21/12/2019

CADERNETA PRETA - 18




18. Dando no Mundo o Meio-Dia das Coisas


a) Segunda-feira, 25 de Novembro de 2019


Juliano Dacosta andou embarcado na Mercante os anos q.b. para viver hoje de ¾ da pensão completa. Viúvo, sem filhos, inquilino de quarto/copa/latrina em prédio da linha fluvial provavelmente já demolido quando esta caderneta chegar à 2.ª edição. O pai, Hermano Dacosta, andou ao volfrâmio, contrabandeou alguma coisa, acabou por montar & manter venda naquele alentejano morredouro-de-deus onde Fialho de Almeida vegetou invejas verdes do grande Eça.
Costumo ver Juliano quando posso andar ali por bandas de S. José. Empresto-lhe livros, que ele lê com o mesmo escrúpulo com que mos devolve. Esparsamente, lembra-me por vezes passagens lidas. Gosto de ouvi-lo evocando agora o Namora d’O Rio Triste, agora o Orwell da Homenagem à Catalunha, algumas vezes o Soeiro de Esteiros, uma vez ou duas o Malaparte de Kaputt. Estes trechos de conversação acontecem quando na rua, apenas. Se nos abrigamos na taberna, ele impede-se de parecer livresco no âmbito da demais malta bebedora & petisqueira. Aí, fala-me dos mares que devassou, de certa mulher que ainda o espera em Timor, de rarefeitas recordações relativas ao pai. – E a sua mãe? – atrevo-me eu. Juliano responde-me em uma prosa assaz mudável para a batida decassilábica, a qual se segue:

A Mãe era gentil e apagada.
Tinha o nome da mãe, da avó já vindo:
Maria da Visitação Celeste.
Morreu, já não sei dela, só o nome.

Senhoras de feições e vestuário irrepreensíveis, seis no total, reúnem-se, não sei se em Oxford, se em Cambridge – aqueles topónimos colegiais, confundo-os sempre. É no ano 1901, disso estou certo. Eça de Queiroz morreu no Verão do ano anterior, mas não em Inglaterra, perto de Paris sim, ali para Neuilly. O século mudou, é o último do respectivo milénio. Esta ilustre meia-dúzia de damas constitui A Comissão – mais uma caridadezinha protestante, nada de notável em si. As senhoras, todas – menos uma – abastadamente casadas, chamam-se: Hannah Morsley-Prive, Gwendolyn Huxley-Ashenden, Cornelia Swansea-Astray, Isobel Marriott-Maugham, Dinah Ivanhoe-Montgomery – a restante, viúva e dentre todas a de maior fortuna, é Lady Judith Carson-Morgan. (Sim, a própria, segunda & última mulher do late-great Sir Walterion Roth Carson, proprietário das mais extensas pastagens neozelandesas.)
Prepara-se o colonato de férias estivais para filhos de mineiros do West Riding. Brighton não é aconselhável, pelo que se escolhe Ipswich. (Falha-me acuidade neste detalhe. Ipswich pode que não seja, mas sim destinos alternativos como Blackpool, Southend, Scarborough etc.)
O chá é servido ao bater das cinco. Às seis menos um quarto, Lady Cornelia cai morta no jardim, área por que passeava digerindo aquele monóclito clã. Lady Isobel, em consequência, desfalece. Peremptoriamente convocado por Lady Judith, o jardineiro já se disparou de bicicleta rumo à esquadra central de polícia. A mulher do jardineiro acorre de frasquinho de sais, já recobra senso a desmaiada Isobel. Cornelia continua aferrada ao seu novo estado. Ai cair, derrubou a porcelana de biscoitos e a leiteira, no que terá sido, aliás, uma derradeira impertinência da parte dela.
Tirante este pormenor do leite derramado em vão, nem a História nem o narrador rezam mais.

Uma lagoa cheguei a conhecer por volta dos meus trinta anos, ficava a oeste do meu emprego de então. Lamento hoje não ter arranjado casa por aquelas cercanias. O Verão era por ali bem mais macio. A fruta natural da zona ganhara justa fama até Espanha. Nessa altura, eu dispunha ainda de fartura de amigos, rapazes & raparigas sem sobressalto e capazes de fruir todo o sábado à face da lagoa. Certa vez, dois casais nórdicos ajuntaram-se-nos. As falas foram especiosas. Oferecemos-lhe do nosso pão, o que muito os gratificou. Ainda me correspondi com eles alguns meses, depois o brasido extinguiu-se com a naturalidade toda.
Neste quarto-de-século entretanto ardido, não voltei lá. Os amigos encasularam-se, tendo eles feito muito bem.     (Alguns deram-se até ao luxo de morrer, tendo eles feito ou bem ou mal, conforme as viúvas que deixaram.) Não tenho sabido deles, também não é meu uso andar por aí a campainhar grades. Já com a família é o mesmo, as coisas são assim, valendo-me que os livros nunca falham – são, por assim dizer, lagoas paginadas a cuja margem volto a ter 30-20-dez anos até. É só querer, pode(i)s crer.         

b) Terça-feira, 25 de Novembro de 2019

Tenho de aliviar certa crescente misantropia que me vem tomando – e não há meros dias mas feros anos. Preciso de desagravar-me do vulgar piteco que vocifera no autocarro, da porca que vilipendia a cria, do modernaço com a sexualidade a tiracolo. No resto (porque é deveras resto) de tempo que me hei, o remédio é o intervalo-da-chuva, o pano-de-sombra em caso de fervor excessivo. Sim.

