Wednesday, September 14, 2005

Segunda-feira de manhã, regressava de comboio a Pombal. Vinha de casa de minha mãe, onde passara um domingo entregue aos ardis da nostalgia. Na carruagem, seguiam apenas três outras pessoas: duas mulheres que conversavam de doenças e um idoso que lutava contra a desordem das folhas do jornal. A minha alma viajava de pé, inquieta pelo receio premonitório de filho quarentão que deixa só em casa uma senhora de 80 anos.
E todavia não era uma hora precária. A glória democrática do sol fazia coruscar a pele das mãos, como se as tivesse de ouro. O comboio cantava como um escuteiro, as duas mulheres ladainhavam tranquilamente as respectivas hipocondrias, eu olhava os campos de água com que Novembro imita terrenamente o céu e o velho homem, tendo desistido de ordenar o Diário de Notícias, limpava as unhas reformadas com um canivete de cabo de madeira.
Foi então que do bolso do casaco me saiu um pipi de mensagem escrita. Saquei distraidamente o telemóvel. A mensagem era do João Pedro, pelo que me preparei para sorrir à esperada leitura de um dos amáveis insultos do costume. Não sorri. A mensagem era: “Morreu o Tó Mas!” Assim, sem mais nem menos, com a pureza lapidar da desgraça.
Toda a gente sabia que sim, que a doença do Tó era sem regresso. Mas mesmo assim. De repente, foi como se o meu comboio tivesse entrado num túnel. A sombra pariu o seu ovo negro. O sol perdeu a glória, a água alastrou pelos campos até não sobrar vestígio de terra, casa ou árvore. As aves debandaram dos céus agora baixos, mortais agora.
Sozinhos, valemos nada. Valemos os amigos que alcançarmos merecer, a família que soubermos manter, os amores que pudermos cativar. No desaparecimento de um amigo, passamos todos, cada um por si, consigo e em si, a valer menos. A morte de alguém como o Tó desbarata-nos em remédio. Empobrece-nos sem esperança. E, estranhamente, purifica-nos, porque nos revela como verdadeiramente somos: animais nus acossados pela evidência do malogro.
Desci do comboio de joelhos desconjuntados pela incerteza. Aonde ir, na manhã acabada? O meio-dia subia o escadote solar, indiferente à má notícia, mas as casas, os cães, as pombas e os pombalenses pareceram-me mais obscuros que de costume. No jardim, a brisa não catava à palmeira a caspa de pardais de outros dias: os dias de quando ainda o Tó. Procurei o alento de outros amigos destroçados: o César e o Arlindo, entre outros que a tarde me permitiu somar à resignação.
Terça-feira, 23, teremos todos estado no funeral. De olhos molhados como campos de Novembro, haveremos de ter conciliado a saudade viva com que, ao menos, se torna possível negar à morte a estupidez da sua vitória inútil.
E, no regresso de lá de cima, apaziguados finalmente pelo sono peremptório de tanto mármore, cada um de nós, Tó, terá retomado o comboio que a cada um de nós levará de novo até ti, um dia democrático e solar.




Nota: este texto já tinha entrado neste blog, mas sem foto.
Hoje, lembrei-me do Tó. Era um homem bom. Só isso, que é tanto: um homem bom.

3 comments:

Anonymous said...

Tá bem, mas tão bem escrito como sempre.
A devolver-nos o compasso à respiração.

Anonymous said...

oops, queria dizer "tão bem"

Anonymous said...

...que a terra lhe seja leve...