[Vi na Rua Nova (tão velha já) uma pomba coxeando. Lembrou-me o senhor meu Pai. Que estranha é a mente quando a não larga o amor.]

(Futur’antigamente falando, o meu caminho é trovado.)

Saí um pouco, a tratar de papéis fáceis. Faz o tempo de que gosto: cinza, poalha d’água, nem frio nem calor. Vi maus livros em monstras que desejo me não acendem. Dava no mundo o meio-dia das coisas. Sendo tudo para mim, fiz que nada era comigo. Amestrei-me nisto, mormente a partir de 1986. Digo mormente – posto que já antes se me ensaiava uma mundivisão verbal, por assim glotófila & glotómana.
Depois como antes, aquele trecho de Mondego raiando, par’além, Santa Clara; par’aquém, esta literatura.
Já todos nos deitámos ao relento? Sim – mas poucos o reconhece(mos). Ocorre-me um senhor de Vieira de Leiria/1927, nome literário H. Silva Letra, autor de A Palavra Fascinante. Não sei mas sei porquê, como. Juvenil memória, prazer da obra finalmente adquirida. A Pomba-meu-Pai dava-me os escudos para a incipiente livraria. Deus lhe perdoe.

Ainda Coimbra dá de si pertença.
Moços da vid’airada, fustigados
de velhice lhes dada, tal doença,
penhoraram guitarras com seus fados.

*

Um homem perto da orla da mata
recebe o grande ar molhado do rio,
é único em sua diáspora sem fuga,
vazia é a casa a que não chegará.

O corpo aqui o trouxe, não foi doce
o soldo da travessia, óbolo amaro,
às vezes basta uma frase, sinal
de vou-ali-contigo-à-matosa-orla.

Este poema é sobre homem por não ser mulher
Quem o autor/iza, já agora & por assim dizer.
Mínima praia: lâmina d’areia pós-choupos.
Nenhum cadáver de tricana.

Dez anos nisto, primeiro.
Menos mais quarenta, depois.
E uns trocos, 1970 de repente.
A senhora mexicana sob o trolley-bus na Rua da Sofia.


Existir fortemente sem esforço é, parece, propriedade exclusiva da animalária não-ciente. Acolho-me a meu gato na casa sitiada, novembrina, calada que nem rato. É quase triste não ir em futebóis. (Também é quase alegre dar confiança a ciganices.)
Existir – dizia. Ser é outra coisa. Por umas moeditas poucas, cavalheiro, cerce & célere lho explico.

(Arquipélago de Tristão da Cunha, algures no Sul’Atlântico. É britânico, dizem. O vulcão chateou-se em 1961. É para lá que a minha poesia tem querido ir.)

O preço das coisas é de ordem ultra-humana, não pode cotá-lo o humano senão com a vida. A palavra reserva-se palavra, até em acto-mudo. Junta alguma lenha, mesmo da que está húmida. Este gato confia nas minhas pernas, nas minhas mãos nem sempre. Amanhar terra sem drogados rondando-nos a casa pela noite. Nato & tanato. Sábio como a lenta criança, o velho rápido sem amor pela celeridade. Cão da minha alma, este gato. Este lápis vendendo-me a alma ao desbarato – tinta por vezes. O barco não volta, se nunca veio. Este gato – cão nas minhas pernas juntas de puta-comedida. Assim tal a minha vida.

Pela praia vai Anelo Diamante
Seguro vai ele de sua calma
Anjo da invenção, mas já o corpo
Mas já o corpo o apresa, o torna fácil
À praia arriba Anelo Diamante
Preso vai ele mas seguro & anjo
(…)

(…) Não remato o poema por ter vindo o 28, que francamente eu não esperava tão cedo. Foi uma prenda do acaso. Em dois nadas, vi-me devoluto a casa. As imagens devieram mais construídas a partir de, por assim dizer, outro dentro. Dispus-me a elas. Alice, André, Tomé, Eunice.

Alice, de 1943, entrou no ano 2000 a dormir. Recusou convites, aliás distraídos, que lhe fizeram chegar. Folheou uma enciclopédia, demorou-se um pouco no dia 1 de Julho de 1916 (sábado), Batalha do Somme, mortos de farda em barda. Tomou camomila infusa, dispensou o calmante, adormeceu antes das onze da noite.
André, de 1958, percebe de mecânica automóvel. Anda a estudar os novos híbridos. Não é a profissão dele. Trabalha numa pecuária. É o que até ora a vida deu. Certo inverno, saindo já noite do trabalho, avistou luzes alaranjadas e em forma de charuto no céu baixo. Ovnis boreais talvez. Nunca falou disto a quem fosse. É a primeira vez que se sabe.
Tomé, de 1970, casado com Paula Isabel. Ela é de 1971. Casaram ainda crianças, ano d.C. 1988. Tiveram o Miguel em Janeiro de 1989. Perderam o Miguel em Setembro de 1990. Ele não suportou o choque, deu em bêbedo, é a mãe que o sustenta. A Paula Isabel está fixe, casou-se outra vez – mas desta vez com um homem-feito, desses que só bebem natal-&-ano-novo.
Eunice, de 1924. Toda a gente diz que há-de chegar aos cem & upa-upa. Ela ri-se. Ela ri-se sobretudo quando lhe não dizem nada. Antes sozinha, pensa ela, que mal etc. Morreu hoje, logo hoje que a Tina Turner faz 80 anos.  

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Canzoada Assaltante